Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 21 de 36

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Carcereiros

Sombra

 

Num feriado combinamos reunir o Conselho num almoço no Feijão de Corda, restaurante nordestino da avenida Cruzeiro do Sul, próximo à estação Santana do metrô. Justamente por causa dos compromissos familiares do fim de semana prolongado, éramos poucos:

Irani, protagonista da batalha do conhaque no pavilhão Sete, 62 anos, casado, pai de quatro filhos, um dos quais faleceu de leucemia aos 27 anos, avô de uma menina que trouxe a alegria de volta para a família, passou os últimos trinta anos em contato direto com a bandidagem, experiência que lhe permitirá contar histórias pelo resto da vida, sempre entremeadas de interjeições que fazem crescer a tensão dos ouvintes nos momentos mais críticos da narrativa.

Mavi, 55 anos, pai de uma enfermeira que trabalha em Lábrea, no Amazonas, cabeça raspada à navalha, voz de cantor de ópera, trinta quilos acima do peso da juventude justificados com a desculpa de haver passado fome na infância — flagelo muito pior do que morrer de ataque cardíaco, em sua filosofia —, trabalhou em diversos pavilhões do Carandiru, de onde foi transferido para a Penitenciária do Estado, e de lá para a função burocrática atual.

Manoel, baiano de 69 anos, casado, sem filhos, recém-aposentado por tempo de serviço, leitor ávido da revista Seleções, temperamento circunspecto em contraste com o dos demais, dono de olhar agudo ao analisar pessoas e situações, habilidade desenvolvida na chefia do pavilhão Cinco, que albergava os jurados de morte.

Araújo, 68 anos, jardineiro por diletantismo, casado em segundas núpcias com dona Cida, funcionária do Fórum de Guarulhos, já apresentado no início deste livro como um dos responsáveis por impedir que o massacre do Nove chegasse ao Oito.

Valdemar, funcionário que chefiou o Departamento de Esportes do Carandiru durante muitos anos, organizador de meu trabalho com os presos na Detenção e na Penitenciária, 64 anos, solteirão, barba branca sem aparar e camisa com o segundo botão aberto para expor os colares, os patuás e os santos de sua devoção.

Sombra, 57 anos, casado, pai de três filhos, técnico de som de riso fácil que conheci há mais de dez anos numa gravação para o Ministério da Saúde. Nesse dia, estávamos num momento de silêncio completo no estúdio, prontos para gravar, quando o ouvi sussurrar para o assistente de câmera: “Argemiro, você gosta de veado?”. O assistente respondeu que não, e ele resmungou: “Eta, raça desunida”. Dias mais tarde, Sombra me pediu para conhecer o Carandiru, e não desgrudou mais da gente. Gozador nato, treinado entre os sambistas da Camisa Verde e Branco, foi aceito pelo grupo como se fosse colega de trabalho.

A conversa começou com Mavi reparando que a barba de Valdemar estava mais crespa; queria saber se havia feito permanente num salão de beleza da rua Voluntários da Pátria. Depois de alguma hesitação, Valdemar descreveu a noite anterior em companhia de um amigo num inferninho da zona norte, que terminou sem que ele lembrasse quem o trouxera para casa e sem que tivesse a menor noção de quem fizera em sua barba as trancinhas tão difíceis de desembaraçar.

Seu Manoel relatou que havia pedido contagem do tempo de serviço para aposentar-se e mudar com a esposa para sua cidade natal na Bahia. Quando perguntei se não estranharia viver num lugar pequeno depois de tantos anos em São Paulo, respondeu que estava cansado da cidade grande, que no interior encontraria paz... Irani o interrompeu:

— Quantos anos você tinha quando chegou da Bahia?

— Quinze.

— Mané, justamente nessa época meu pai aconselhava: “Meu filho, por que você não dá um pulo na Estação do Norte, para comer um baianinho desses que desembarcam em São Paulo?”.

— Irani, deixa de ser imbecil.

