Carcereiros
O túnel
— Chefe, fica esperto que tem tatu cavando solto.
Irani recebeu essa informação numa tarde de maio de 1996, na chefia do pavilhão Sete. O preso que a transmitiu era velho conhecido, já cumprira dez anos de uma condenação de mais de oitenta.
O chefe do pavilhão levou a sério. Calado, para não despertar suspeitas, vasculhou as dependências do térreo em que funcionavam as oficinas do Patronato, procurou falhas no chão da sala da Laborterapia, do atendimento médico, da barbearia e da capela, olhou no poço do elevador e em todos os lugares possíveis sem encontrar o menor sinal da boca de um túnel.
No dia seguinte, foi até a sala do diretor de Disciplina:
— Recebi uma informação que me fez passar o dia atrás de um maldito túnel.
— É melhor juntar os funcionários do pavilhão e olhar tudo de novo.
Um grupo saiu pela direita, outro pela esquerda, para dar a volta completa no pavilhão. Arrastaram máquinas, bancadas de trabalho, mesas e cadeiras, o altar com os santos, o púlpito da Assembleia de Deus, arrancaram os vasos sanitários dos dois banheiros, bateram com cano nas paredes para ouvir se estavam ocas, examinaram a pintura em busca de sinais recentes, reviraram tudo. Quando os homens se encontraram no meio do caminho, inverteram o sentido para que uns percorressem a trilha feita pelos outros.
Desanimado, Irani achou por bem mudar a estratégia:
— Não é possível, mano. Vamos chamar os colegas do Oito, do Nove e do Cinco para ajudar numa revista geral.
Na manhã do outro dia, ninguém abriu as celas. Com os homens trancados, a revista foi minuciosa, atrás de alguma ferramenta, fios de eletricidade, lâmpadas, gerador improvisado, sacos ou qualquer vestígio de terra. Nada.
Três ou quatro dias mais tarde, o diretor de Disciplina mandou chamar Irani:
— Meu, a caguetagem é forte: tem que achar o túnel.
— Meu Deus do céu, já viramos o pavilhão de cabeça para baixo. Meu pessoal passa o dia procurando, está todo mundo neurótico por causa desse buraco.
Irani saiu da sala do diretor e foi direto para o pavilhão Oito, atrás de Osmar e Mavi, funcionários experientes com quem havia trabalhado vários anos:
— Preciso de ajuda. Quem sabe vocês enxergam o que nós não vemos.
Às cinco da tarde, os dois apareceram. Os funcionários do Sete abriram todas as salas do térreo. Feito perdigueiros, primeiro Mavi, depois Osmar, examinaram canto por canto. No fim, concluíram que era muito improvável haver um túnel que não deixasse o menor indício da boca de entrada.
Irani não se deu por vencido. Na manhã seguinte manteve novamente os xadrezes trancados, chamou os colegas de outros pavilhões e organizou uma revista geral mais minuciosa ainda, do quinto andar até o primeiro. Quando chegaram no térreo, ordenou:
— Agora, vamos olhar tudo de novo. Não é para ir meia dúzia pra cá e meia dúzia pra lá, como da outra vez. Vai todo mundo junto. Quebra o que precisar, a responsabilidade é minha. É tudo no meu peito.
Só pediu para não mexerem no material pertencente à firma que trazia as bolas de futebol para costurar. Se tivessem prejuízo, poderiam romper o contrato e acabar com os empregos a duras penas conseguidos.
Os funcionários levaram a ordem ao pé da letra. Arrebentaram pisos e paredes suspeitas das oficinas do pavilhão, arrastaram todos os armários, arrancaram até o espelho da barbearia.
Quando terminaram, Irani pediu a eles que assinassem um ofício descrevendo a operação, para dar ciência à diretoria.
Domingo à noite, ele assistia ao Fantástico com a família quando o telefone tocou. Era Paulinho, carcereiro de plantão no Sete:
— Chefe, recebi uma caguetagem quente: a fuga está perto de acontecer.
