Carcereiros
Fuga sangrenta
Quando a porta foi aberta a pontapés e Gringo avançou com o revólver até encostá-lo no ouvido do diretor à cabeceira da mesa, Luizão teve certeza de que seus dias chegavam ao fim. Não lamentou a sorte, pelo contrário, achou que a merecia.
Naquela segunda-feira havia saído com a esposa, da casa em que moravam nas dependências da Penitenciária do Estado, na viatura conduzida pelo motorista que os levava todas as manhãs: ele, diretor-geral, para a Casa de Detenção; ela, para a Funap, a Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso, situada numa construção que fazia parte do complexo prisional.
No portão de entrada do Carandiru, aguardava-os o funcionário Santiago, como de costume. Dra. Auta Wolfmann, a esposa de Luizão, recomendou-lhe o de sempre:
— Tome conta de meu marido, não deixe que nada de mau lhe aconteça. E parem de lutar boxe, não aguento mais ver vocês dois com a cara arrebentada.
Os dois, de fato, lutavam boxe no ringue armado por Luizão no pátio interno que dava acesso a todos os pavilhões, a Divineia, local de renhidas contendas das quais participavam os presos que gostavam de lutar. Falam as más-línguas que Luizão convidava alguns deles para o embate com a intenção de infligir-lhes castigo, conduta que ele nega peremptoriamente. Acredito nele, foi exímio lutador profissional na categoria meio-pesado, defensor do boxe como prática esportiva capaz de impor disciplina e recuperar os que tinham enveredado pelos caminhos da delinquência. Treinou vários detentos que se tornaram profissionais, foi aluno de Kid Jofre, pai do primeiro campeão mundial brasileiro, Éder, e conviveu com a elite do boxe paulista durante muitos anos.
O jovem Santiago, uma espécie de guarda-costas do diretor, função que dividia com Adãozinho, homem forte de olhar calmo, respondeu com o sorriso habitual:
— A senhora não se preocupe. Se tentarem matá-lo, a bala será primeiro para mim.
Como tantos colegas de trabalho, Santiago fez o sinal da cruz ao atravessarem o portão de entrada.
Quando o diretor-geral chegou em sua sala, dois assessores o aguardavam:
— Doutor, descobrimos o paradeiro do preso que fugiu. Deixa a gente ir buscar.
Depois de argumentar diversas vezes que não lhes cabia essa responsabilidade, função da polícia, de quem os dois agentes não esperavam a urgência necessária, o diretor cedeu:
— Tudo bem, mas, se souber que vocês deram um tiro em qualquer direção, seus desgraçados, mando os dois para os quintos dos infernos.
A manhã seguiu igual às outras. Perto do meio-dia, um casal de advogados trouxe um convite para um evento jurídico organizado com o objetivo de discutir o tema da criminalidade. Quando mencionaram o nome de uma deputada estadual que estaria na mesma mesa-redonda, ele se desculpou, alegando ter um compromisso fora da cidade naquela data. Por delicadeza, no entanto, convidou-os para almoçar.
O almoço da diretoria acontecia no térreo do pavilhão Dois. O refeitório tinha uma mesa para vinte pessoas e se comunicava com a cozinha através de um guichê amplo pelo qual passavam os pratos preparados por um grupo de detentos privilegiados, sob o comando de Pudim, talvez o preso mais influente da cadeia.
Digo privilegiados porque Pudim e seus subordinados trabalhavam em contato direto com a diretoria, que poderia eventualmente ajudá-los com a papelada necessária para recuperar a liberdade, além de terem acesso aos alimentos que contrabandeavam para vender dentro do presídio e presentear amigos e funcionários.
Almoçavam com o diretor-geral, os médicos e os dentistas de plantão, o dr. Walter Hoffgen, diretor de Segurança, os assessores mais próximos e um ou outro visitante convidado. Na época de Luizão, ninguém sentava ou levantava antes dele, não por imposição sua, mas por provável herança dos tempos do Coronel, a quem substituíra.
Naquela segunda-feira fatídica, além do casal de advogados e dos auxiliares do diretor, estavam à mesa um capitão e um tenente do quartel vizinho, responsável pela vigilância nas muralhas.