— Não fica ofendido, meu, não estou afirmando que comi você. Nem sei, foram tantos...

À medida que subia o teor alcoólico do grupo, todos falavam e riam, com exceção de Sombra, sentado à cabeceira da mesa. Araújo foi o primeiro a chamar sua atenção:

— Sombra, que sorumbatismo é esse?

— Deixa pra lá, normal.

— Normal? O normal seu é encher o saco dos outros. Você está mais calado que papagaio novo.

Sombra insistiu que estava bem, apenas um pouco cansado da noite maldormida por causa da gravação de um comercial, mas não convenceu ninguém. Diante das hipóteses mais infames levantadas pelos presentes para explicar a tristeza do companheiro, parte substancial das quais punha em dúvida sua masculinidade, ele preferiu explicar a razão do mutismo:

— A casa caiu. A Vera me mandou embora.

Os comentários foram variados: “Até que enfim”; “Finalmente, uma atitude sensata”; “Mesmo sem saber o motivo, dou razão integral para ela”; “Passou o mico para a frente”.

Sombra pediu que não brincassem, estava deprimido. Separar-se da companheira de tantos anos era um drama pessoal que não deveria servir de tema para chacota. A esposa estava decidida, não queria mais vê-lo, que o desavergonhado não se atrevesse a voltar porque daria com a cara na porta, que viesse no dia seguinte buscar a mala com as roupas que ela deixaria no terraço do lado de fora e desaparecesse.

Ele não lhe tirava a razão:

— Tenho sido ingrato com ela. Eu analisei que sou cachorro criado na rua, que não presto, e que talvez seja tarde para me emendar.

Com ar consternado, Araújo avisou que mais um pouco cairia em prantos. Manoel sugeriu que o enxotado passasse a noite na casa de Valdemar, que havia perdido o irmão meses antes. Em tom solidário, Valdemar disse que amigo dele não ficava ao relento, mas que só dispunha da cama de solteiro em que dormia, limitação considerada irrelevante por unanimidade: a previsão era de noite fria.

Quando seu Manoel quis saber o porquê da separação, Sombra explicou que a esposa havia lido uma mensagem que ele recebera no celular, inadvertidamente deixado sobre a mesa da sala.

Com a concordância ruidosa dos demais, Mavi foi enfático:

— Negão, como você dá uma mancada dessas? Que amadorismo. De lobo de esquina virou pequinês de apartamento?

Em tom afetuoso, Irani disse que tinha a solução para as agruras do conquistador trapalhão:

— Toma chumbinho, mas não exagera na dose. Vai parar no Pronto-Socorro do Tatuapé passando mal. Ela vai te visitar cheia de remorsos, chora e te perdoa.

Mavi tinha sugestão melhor. Iria até a casa de Sombra, convidaria a esposa enraivecida para jantar, ofereceria um ombro amigo e a levaria para o motel. Na saída, o marido surpreenderia o casal. O flagrante a deixaria em posição frágil, não teria alternativa senão aceitá-lo de volta.

A consternação do companheiro expulso de casa não sensibilizou os amigos, empenhados em propor soluções mirabolantes para mitigar seu sofrimento. Às tantas, eu me lembrei de perguntar o conteúdo da mensagem-pivô da desavença.

Sombra disse que não vinha ao caso, mas, diante da insistência da plateia, foi forçado a revelar:

— “Bebê, te espero no bar da Chica”.

A surpresa despertou a agressividade do grupo:

— Bebê? Um negão desse tamanho?

Araújo foi o único compreensivo:

— É um tipo romântico. Tem um Morumbi cheinho de amor para dar.

Provavelmente com a intenção de aplacar a ira coletiva, o tipo romântico confessou:

— O pior de tudo vocês não sabem: não tive nada com a moça. Foi uma relação platônica.