O chefe não reagiu com palavras amenas:
— Puta que o pariu, caralho. Cadê essa porra desse filho da puta de túnel, que ninguém acha? Junta o nosso pessoal e revista tudo outra vez, quem sabe apareceu uma pista nova.
Preocupado, às dez horas ligou para o diretor que respondia pelo plantão noturno, Carlos Rita, funcionário competente e respeitado pela retidão de caráter. Explicou o que se passava, a agonia dos últimos dias, e pediu ao colega que organizasse uma busca com todos os funcionários disponíveis. Disse que iria imediatamente para lá. Carlos tranquilizou-o:
— Domingo à noite? Vem aqui fazer o quê? Deixa comigo. Ou você não confia? Se eu não ligar de volta é porque não achei nada.
Não ligou. Irani foi para a cama mais tranquilo, mas custou a pegar no sono.
Ao chegar segunda cedo, encontrou em sua mesa um relatório assinado por Carlos Rita para ser encaminhado ao diretor-geral, com o nome dos funcionários que participaram da operação.
Na quinta-feira, Reizinho, funcionário do Sete, veio conversar com o chefe:
— Chefe, eu já não vinha dormindo bem, mas essa noite perdi o sono por causa desse tatu.
— Já fizemos de tudo, meu. O único jeito é pensar numa saída radical.
Pensaram em duas. A primeira foi requisitar uma retroescavadeira na Regional da Prefeitura. A outra, pedir uma mangueira emprestada para o Corpo de Bombeiros, com a finalidade de encher o campo de água e fazer o túnel desmoronar, estratégia empregada com sucesso no passado.
Enquanto Reizinho encaminhava os ofícios para os Bombeiros e a Regional, Irani recebia a informação de que a fuga ocorreria no Dia das Mães, no fim de semana que estava para começar.
Sem tempo hábil para aguardar a chegada do equipamento solicitado, preparou a investida final. Na sexta cedo reuniu seus comandados:
— Quebrem tudo o que estiver na frente. Esses caras não são mais espertos que nós.
Armados com pedaços de ferro obtidos nas oficinas de Manutenção, eles deram início ao quebra-quebra, dispostos a não deixar um palmo de cimento intacto.
Quando os funcionários Luizinho, Mortadela e mais três colegas chegaram perto da sala de Laborterapia, foram cercados por um grupo armado com facas. Ao perceber que o plano seria desmantelado, os presos haviam antecipado a fuga.
Irani tomou um baque:
— O bagulho é desesperador. Já tinham fugido 51 homens. Naquele ano, fui o funcionário campeão de fugas de todo o Sistema Penitenciário brasileiro.
As paredes da sala de Laborterapia tinham mais de meio metro de espessura; a umidade que subia do solo espalhava manchas emboloradas em toda a sua extensão. Estrategicamente, atrás da porta de entrada, os fugitivos tinham feito um pequeno corte no concreto da parede, para dar acesso à boca do túnel. Limitada à metade da espessura da parede, pela abertura mal passava um homem de cada vez para trabalhar na escavação. Depois que entravam, a pedra era recolocada em seu lugar, rebocada e chapiscada na mesma cor, que a umidade disfarçava. O local não poderia ser mais insuspeito.
Foi uma obra de engenharia: passou por baixo da muralha, da rua, e saiu no quintal de uma casa em frente, para espanto dos moradores diante dos homens sujos de terra que emergiam do buraco. Na estrutura que dava suporte às paredes do túnel foram encontradas as madeiras e os ferros roubados do palco do Anhembi.
Mais tarde, ficou claro que o plano havia sido arquitetado por Ari, um ladrão que já estivera preso no Sete e conhecia o traçado de um túnel antigo que fora descoberto e tivera a boca lacrada naquela oportunidade. A terra da escavação foi jogada para as laterais do túnel, que davam acesso às partes ocas existentes sob o prédio do pavilhão, construído num aterro na década de 1950.