A descontração do almoço foi interrompida por estampidos de revólver vindos de muito perto. Imediatamente, a porta foi escancarada com um pontapé e entraram sete membros de uma quadrilha de assaltantes de banco, três dos quais com um trinta e oito na mão, aos berros, anunciando que estavam decididos a fugir. Gringo, o chefe deles, foi justamente o que encostou o revólver na cabeça de Luizão e lhe transmitiu a certeza de que morreria daquela vez, merecidamente.
Um dos rebelados subiu na mesa e chutou para os quatro cantos todos os pratos e travessas. Os invasores que estavam desarmados se apoderaram dos facões usados pelos cozinheiros, imóveis desde o início da confusão, em conformidade com um dos mandamentos da vida no crime: “Cada homem com seu destino”.
Na entrada haviam atirado no peito de Santiago e no rosto de Adãozinho, que morreu no mesmo instante, enquanto o colega agonizava e perguntava pelo chefe. Os detentos soltos no pátio que tentaram socorrê-lo foram agredidos pelos amotinados.
Dos setecentos homens do pavilhão apenas cinco aproveitaram a oportunidade para juntar-se aos sete envolvidos na fuga.
Alertados pelos tiros, os policiais militares de guarda na muralha começaram a disparar na direção da janela da sala de almoço, aumentando o medo dos que estavam lá dentro.
Por causa das balas que arrebentavam os vidros, Gringo amarrou uma corda na cintura de Luizão, segurou-a pela extremidade, encostou o revólver em sua nuca e ordenou que chegasse à grade de entrada do pavilhão para intimar os pms da muralha a interromper os disparos. Para intimidá-lo, cutucaram-lhe a parte de trás da cabeça com um dos facões, e o sangue escorreu pela roupa.
Ao aproximar-se da entrada do pavilhão, Luizão viu o corpo de Adãozinho inerte junto à porta da sala de almoço. Um dos rebelados chutava a cabeça ensanguentada do funcionário morto, como se ela fosse uma bola de futebol. Uma onda de ódio tomou conta do espírito do diretor, que murmurou para si mesmo:
— Eu mereço morrer, Adãozinho não. Esses filhos da puta vão pagar por essa iniquidade.
Mal chegou à porta do pavilhão, uma bala ricocheteou na grade e se alojou na parede, a um palmo de seu corpo. Não fosse o desvio providencial, seria atingido no peito. Só então ele se deu conta de que inadvertidamente vestia calça bege, a mesma cor do uniforme dos presos.
— Nem do diretor eles estão livrando a cara — observou Gringo, agarrado à ponta da corda.
Quando voltaram para o refeitório, chegaram mais dois funcionários baleados, perdendo sangue, que foram jogados no meio dos dezoito reféns sentados um do lado do outro, próximo à parede do fundo. Entre eles, o capitão e o tenente da pm. Somente Luizão permaneceu junto à porta.
O capitão tomou a iniciativa:
— Se meus homens atiraram até no diretor, ninguém escapa vivo daqui. A única alternativa é me deixar sair para mandar suspender o tiroteio.
Os presos acharam a proposta razoável. Os dois militares sairiam, dariam a ordem e providenciariam uma viatura para que os fugitivos pudessem cruzar o pátio interno e ganhar a rua pelos portões de entrada.
Enquanto aguardavam, tomaram a precaução de amarrar as mãos de Luizão atrás das costas. Agitados, eles se alternavam na posse dos revólveres e facões, apenas Gringo não participava do rodízio, com o revólver sempre apontado para a cabeça do diretor-geral.
Minutos mais tarde estacionava junto ao portão do pavilhão a viatura do próprio diretor, que, ao vê-la, explicou com voz calma:
— Eu não entrava nessa. Esse carro está caindo aos pedaços, já me deixou na rua várias vezes. Vocês não vão longe.
— Então, eles que mandem um helicóptero. A gente sobe para o teto do pavilhão — gritou Gringo.
Enquanto o pavor tomava conta do refeitório, o secretário da Justiça estava reunido na sala da diretoria com assessores civis e militares. A pm cercava o presídio. Os tiros vinham de todos os lados.
O tempo passava sem que o helicóptero se aproximasse; os presos ficavam cada vez mais agitados e ameaçadores.
Luizão interferiu outra vez:
— É melhor vocês me desamarrarem, está muito apertado. Tenho problemas de circulação. Se eu desmaiar, quem vai negociar a fuga com o secretário?
