Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 35 de 36

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Carcereiros

Amauri Bonilha

 

Embora já nos conhecêssemos de passagem, só nos tornamos amigos depois de uma vasectomia.

Amauri trabalhava no Cinco, pavilhão que abrigava os jurados de morte do Amarelo. Havia casado em segundas núpcias com dona Cecília, também funcionária da Casa de Detenção, com quem acabara de ter uma filha que, somada aos três do primeiro casamento, justificava a indicação da vasectomia que consegui sem custo para ele, num hospital particular.

Seu pai era um técnico em eletrônica que saiu de Piracicaba em 1946 para tentar a vida em São Paulo. Depois de sete anos de trabalho, casou com uma conterrânea e foram morar num sobrado na Vila Maria, em cujo térreo montaram uma pequena loja de móveis e eletrodomésticos.

O casal teve dois filhos e uma filha. Amauri era o caçula, Tadeu o do meio, e Edite a primogênita.

Diferentemente da maioria dos carcereiros, que entraram para o Sistema em busca da segurança oferecida pelo emprego público, Amauri iniciou a carreira de agente penitenciário aos 22 anos movido pela frustração de ter sido rejeitado no concurso para investigador da Polícia Civil. A reprovação não ocorreu por despreparo ou por limitações intelectuais, mas por causa de um processo que corria na Justiça.

Aos vinte anos, ele e Serginho, um amigo da Vila Maria, foram a uma festa no Ipiranga. Amauri gostou de uma menina e a convidou para dançar; na terceira música já estavam de rosto colado. Quando a festa terminou, sete ou oito rapazes da turma do Ipiranga, entre os quais um ex-namorado da moça, aguardavam os forasteiros na saída.

Não houve conversa, os dois apanharam até que Amauri puxou o revólver e atirou para o chão. Todos correram, menos um rapaz, que caiu atingido pela bala que ricocheteara na tampa de ferro de um bueiro.

O incidente deu origem a um processo que Amauri respondeu em liberdade. Depois de dez anos, quando os trâmites terminaram, o tiro foi considerado ato de legítima defesa.

Impossibilitado de seguir a carreira de policial por causa desse processo, prestou concurso para agente penitenciário, em 1978. Para completar o orçamento, à noite dirigia o táxi de uma frota.

Na Casa de Detenção, foi designado para o pavilhão Dois, na época chefiado por um funcionário conhecido como Leite Preto (para diferenciá-lo de Leite Branco, outro colega).

Adaptou-se rapidamente à rotina da cadeia. Gostou tanto do serviço que convenceu o irmão, Tadeu, a seguir o mesmo caminho. Os dois trabalharam juntos por muitos anos, no decorrer dos quais chefiaram praticamente todos os pavilhões do presídio.

Tive mais contato com Amauri no pavilhão Cinco, naquele tempo chefiado por seu Manoel, membro de nosso Conselho. Antes de subir para o atendimento no Amarelo, Paulo Preto e eu passávamos pela chefia para comunicar-lhes que estávamos chegando, tomávamos um café e conversávamos alguns minutos sobre as novidades do pavilhão.

Numa dessas ocasiões, insisti que parasse de fumar. Quando voltei na semana seguinte, ele disse que havia jogado o maço fora no mesmo dia e que nunca mais poria um cigarro na boca.

Dois meses mais tarde, eu o encontrei na Divineia com um pacote de cigarros na mão. Assim que me viu, justificou:

— Não voltei. O pacote é para saldar dívida de droga de um cara que vai morrer no pavilhão se não fizer o pagamento até as cinco da tarde.

Em seguida apontou para o pacote:

— É isso o que vale uma vida neste lugar.

Os colegas elogiavam-lhe a coragem e a disposição física para defendê-los nos momentos em que corriam perigo; os presos o consideravam íntegro e justo. Em anos de atendimento médico ouvindo confidências dos detentos do pavilhão, nunca soube que tivesse aceitado suborno.

Depois que a Detenção foi desativada, Amauri foi transferido para a cadeia de Franco da Rocha. Nessa mesma época seu filho mais velho perdeu o emprego. Para ajudá-lo a manter a família, Amauri vendeu o carro, o da esposa, levantou um empréstimo e montou um bar na Vila Maria. À noite, Cecília e ele auxiliavam o rapaz no serviço.

Pouco mais tarde, o filho foi recontratado pela empresa que o demitira e deixou o bar. Cecília e Amauri decidiram manter o estabelecimento pelo menos até liquidarem as dívidas.

Ela pegou gosto por aquele trabalho, ele não. A sensação de ficar preso no estabelecimento lhe era muito desagradável.

Repetidamente, o irmão o aconselhava a vender o bar:

— Falei mais de quinhentas vezes que era perigoso. Gente como nós não pode ficar exposta atrás de um balcão.

Fizemos diversas reuniões do Conselho no bar do Bonilha. Era um lugar despojado, com um balcão em L, três mesas e meia dúzia de cadeiras. Cecília e ele se encarregavam do serviço. Só no fim da reunião, quando o ambiente acalmava, é que ele sentava conosco.

No dia 11 de maio de 2006, conseguimos juntar ali mais de vinte funcionários da antiga Detenção; alguns vieram do interior especialmente para o encontro. Foi uma das confraternizações mais animadas da história do Conselho. Amauri disse que nunca tinha visto tirarem tantas fotos nem tinha vendido tanta cerveja num dia só.

Na noite de sábado, dia 13, o bar estava cheio de fregueses. Entre eles, Edite, irmã de Amauri, e Serginho, o amigo de infância presente na briga do Ipiranga. Cecília estava do lado de fora do balcão; Amauri, do lado de dentro.

À uma da madrugada chegaram três rapazes. Um deles parou na porta, enquanto os outros encostaram no balcão.

De repente, os do balcão puxaram as armas e mandaram todos deitar no chão. Quando Amaury percebeu que iam atirar em Cecília, avançou desarmado na direção dos dois. Os bandidos descarregaram as armas sobre eles.

A execução de Amauri e Cecília fazia parte do levante da facção responsável pelos incêndios de ônibus e pelas mortes, em maio de 2006.

A fisionomia de Amauri entre as flores do caixão era serena, havia até um esboço de sorriso em seu rosto. Como bem observou seu Araújo:

— É como se ele quisesse dizer: não acredito que isso aconteceu.