No Dia das Mães, com mais de mil mulheres e crianças espalhadas pelo térreo dificultando o controle, teriam fugido centenas de homens. A antecipação do dia D reduziu o número dos que puderam ter acesso à saída. Um dos fugitivos, obeso, que entalou na entrada sem que os outros conseguissem empurrá-lo para a frente nem puxá-lo para trás, limitou o número dos que lograram escapar.
Chefe do pavilhão, Irani foi chamado para depor diante do diretor-geral da Detenção, do coordenador-geral dos presídios da capital e da corregedora. Pouco antes, encontrou Flávio, colega de trabalho, que procurou prepará-lo para o pior:
— Irmão, você está numa fria do caralho. O secretário vai jantar você. Exoneração vai ser pouco.
— O que é isso, mano? Não dei fuga pra ninguém.
— Quando eu trabalhava na Penitenciária, quinze caras escalaram a muralha. O pm enquadrou na metralhadora e mandou todos de volta para dentro. Sem fugir ninguém, peguei duas semanas de suspensão, imagino você.
Ao depor, Irani tirou de uma pasta os documentos enviados para a diretoria, com os relatórios das buscas e revistas efetuadas no térreo e nas celas do pavilhão, nos quais constavam os nomes dos funcionários que delas participaram. Anexou, também, cópias dos requerimentos encaminhados ao Corpo de Bombeiros e à Regional, e concluiu:
— Posso dormir com a consciência tranquila. Se tivesse morrido algum dos meus homens, eu ia sofrer pelo resto da vida, mas graças a Deus não aconteceu.
Quando retornou ao pavilhão, seus comandados o aguardavam:
— Chefe, nós também fomos chamados para depor. O que vamos dizer?
— Falem aquilo que têm que ser dito: a verdade.
Passaram-se os meses. Nos dias de folga, Irani e Luizinho faziam bico como seguranças na ssg, empresa situada nas imediações do campo da Portuguesa, no Canindé. Uma tarde em que ia de carro para o trabalho, ele reconheceu na calçada um homem de terno azul-marinho e gravata:
— Me deu até tremedeira: era o Ari.
Como estava a uma quadra da ssg, achou melhor confirmar o reconhecimento com Luizinho. Quando se aproximaram do local, Luizinho foi categórico:
— Certeza absoluta.
Irani ligou para o Copom, o Centro de Operações da Polícia Militar, contou quem era ele e o homem de terno na calçada, que precisava ser preso antes de desaparecer.
Do interior de seu carro, viu a viatura chegar, abordar o suspeito e examinar os documentos, mas estranhou a duração da conversa. Ligou novamente para o Copom:
— Mocinha, o cara está dando documento falso. Tenho certeza que é ele.
Em seguida ouviu o rádio da viatura chamar, o mais graduado dos dois pms atendê-lo e olhar detidamente na direção do carro em que ele e Luizinho estavam.
O suspeito foi colocado na viatura. Irani os seguiu.
Ao chegarem à delegacia, o carcereiro desceu para falar com o sargento:
— Esse cara é o chefe do bando que escapou pelo túnel da Detenção. Posso ir lá e pegar a fotografia dele.
O sargento acalmou-o:
— Não tem necessidade, vamos apurar. O senhor nem precisa se dar ao trabalho de aparecer por aqui.
Irani diz que naquela noite um mau presságio o fez perder o sono:
— Eu tinha que ter falado com o delegado. Ele precisava saber que eu estava a par da fita e era a testemunha da prisão.
Na manhã seguinte, foi direto à sala do diretor de Segurança da Detenção, que ligou imediatamente para a delegacia:
— Vocês estão com um preso que comandou uma fuga daqui.
Deu o nome completo, descreveu o porte físico, o terno, e informou a cor da gravata. Responderam que não havia ninguém com aquelas características ali. O diretor insistiu até o interlocutor ficar irritado do outro lado da linha.
Irani não se conforma até hoje:
— Devia ter chamado o diretor da cadeia, na hora, para testemunhar a prisão e evitar o suborno. Fiquei mais mordido do que quando fugiram os 51.