Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 19 de 36

Páginas do PDF

Carcereiros

Shirley, o estelionatário e seu Silva

 

Seu Silva era um carcereiro circunspecto que não dava pretexto para intimidades. De sua vida os colegas sabiam que era casado com dona Esmeralda, tinha uma filha na faculdade, e nada mais.

Uma tarde, ele apareceu na chefia do pavilhão Sete para pedir um favor:

— Vocês têm um rapaz preso por estelionato, casado com uma senhora que me pediu ajuda. Diz que o marido não é do crime. Dá para fazer alguma coisa por ele?

Vilmário, funcionário do Sete, que admirava a retidão de caráter e a carreira exemplar de seu Silva, respondeu que poderiam colocá-lo na copa dos funcionários, posto disputado por dar acesso aos alimentos e à boa vontade dos funcionários para abreviar a estadia atrás das grades.

Durante as visitas do domingo seguinte, Vilmário encontrou o estelionatário conversando com a mulher no pátio do pavilhão:

— Senhora, porra nenhuma. Era uma loira gostosa, com uns peitos enormes e uma bunda monumental.

Um companheiro de plantão comentou:

— Vilmário, seu Silva está comendo essa mulher e deu um chapéu em você com a história do marido.

Fosse qualquer outro, Vilmário se renderia à evidência, mas duvidou no caso de seu Silva, homem de princípios morais rígidos, que em tantos anos de trabalho jamais tivera um deslize. Justamente ele cometeria o erro primário de envolver-se com mulher de preso?

Ele não sabia que seu Silva estava prestes a viver um drama. A mulher do estelionatário se chamava Shirley, garota de programa que morava com o amante havia menos de seis meses, embora dissesse para o carcereiro que era secretária de uma firma e que estavam casados fazia cinco anos.

Depois do contato inicial com seu Silva, intermediado por uma conhecida de ambos, Shirley procurou-o na fábrica de tecidos em que ele exercia o cargo de chefe de segurança. Trazia uma camisa de presente, em agradecimento à ajuda prestada ao marido.

Pela duração da conversa e pelo número de vezes que ela tocou em seu braço, seu Silva houve por bem ficar na defensiva, desconfiado de que a moça não estava interessada apenas no destino do consorte.

A essa visita à fábrica seguiram-se outras, nas quais ela nem tocava no nome do marido. Nos dias em que não aparecia, telefonava para a sala dele. Por trás, a turma da segurança fazia piada e comentários maldosos.

Ele chegou a pedir que ela não ligasse nem aparecesse mais, não estava certo aquele relacionamento entre um guarda de presídio e a esposa de um detento. Mas deve tê-lo feito sem convicção; o interesse de uma jovem sedutora como aquela havia despertado nele uma jovialidade adormecida desde os tempos de solteiro.

Uma noite ela veio de cabelo solto e saia curta. Contou que tinha rompido com o estelionatário para viver um grande amor com seu Silva, o homem mais íntegro e bondoso que conhecera desde a morte do pai.

Assim que Shirley foi embora, o subchefe de segurança não se conteve:

— Chefe, desculpe a petulância, mas o senhor devia comer essa mulher de uma vez. A vida é uma só.

A vida é uma só. A frase martelou a cabeça de seu Silva por mais de uma semana. Passava os dias atormentado:

— Aos 55 anos, tinha cabimento me meter num beó desses? Estava na cara que ia terminar mal. Mesmo assim, fraquejei: fui com ela para o motel.

No dia seguinte, foi chamado na portaria da cadeia. Ela estava à espera.

— Fiquei bravo. Como ela tinha coragem de aparecer por lá?

Shirley se desculpou, mas não podia conter seus sentimentos depois da noite maravilhosa que haviam passado. Zangado, ele explicou que ir à cadeia não era o mesmo que visitá-lo na fábrica. Poderia prejudicá-lo.