A reação dos circunstantes foi péssima. Tive a impressão de que iriam linchá-lo. Foi chamado de burro, incompetente, imbecil, laranja, galã de porta de botequim e outros nomes impublicáveis; para eles, amor platônico era coisa de grego que dava a bunda. No fim, Sombra reconheceu com humildade:

— Vocês têm razão. Eu sou muito frenesi e pouco orgasmo.

Agora com mais ênfase, Irani repetiu a sugestão do chumbinho e Mavi a do motel. Araújo o aconselhou a dizer para a esposa que fora apenas mais uma vítima da tríade de condições fatais para o adultério masculino: cara cheia de cerveja, mulher gostosa provocando e amigo safado dando mau conselho.

Pagamos a conta, levantamos e caminhamos para a saída. Antes de atravessarmos a porta, Sombra se dirigiu ao grupo em tom melodramático:

— Vou pedir um favor daqueles que só se pede para os amigos mais queridos: vamos comigo para casa, chegando com vocês ela não terá coragem de me deixar do lado de fora.

O pedido causou revolta: “Amigo querido, eu?”; “Fazer um papel desses, tô fora”; “Eu lá sou consultor sentimental de vagabundo?”; “De onde você tirou que eu sou seu amigo?”; “Negão, pode me mirar, mas me erra”. Araújo sugeriu que ele comprasse um galo preto, cinco charutos, tigela com canjica, cachaça e fizesse um despacho de encruzilhada na serra da Cantareira.

No fim prevaleceu a empatia que une os homens, sem distinção de raça ou credo, na hora de socorrer o amigo infiel à esposa.

Sombra mora na Vila Carioca, num sobrado com o terraço da frente cercado por grades altas, como é usual na periferia. Junto à porta de entrada estavam a mala de roupas e a caixa com o equipamento de som usado por ele no trabalho.

A esposa atendeu à campainha. A surpresa em seu rosto na janela foi indisfarçável. Hesitou por alguns segundos, sem graça, até vir para o portão. Cumprimentou todos menos o marido. Entramos pouco à vontade e nos sentamos na sala.

Com ar de criança apanhada em travessura, Sombra se aproximou de mim:

— Doutor, ela respeita muito você. Uma palavra sua pode colocar o trem nos trilhos.

Vera coava o café. Para que ninguém nos ouvisse na sala, encostei a porta da cozinha e disse o que me pareceu menos constrangedor:

— O Sombra pode ter todos os defeitos, mas ele não teve nenhuma intimidade com essa moça. Para nós ele não mentiria.

Ela me olhou de frente:

— Acredito no senhor.

Depois, queixou-se do comportamento do marido. Estava magoada.

Quando voltei para a sala, Irani voltava à carga com a história do envenenamento com chumbinho como estratégia para conseguir o perdão da esposa:

— Vai por mim, maluco, que o bagulho é louco. Já passei por isso e sobrevivi.

Nesse momento alguém deu por falta do Valdemar. Não estava na cozinha nem no quintal; para a rua não poderia ter ido sem passar pelos que estavam na sala. Só se tivesse subido para os quartos. Vera foi ver. Num instante, estávamos todos à procura dele. Mistério.

— Evaporou junto com o álcool — alguém disse.

Fazíamos essas conjecturas quando Mavi gritou do lavabo:

— O que você está fazendo aqui, meu?

Eu o havia procurado no lavabo, mas não olhei atrás da porta, local em que Valdemar se encontrava em pé, mudo, com o olhar no infinito, catatônico. Não foi fácil movê-lo do lugar.

O incidente desanuviou o clima e nos despedimos do casal estremecido. O quase ex-anfitrião veio até a porta para agradecer. Mavi voltou a oferecer seus préstimos:

— Se precisar, estou à disposição, mas não esqueça de surpreender a gente na saída do motel. Não me apareça na entrada.

Sombra disse que não tinha nascido com cabeça para carregar ornamentos. Irani advertiu-o:

— A ética minha é o seguinte: um homem sem chifre é um homem indefeso.