Zinho, que nos assaltos a banco ficava encarregado de atirar nos seguranças que esboçassem reação, advertiu os companheiros:
— Cuidado. Além de boxeador, ele é muito treteiro.
O diretor não se fez de rogado:
— Estão com medo do quê? Vocês com facão e revólver, e eu desarmado. É só dar um tiro, e pronto. Tudo acabado, conforme eu já esperava.
Enquanto desatavam a corda, Gringo engatilhou o revólver na cabeça do diretor-geral:
— Vai na minha, senão vai sobrar.
Pelo telefone, o secretário chamou Luizão, que o pôs a par dos acontecimentos. Quando quis saber se um helicóptero para a fuga garantiria a segurança dos reféns, Luizão ficou mudo e desligou.
As negociações entraram em ponto morto. Furiosos com a demora, os ladrões ameaçavam matar um refém a cada cinco minutos.
Calmo como se estivesse em casa, o diretor sugeriu que liberassem a advogada que trouxera o convite do evento, para que servisse de mediadora e apressasse o acordo com as autoridades. Um dos bandidos advertiu os companheiros em voz alta:
— Ele está tirando uma com a nossa cara, só para ganhar tempo. Mata ele logo, Gringo.
Sem mover um músculo da face, Luizão acrescentou como se falasse sozinho:
— Para mim, dez ou vinte bandidos a mais na rua não faz a menor diferença.
A advogada saiu, mas não retornou.
A tensão já estava insuportável quando Manezinho entrou mancando, com dois facões nas mãos e uma bala no tornozelo:
— Filhos da puta. Alguém vai pagar. Doutor Luizão, o senhor já era.
Todos o conheciam: era o macumbeiro que dirigia o Setor de Umbanda do pavilhão Nove. Com cara de bravo, ele se aproximou do diretor e armou o golpe para desfechar as duas facadas ao mesmo tempo, mas parou com as armas no ar:
— O senhor é filho de Ogum?
Luizão tinha uma medalha de São Jorge no pescoço. Manezinho bateu um facão no outro com tanta fúria que a faísca produzida quase atingiu os olhos do diretor. Virou-lhe as costas e saiu da sala.
Para desanuviar o clima, Luizão sugeriu que enviassem alguém de sua confiança para pedir ao secretário que apressasse a chegada do helicóptero. Os ladrões concordaram. Lentamente, o diretor passou os olhos no grupo assustado junto à parede. Havia duas mulheres, Penha, sua secretária, que mais tarde seria diretora da Penitenciária Feminina, e Vera, chefe de seção, além de Walter Hoffgen e demais assessores, de um médico, do advogado visitante e dos dois feridos. Ficou com a impressão de que sob seu olhar cada um esticava o pescoço para ser escolhido.
José Francisco dos Santos, o Chiquinho, seu auxiliar desde a diretoria na Penitenciária do Estado, foi designado para a tarefa. Chiquinho, diretor administrativo da Detenção, cargo que exerceu até a implosão do presídio, era quem organizava os shows com Raul Gil, Rita Cadillac e outros artistas que se apresentavam em ocasiões festivas no palco armado no pavilhão Oito.
Foi escolhido porque Luizão tinha duas certezas: ele não voltaria e transmitiria ao secretário o que haviam combinado por casualidade na quinta-feira anterior, na presença de vários assessores, da esposa e do filho mais velho de Luizão, um dos diretores da Penitenciária do Estado:
— Se um dia eu cair refém, não vou deixar bandido nenhum fazer nome às minhas custas. Tudo tem que ser resolvido aqui dentro, sem ninguém abrir os portões. A polícia pode entrar e abrir fogo, nem que eu vá para o inferno junto com eles.
Gringo concordou com a saída, mas exigiu que Chiquinho escolhesse alguém para morrer caso não retornasse em dez minutos.
Repetiu-se a cena anterior, só que dessa vez os personagens se encolhiam. Quando Chiquinho apontou o dedo na direção do protético do Serviço de Odontologia, o rapaz balbuciou:
— Eu?
Minutos depois o telefone tocou. Gringo atendeu e passou-o para o diretor:
— É o secretário.
Era Álvaro, um de seus assessores, que falava na presença do secretário:
— Doutor, é para não fazer acordo com eles?
— Lógico — respondeu Luizão. — Façam conforme nós já combinamos. Mandem logo o helicóptero.