Na noite seguinte, ela apareceu na fábrica. Seu Silva pediu para o porteiro dizer que estava em reunião, sem possibilidade de sair.

Quando o turno terminou, às seis da manhã, ele pegou o fusca no estacionamento dos funcionários, com a intenção de ir para a cadeia. Ao cruzar os portões da fábrica, no entanto, foi avisado pelo porteiro de que uma moça o esperava desde a noite anterior.

Seu Silva ficou assustado:

— Que loucura era aquela? Passar a noite ali? Senti que aquela mulher não era normal, que ia me perseguir, sabe lá Deus com que intenção.

Deixou que ela entrasse no carro, para explicar-lhe que tinha família, uma carreira no funcionalismo e um passado irrepreensível. Não estava disposto a abrir mão de tudo o que conseguira, por uma simples aventura. Uma noite na cama não dava a ela o direito de andar atrás dele. Pediu por favor que nunca mais o procurasse.

— Ela caiu num choro que não acabava mais. Depois pegou na minha mão, falou que estava apaixonada e que não descansaria enquanto eu não fosse dela. Minha vida virou um inferno.

Shirley aparecia, nos momentos mais inesperados, na fábrica, na cadeia, na esquina da casa dele. Nas poucas noites de folga que passava em casa, o telefone não dava sossego; quando atendiam, emudecia. Todas as vezes que ele se cansava de fugir e tentava convencê-la a acabar com aquele assédio, ela ameaçava contar tudo para a esposa, a filha e para o diretor-geral da Penitenciária. Ele ficaria desmoralizado em casa e no trabalho.

Uma noite, assistia à televisão com a esposa enquanto a filha conversava no telefone. Quando a menina desligou, a mãe perguntou com quem tinha falado por mais de quarenta minutos:

— Com a Shirley, uma colega que acabou de entrar no curso de inglês.

Seu Silva perguntou como era ela. O perigo chegava perto da filha.

— Perdi a cabeça. Pensei em dar cabo da vida dela, antes que destruísse a minha. Um tiro só e todos os problemas estariam resolvidos.

Foi salvo por Vilmário, que o acaso fez encontrar na saída da cadeia. Impressionado com o semblante carregado do colega, Vilmário perguntou o que havia e ofereceu ajuda. Seu Silva convidou-o para um café no bar.

O amigo escutou a história inteira. Quis saber quantas vezes estiveram no motel. Ao ser informado de que tinha sido apenas uma, concluiu:

— O bagulho é trágico.

Quando seu Silva revelou estar prestes a cometer um desatino, o companheiro interrompeu:

— E se der errado? Um homem do seu calibre passar para o lado de lá?

Em seguida fez uma análise da situação:

— Qual é a força dessa maluca? É contar para sua família e arruinar sua reputação na cadeia. Se o senhor tomar a iniciativa de admitir o erro para o diretor-geral e para a sua esposa, acabou a chantagem.

Seu Silva resolveu começar pela tarefa menos espinhosa. Pediu para ficar a sós com o diretor-geral e revelou o que acontecia.

O diretor foi solidário:

— Você errou duas vezes: não podia ter se envolvido com uma mulher dessas e muito menos enfrentar essa barra sozinho.

Levou três dias para ter coragem de falar com dona Esmeralda. Morto de vergonha, descreveu a trama em que estava envolvido. Quando terminou, ela estava serena:

— Você já pagou caro pela besteira que fez. Sou sua mulher, nesta hora estou do seu lado. Quando tudo acabar, veremos como as coisas ficam entre nós. Agora, vamos à delegacia dar queixa dessa mulher.

Seu Silva insistiu em ir sozinho, o problema era dele, ficaria muito envergonhado na presença da esposa, mas dona Esmeralda não arredou pé.

Foram a uma delegacia dirigida por um amigo do diretor-geral da Penitenciária. O escrivão registrou a queixa e o delegado disse que convocaria a moça para prestar depoimento.

Shirley ainda telefonou duas vezes, antes de parar com a perseguição.