Carcereiros
Luiz Wolfmann, o Luizão
Soube da existência de Luizão pelos jornais que noticiaram as mortes na tentativa de fuga de 1982 na Casa de Detenção, dirigida por ele naquela época. Jamais imaginei que viesse a conhecê-lo, muito menos que jantaríamos num restaurante do centro da cidade dez anos mais tarde, que ainda seríamos amigos fraternos e que me tornaria seu médico.
Convidei-o para jantar no dia em que fomos apresentados, no início de meu trabalho na Detenção, porque, além de me interessar pelas histórias que ele narrava com detalhes precisos e por sua figura lendária, minha intenção era saber se não seria ingenuidade de minha parte expor-me ao desconhecido naquele trabalho voluntário.
Ele procurou me tranquilizar: médicos eram figuras acolhidas com respeito nos presídios. Disse que o único risco era dar de cara com o leão surdinho, e contou a fábula de um pastor de ovelhas dos tempos bíblicos que, no caminho de volta para a aldeia, escapou de ser devorado por leões famintos ao tocar o violino do qual jamais se separava, cena que se repetiu diversas vezes até encontrar o tal surdinho.
Saímos do restaurante quando as cadeiras já subiam nas mesas. É fácil passar horas ouvindo Luizão: sua narrativa tem ritmo, entonações surpreendentes, gírias antigas, frases de efeito e a imprevisibilidade dos thrillers policiais, com a particularidade de que as imagens descrevem acontecimentos vividos por ele e confirmados pelos que estiveram por perto. É inacreditável que tantos fatos extraordinários tenham ocorrido durante a existência de um único homem.
Em 1955, Jânio Quadros criou o Instituto Penal Agrícola de São José do Rio Preto, destinado a acolher detentos de boa conduta que haviam cumprido sentença em regime fechado por tempo suficiente para pleitear a progressão ao terceiro estágio da pena, a ser completado em Institutos Penais Agrícolas, trabalhando na lavoura.
Naquele tempo, nosso sistema penal seguia o modelo irlandês, que dividia a pena em três estágios: isolamento por um período de noventa dias, prisão em regime fechado em convívio com outros presos e progressão para o Semiaberto em Colônia Penal.
Depois de um curso para guarda de presídio, Luizão prestou concurso e foi admitido para as vagas abertas nas três colônias agrícolas existentes. Escolheu a de Rio Preto, porque lá poderia morar com a esposa e os três filhos numa das casas da própria Colônia, situada a sete quilômetros daquela cidade. No início estranhou a vida rural, tinha 24 anos vividos sem sair da rua Francisca Júlia, no bairro de Santana, na zona norte, onde a mãe viúva passava os dias na máquina de costura para manter a família.
Na Colônia foi recebido pelo diretor-geral, dr. Javert, alto e forte, com cara de poucos amigos, muito parecido com o ator Robert Taylor, galã americano que arrancava suspiros das moças nas matinês. Promotor público convencido de que era possível recuperar delinquentes através da disciplina e do trabalho, dr. Javert se dedicava com tanta abnegação aos presidiários sob sua custódia que suas convicções contagiavam os subordinados. Entre eles, Luizão, que o considera seu primeiro e inesquecível professor.
Como parte da estratégia de reintegração à sociedade, alguns presos gozavam as vantagens de morar com a família em casas construídas na área do próprio Instituto. Não havia guardas armados nem paredes altas, apenas uma cerca de arame farpado que não impedia as escapadas noturnas para os bares e a zona de prostituição da cidade, contravenções punidas com a regressão ao sistema fechado na Penitenciária do Estado, em São Paulo. A bebida era um flagelo onipresente. Sob seu efeito os presos deixavam de trabalhar, envolviam-se em brigas e desrespeitavam os funcionários, como aconteceu no entrevero com Vanico e o Empreiteiro de Cristo.
Quando fugiam para beber ou ir à zona, Luizão era escalado para buscá-los, tarefa que muitas vezes o obrigava a fazer uso de sua compleição robusta e das habilidades de boxeador profissional e faixa preta de judô. Como o trabalho na lavoura era especialmente árduo para homens criados na cidade e as fugas e desavenças se repetiam, sua fama de truculento se espalhou pelo Sistema. Ele insiste que não a merecia, que só empregava a força bruta quando não havia outro método para convencer bêbados valentões a retornar à Colônia sabendo que seriam mandados de volta para detrás das grades em São Paulo.
O terceiro estágio da pena, em vez de preparar para o convívio social, oferecendo treinamento na profissão aprendida no regime fechado das penitenciárias, colocava na lavoura homens que voltariam ao asfalto assim que libertados:
— Ensinávamos japonês para o homem morar na Inglaterra — diz ele.
Os detentos não eram os únicos a criar problemas: as mulheres que moravam com eles volta e meia se envolviam em brigas e confusões, com a agravante de que não havia como puni-las, porque eram pessoas em liberdade.
