Carcereiros
A mulher
Os horários incertos nas emergências da cadeia e as horas extras nos bicos para aumentar os ganhos fornecem álibis perfeitos para a infidelidade conjugal. Não são raros os carcereiros casados que se envolvem com outras mulheres, com quem estabelecem relações possessivas e duradouras. Homens de formação conservadora como costumam ser, adaptam-se à vida dupla de modo a dividir a presença quase simultânea em duas casas, tarefa extenuante que exige dedicação, virilidade, intimidade com a alma feminina e malabarismos circenses.
As esposas que se cansam deles e da vida que levam, separam-se ou arranjam um amante, comportamento que desmoraliza o marido infiel na vizinhança mas desperta compaixão e solidariedade entre os colegas de trabalho cheios de culpa no cartório. Ao descobrir a existência da outra, as mulheres brigam, armam escândalo, choram e ameaçam expulsá-los de casa. Confrontados com as evidências, eles negam tudo, peremptoriamente:
— Réu confesso, nem sob tortura. Sem admitir o erro, ela sempre ficará na dúvida.
É forte o argumento que apresentam para justificar a negativa:
— E se ela resolver pagar na mesma moeda, só para se vingar? Viu só o que fez a mulher do Mano Gordo?
Mano Gordo era magro como um varapau, consequência de uma cirurgia que o fez perder dois terços do estômago e parte do intestino. Na Penitenciária, diziam que a magreza do corpo lhe era proporcional ao mau humor, à falta de paciência e à agressividade no trato com os presos, traços que contrastavam com a delicadeza sorridente no relacionamento com as mulheres.
Era casado com Ester, mulata corpulenta de temperamento irascível, com quem tinha dois filhos adolescentes. No relacionamento com ela, Mano pisava em ovos para evitar a eclosão das crises de destempero, que alimentavam o falatório da vizinhança.
Para que não testemunhassem a condição humilhante vivida no aconchego do lar, ele jamais convidava os colegas de trabalho para visitá-lo nem ia com a esposa à casa de ninguém. Mesmo sem conhecê-la, entretanto, as más-línguas da cadeia comentavam:
— Aqui, canta de galo, fala grosso, preso nenhum faz graça com ele. Na frente da mulher é um cordeirinho.
Ester tinha uma prima, Emília, casada com um pintor de paredes que era muito trabalhador mas que a maltratava quando chegava bêbado, ocorrência que se repetia com certa regularidade. Nessas ocasiões, ela corria para a casa da prima, refúgio respeitado pelo marido por mais alcoolizado que estivesse, não por medo de Mano Gordo, sempre ausente, mas pela lembrança do golpe que recebera na cabeça com um caibro de madeira apanhado por Ester no quintal, que ele ousara invadir em perseguição à esposa.
Uma noite, ao chegar do trabalho, Mano encontrou Ester aplicando uma bolsa de gelo no rosto inchado de Emília. Ficou revoltado:
— Esse vagabundo nunca mais vai encostar um dedo em você.
O quarto e sala da prima ficava a dois quarteirões. O pintor assistia à tv escarrapachado no sofá, com uma cerveja na mão. Mano chutou a mão que segurava a lata, puxou o revólver e foi direto ao assunto:
— Olha aqui, seu pau-d’água covarde filho de uma puta, se encostar um dedo nela mais uma vez, vou estourar teus miolos.
Para dar mais ênfase à ameaça, introduziu-lhe o cano da arma goela abaixo, até fazê-lo vomitar.
Dois meses depois desse episódio, Emília diria que o marido tinha se transformado; continuava a beber, mas era uma seda ao chegar da rua. Estava muito agradecida, só Deus para pagar o bem que o primo fizera.
Mano não desprezava a retribuição divina, mas preferia colher neste mundo as dádivas da gratidão da prima. De soslaio, começou a flertar com a moça.
Como o contato entre os dois sempre acontecia com Ester por perto, o risco era imenso. A proximidade do perigo não o amedrontava, pelo contrário, mais lhe acirrava o desejo.
Num dia de chuva, ao sair da cadeia no fim do expediente, Mano tomou um susto: a prima o aguardava junto à Portaria:
— Estava de capa e guarda-chuva, com o cabelo molhado, sorrindo na minha direção. Fiquei arrepiado.
Começaram a se encontrar numa kitchenette da Baixada do Glicério, emprestada por um ex-detento que Mano salvara da morte nas mãos dos companheiros do pavilhão, no decorrer de um entrevero no qual o rapaz havia sido injustamente acusado de delatar a presença de uma advogada que passara três dias escondida na cela do namorado, depois de visitá-lo num domingo.
Os encontros amorosos aconteciam duas vezes por semana, rigorosamente às seis da manhã, horário insuspeito em que o dono do apartamento saía para trabalhar. Passavam uma hora e meia juntos, no máximo, para não se atrasarem nos empregos: o dele num presídio de Guarulhos, o dela numa loja de brinquedos na ladeira Porto Geral.
Mantiveram essa rotina romântica em segredo durante dois anos, até Emília desabafar com uma amiga de infância, criada na mesma rua que ela. Confidenciou que estava apaixonada, mas que não era feliz, vivia martirizada por trair a confiança da prima que tanto a ajudara.
A amiga íntima aconselhou-a a lutar pela felicidade que não encontrara no casamento com o pintor, mas escondeu que também atravessava um momento delicado: havia descoberto que o marido era infiel.
Dias mais tarde, a amiga viu Ester na feira carregando duas sacolas pesadas e se ofereceu para ajudá-la.
À noite, quando Mano voltou do trabalho, encontrou a esposa sentada na poltrona da sala, em silêncio, com a luz apagada. Perguntou pelas crianças, ela respondeu que tinham ido dormir na casa da tia, para que os dois pudessem conversar a sós.
Com a maior tranquilidade do mundo, disse que estava a par de tudo e que se separariam, mas que não guardaria mágoas nem causaria problemas desde que ele confirmasse a história.
Mano considerou a oportunidade perfeita para pôr um fim à vida que levava ao lado da mulher briguenta. Não suportava mais o mau gênio e a gritaria diária:
— A seu lado eu conheci o inferno. Aqui em casa até o cachorro manda mais e recebe mais carinho do que eu. Você queria o quê?
— Com tanta mulher no mundo, por que justamente a minha prima?
— Porque ela é bonitinha, carente e estava mais à mão.
Mais tarde, os amigos reconheceriam que ele foi imprudente ao cutucar a onça com vara tão curta. Ester enfiou a mão embaixo da poltrona, agarrou a faca e pulou em cima dele.
Foram duas facadas no abdômen.
Ficou quinze dias internado no Hospital do Servidor, perdeu mais de um metro de intestino, mas não denunciou a mãe de seus filhos: inventou que o ferimento resultara de uma tentativa de assalto na porta de casa.
Quando recebeu alta, foi morar com uma irmã. Não voltou para a companhia de Ester nem casou com Emília:
— Resolvi dar um tempo com as mulheres.
Mas o pior, dizem os colegas da cadeia, foi que:
— A ex-mulher não ficou contente. Começou a dar para todos os amigos dele.