Carcereiros
A faca afiada
Quando Gilson era subchefe do pavilhão que Irani dirigia, os dois mantinham na gaveta da escrivaninha uma faca para ser usada como defesa em caso de extrema necessidade. Essa faca era a paixão de outro funcionário, Mavi, que tinha o hábito de amolá-la todos os dias. Segundo ele:
— Dava para fazer a barba com ela.
Um dia, enquanto Irani almoçava na copa dos funcionários, Gilson recebeu na sala da chefia um preso que atendia pela alcunha de Touro, por razões óbvias. Numa pequena distração do subchefe, o ladrão se apropriou da arma e saiu para o pátio.
Gilson interrompeu o almoço:
— Que problema, chefia. O cara veio trocar uma ideia, eu mosquei, ele meteu a mão na gaveta e levou a faca. Agora, está lá, parado no pátio, com ela na mão.
Quando voltaram para o pavilhão, encontraram Touro com a faca junto à porta de entrada. Fiel ao princípio de jamais tomar nenhuma atitude sem antes entender a situação criada, Irani passou por ele como se não o visse, mas, em vez de ir para a sala da chefia, subiu para o segundo andar atrás de Bem-Te-Vi, o preso encarregado da Manutenção:
— Ô meu, que bagulho é esse? O cara ficou louco, mano?
— Louco sou eu, seu Irani, ele tem até as duas horas para pagar uma dívida de droga.
— Então ele tem que pedir transferência pro Seguro ou vai morrer. Não tô nem aí.
Ao voltar para o térreo, encontrou quatro funcionários, um dos quais, de cara redonda e óculos miúdos, membro do Sindicato dos Agentes Penitenciários, falou em nome do grupo:
— Ô chefe, o cara na maior folga com a faca, desmoralizando nós. Vamos catar ele na marra.
— Você tá louco, mano. E se ele dá uma facada na gente? Deixa pra lá. Vou terminar o almoço que larguei pela metade.
Na verdade, pretendia evitar que Touro esfaqueasse um dos agentes com a intenção de ser transferido para uma das celas de castigo, dando a impressão para os companheiros de que saía do pavilhão como bandido corajoso e insubmisso, não como o devedor ameaçado de morte que pedia refúgio no Amarelo, a ala de Seguro do pavilhão Cinco.
Quando retornou ao pavilhão às 13h30, Touro veio com a faca até a sala da chefia:
— Senhor, como vai ficar minha situação?
— Qual situação?
— Preciso ir embora do Sete. O senhor me transfere para o Quatro?
— No Quatro, em cela individual? Perdeu o juízo, malandro? Lá até eu queria morar. Daqui, você só pode ir para o Seguro do Cinco.
Touro saiu enfezado porque nada mais vergonhoso para um ladrão do que ir parar nessa ala do Cinco.
Voltou quando faltavam dez minutos para o prazo fatal:
— Já tô perdendo a paciência. Como vai ficar meu caso?
— Vai ficar o seguinte, mano: você sobe para o andar e mata o cara ou ele te mata. Mando um para a delegacia e outro para o iml.
Touro retornou às 13h55 e jogou a faca em cima da mesa:
— Pode me mandar pro Seguro do Cinco.
— Sobe pra pegar suas coisas.
— Deixa meus bagulhos pra lá, já vai dar duas horas.