A corrupção dos funcionários comprometia a imagem do Instituto Penal entre a população de Rio Preto, que pressionava as autoridades para fechá-lo. Como diretor substituto, encarregado de assumir o cargo nas ausências e nas férias do chefe, Luizão achava mais razoável quebrar a cara dos colegas desonestos do que enveredar pelos labirintos burocráticos necessários para processá-los.
Uma vez, “enojado com a cambada da chefia de Administração”, com um pontapé fez voar em pedaços a porta da sala em que se reuniam, para em seguida referir-se às progenitoras dos presentes sem o devido respeito.
A vingança veio sob a forma de um abaixo-assinado que o chefe da Administração organizou entre os funcionários descontentes. Em anexo, estava a foto da porta destruída. Cientes da roubalheira que infestava o presídio, os superiores de Luizão não o puniram; pelo contrário, assinaram duas Portarias de Elogio e lhe concederam a transferência que solicitara para a Penitenciária de Presidente Venceslau. Havia perdido a motivação para continuar ali.
O pedido de transferência foi a gota d’água resultante do descrédito na ideologia de regeneração, o qual se instalou em seu espírito a partir de uma tragédia provocada por um preso chamado Pereira Lima.
Pereira Lima tinha sido o principal líder de uma das rebeliões mais sangrentas de nossa história: a da Ilha Anchieta, presídio que na década de 1950 albergava os condenados mais perigosos do estado. Em desacordo com o parecer do Instituto de Biotipologia Criminal, contrário à progressão para o terceiro estágio da pena por julgá-lo portador de psicopatia incompatível com o regime Semiaberto, Pereira Lima acabou transferido para a Colônia de Rio Preto. O benefício só foi conseguido graças à interferência pessoal do dr. Javert, empenhado em provar que até um bandido com aquela folha corrida seria passível de regeneração.
Uma noite, Luizão tinha saído em diligência atrás de um preso que fugira, quando recebeu um telefonema quase inaudível em que mal pôde discernir a voz aflita de dona Heloísa, esposa de Javert, falando de um tiroteio ao lado da casa do diretor, no Instituto Agrícola.
Sem entender o que se passava, Luizão e os dois guardas que o acompanhavam dirigiram a caminhonete em alta velocidade até chegar à Colônia. Como estavam desarmados, ele ordenou ao motorista que parasse na casa de Euclides Ferraz, chefe da Seção de Pecuária, para conseguir um revólver. Quando se aproximaram, viram que Euclides saía de marcha a ré com a Rural Willys da seção, tendo dois presos ao lado, no banco da frente. Um deles era Pereira Lima, com um trinta e oito encostado nas costelas do funcionário; o outro, Cassununga, junto à janela, com duas facas nas mãos. Ao vê-los, Euclides gritou por socorro, pisou no breque e fez o veículo morrer.
Luizão pulou da caminhonete e deu a volta por trás da Rural. Seu movimento foi percebido por Cassununga, que saltou com as facas e correu sem sequer fechar a porta, pela qual Luizão entrou tão depressa que Pereira Lima só notou sua presença quando o opositor já lhe passava o braço direito ao redor do pescoço e com a mão esquerda agarrava o revólver e travava o cão com tanta força para impedir o disparo, que o botão de metal lhe penetrou o polegar até o osso.
Euclides tentava desviar a arma de suas costelas, enquanto o inimigo empregava toda a força para destravá-la. O espaço do banco da frente da perua era exíguo e estava quente demais para acomodar três homens com perto de cem quilos em combate de vida ou morte pela posse do trinta e oito. Numa manobra que só pôde atribuir à energia que o pavor da morte mobiliza, Luizão puxou os outros dois com tamanha força, que ambos passaram por cima da alavanca de câmbio e do breque de mão, e caíram embolados do lado de fora.
A interferência de Bigode, funcionário que chegou esbaforido, abriu espaço para o cruzado de direita que Luizão desfechou contra o queixo do presidiário, seguido de um pontapé que o atingiu no olho. De posse do revólver, enfiou o cano na boca de Pereira Lima: queria saber em quem havia atirado. Sem conseguir articular as palavras, o preso negou que tivesse sido ele, providência que lhe salvou a vida naquele instante.
Luizão voltou com a arma para a perua e foi até o local em que se aglomeravam alguns funcionários. De bruços, junto a um jipe estacionado, jazia o dr. Javert, que recebera quatro tiros no peito desferidos por Pereira Lima.
O assassinato do diretor fazia parte de um plano concebido por Cassununga e pelo autor dos disparos, com o objetivo de roubar a caminhonete da diretoria e usá-la num assalto na cidade de Ouro Fino.
Ignorando as advertências de que nada havia a fazer, Luizão colocou o amigo na perua com a ajuda dos presos e levou-o ao hospital mais próximo. Estava morto.
Voltou enlouquecido para acabar o que deixara pela metade. Em vão:
— Já tinham levado aquele filho da puta para a delegacia da cidade.