Era a senha para que a pm invadisse e resolvesse à bala. Luizão diz que temeu pela sorte dos reféns, não pela dele, porque depois do pecado cometido dias antes não tinha direito à pretensão de escapar com vida. Naquele momento, intuiu que a única maneira de poupar os demais seria levar os bandidos para fora da sala de almoço.
Pediu para falar novamente com o secretário. Retirou o fone do gancho e enfiou com tanta força o dedo no botão que liga e desliga, que o telefone emudeceu:
— Já mandei arrumar tantas vezes essa merda.
Um dos presos reconheceu Mariz entre os presentes, diretor de Valorização Humana, filho de um desembargador. Decidiram que ele falaria com as autoridades pelo telefone da Carceragem, situada no interior do pavilhão. Luizão imediatamente argumentou que ninguém levaria a sério uma negociação da qual o diretor-geral não participasse.
Com a pm atirando sem parar, os dois saíram na direção do corredor que levava às salas da Carceragem, sob a vigilância constante do revólver que Gringo segurava com as duas mãos e de outro preso com dois facões afiados.
Na Carceragem deram de cara com mais de trinta funcionários que os amotinados tinham trancado numa das celas reservadas para os detentos aguardarem transporte para o Fórum. Em frente a ela havia outra com os cinquenta presos que trabalhavam no pavilhão, ali fechados por precaução tomada pelos que pretendiam fugir.
Mal entraram, um dos amotinados encostou o facão na orelha do diretor de Valorização Humana:
— Vamos cortar e mandar pro pai dele saber que não é brincadeira.
Luizão acrescentou de imediato:
— Cortem essa merda, que ninguém vai sair vivo daqui.
Outro preso sugeriu que lhe cortassem a mão, o pai daria mais valor à ameaça.
Luizão cochichou no ouvido do assessor:
— Você não acha que é preferível a orelha?
O ronco de um helicóptero que se aproximava mudou o rumo dos acontecimentos. Sem saber que se tratava do helicóptero de uma emissora de televisão que cobria os acontecimentos, os bandidos decidiram subir com os reféns para o teto do pavilhão. Luizão permaneceria no térreo para impedir que a pm entrasse e tivesse acesso à escada. Gringo com o revólver e outro ladrão com os facões frustrariam qualquer reação.
Certo de que o castigo definitivo viria naquela hora, Luizão decidiu que iria mesmo para o inferno, mas não sozinho. Rezou um padre-nosso estropiado e esperou. Gringo, a uma distância prudente na frente dele, sem desgrudar as mãos da arma; o outro, mais atrás, com os facões.
Um tiro mais próximo da porta que obrigou Gringo a desviar o olhar ofereceu a oportunidade aguardada. Luizão pulou em cima do inimigo trinta anos mais jovem, segurou o cano do revólver com a mão esquerda e com a outra apertou-lhe as mãos contra o cabo, na esperança de impedir que acionasse o gatilho. Veio o primeiro tiro, seguido do segundo e do terceiro, à queima-roupa. O diretor sentiu que tinha sido atingido e que ainda seria esfaqueado pelo comparsa, mas não havia alternativa senão resistir.
Amedrontado, o dos facões saiu correndo na direção da escada que o levaria ao teto.
Ensanguentado, sem conseguir desarmar o adversário, Luizão apelou para Mariz, paralisado em plena refrega:
— Pega essa cadeira de ferro e arrebenta a cabeça dele.
Mariz, homem de um metro e noventa, levantou a cadeira e desceu-a com bastante força, mas com pontaria deplorável: acertou em cheio a cabeça do chefe, que bambeou e ameaçou cair.
Percebendo que a pancada lhe minara as forças, Luizão empurrou Gringo para trás, como se tivesse a intenção de derrubá-lo. Quando notou a resistência que o corpo do outro fazia no sentido oposto, puxou-o para a frente de uma vez e lhe deu uma cabeçada com tanta violência, que o inimigo perdeu os sentidos.
A autópsia revelaria fratura de crânio com esmagamento do lobo frontal.
Luizão apanhou o revólver e correu na direção da escadaria, decidido a alcançar os companheiros levados para o teto. Saiu da Carceragem no exato momento em que o pelotão de Choque invadia, com meia dúzia de oficiais na linha de frente. Ensanguentado, de calça bege, com um revólver na mão, foi novamente confundido pelos pms, que dispararam as metralhadoras contra ele. Foram muitos tiros.
Sob a ameaça dos facões e dos revólveres, o grupo de reféns foi forçado a subir as escadas. Walter Hoffgen, o diretor de Segurança, ficou no fim da fila; atrás dele, o revólver de Marcão, o principal líder depois de Gringo, e as duas facas de Zinho, que trazia no currículo a façanha de, durante um assalto, haver jogado o dono de uma padaria no forno aceso.
Quando dr. Walter e os dois homens armados atravessaram a porta de acesso ao telhado, Marcão pegou um caibro do chão e improvisou uma trava, apoiando uma das extremidades na porta e a outra contra um degrau na frente dela.
A tranca ficou tão firme que resistia às investidas dos primeiros policiais militares a chegar. Os trancos que davam mal conseguiam abrir uma pequena fresta junto ao batente. Deitado no chão para não servir de alvo para os atiradores de elite na muralha, com o diretor de Segurança como escudo, Marcão atirou contra a porta e gritou:
— Se alguém entrar, eu mato ele.
Os reféns foram empurrados para a beirada do teto do pavilhão e obrigados a subir no parapeito, tão estreito que nele mal cabia o pé de um homem. Um dos presos que assistia à cena do pátio gritava para que fossem jogados lá de cima. Com a faca, Zinho furou o peito de um funcionário. Dr. Walter interveio sob a mira do revólver:
— Ô meu, qual a necessidade de fazer isso?
Marcão mandou parar com a agressão até que fosse dada a ordem contrária. Minutos mais tarde, os atiradores de elite postados na muralha acertariam a cabeça de Zinho.
Quando Manezinho, com os dois facões, se aproximou de dr. Walter, ele arrancou o maço de cigarros do bolso do macumbeiro e retirou dois cigarros. Acendeu um e colocou o outro na boca do refém a seu lado, o dr. Willo Rogério, que mais tarde dirigiu a Detenção e hoje é diretor de um presídio em Guarulhos. O atrevimento surpreendeu Manezinho:
— O senhor é mais louco que nós.
Com a experiência de quem começou a vida abrindo e fechando os portões do pavilhão Oito, o diretor de Segurança sob a mira de Marcão teve certeza de que ia morrer. Ele também devoto de São Jorge, pediu apenas que o santo protegesse suas filhas, a mais velha com seis anos.
A tarde estava atribulada para o santo com o cavalo e o dragão: depois de salvar a vida de Luizão acuado pelos facões de Manezinho, foi convocado para realizar o segundo milagre.
— Pensei: vai pra puta que o pariu, se é pra morrer, São Jorge, que seja de uma vez.
Incontinente, pulou em cima de Marcão, desceu a mão com toda a força no punho que segurava o revólver e, no mesmo movimento, jogou o corpo contra o caibro, que saiu do lugar e destravou a porta.
Marcão foi o primeiro a morrer. Os demais rebelados que mantinham os reféns na beirada da marquise não tiveram tempo de atirá-los para baixo; morreram todos. Morreu também Walmir, um funcionário-refém erroneamente identificado como bandido pelos atiradores de elite. Outro funcionário levou um tiro na coxa.
Lá embaixo, no térreo, ao receber as rajadas de metralhadora dos pms que invadiam o pavilhão, Luizão sentiu que o merecido castigo final havia chegado, mas continuou em pé, com o revólver para baixo, imobilizado pelo susto. Teria recebido mais tiros, não fosse reconhecido pelo coronel Carlos, comandante da tropa:
— É o diretor, seus imbecis.
O próprio coronel correu para examiná-lo. O sangue vinha apenas do corte do facão na cabeça; nenhum ferimento à bala: nem dos tiros de Gringo nem das rajadas que encheram a parede de buracos ao redor de seu corpo.
Luizão sentiu que só havia escapado da morte porque o Senhor decidira perdoá-lo do pecado cometido dias antes, no quarto de casa.
Naquela noite, chegou nervoso do trabalho e discutiu com a esposa, mulher paciente, delicada e apaixonada por ele. No meio do falatório, gritou um palavrão.
Ela o advertiu:
— Luiz, pelo menos respeita Aquele no quadro em cima da cama.
— Não respeito ninguém e nem porra nenhuma.
Sacou o revólver e deu dois tiros certeiros na testa de Jesus, que despencou da parede.