Carcereiros
A negociação
A ascensão de Irani foi rápida; em poucos anos ele assumiu a chefia do Sete, pavilhão construído tão perto da muralha que se tornou conhecido como a fábrica de túneis da cadeia.
Nós nos conhecemos logo que comecei o atendimento médico na Detenção, mas nos tornamos mais próximos depois de um churrasco em Mauá, organizado pelo Sindicato dos Agentes Penitenciários, ocasião em que formamos uma parceria na mesa de pebolim que se mostrou praticamente imbatível.
Na volta do churrasco, pedi a ele que contasse a história de dois presos que tinham sequestrado funcionários num domingo daquele mês. Ele respondeu que, para entendê-la, era preciso recuar no tempo.
Meses antes, havia chegado no pavilhão um detento transferido de outra cadeia. Era um mulato magro marcado por uma cicatriz na face e uma tatuagem no braço: uma caveira com um punhal fincado na parte mais alta, indicação de que teria matado um pm, credencial que predispõe os policiais militares a vingar-se do assassino de um colega de farda.
A transferência era motivada por um incidente no qual os ocupantes de determinado xadrez tinham agredido um grupo de funcionários que lhes havia frustrado a tentativa de fuga.
Irani leu a ficha que acompanhava o transferido, levantou os olhos em sua direção e disse com voz calma:
— Deu azar, maluco, caiu no lugar errado. Um dos colegas que vocês agrediram trabalhou com a gente. Pior de tudo, deram um pontapé na bunda dele, humilhação que nós não vamos tolerar. Pode se preparar que o bagulho vai ser mais que doido.
O ladrão respondeu com educação:
— Senhor, eu estava na mesma cela, mas fiquei fora dessa fita. Falei até para os companheiros que era contra esse negócio de agredir funcionário.
— Olha aqui, meu, se for mentira, o bagulho vai ser dobrado. Volta e meia o colega que levou o pontapé passa por aqui. O veredito será dele.
De fato, dois ou três dias mais tarde o carcereiro agredido apareceu na cadeia e foi levado para reconhecer o acusado. Na presença dele, sorriu:
— Enquanto os outros vieram para cima de nós, esse ficou quieto, na dele, sem sair do xadrez.
Passaram-se os meses. Num domingo à noite, Irani saiu do banho e vestiu o pijama enquanto aguardava a entrega da pizza com a esposa e os quatro filhos para depois assistir aos gols da rodada, seu programa favorito na tv, quando o telefone tocou: dois funcionários haviam caído reféns no pavilhão Sete.
Chegou na cadeia às nove da noite. Foi direto para a sala da diretoria, em que estavam reunidos o diretor-geral e o dr. Lourival Gomes, na época coordenador dos presídios da capital, mais tarde secretário de Assuntos Penitenciários. Lá, soube que dois presos armados com um revólver e uma faca tinham rendido os funcionários no fim da tarde, na presença das visitas do pavilhão.
— Para ousar uma ação dessas em dia de visita, só podiam estar ameaçados de morte — Irani concluiu.
Pediu para entrar e cuidar pessoalmente da negociação, era o chefe do Sete, ficaria desprestigiado se outro ocupasse seu lugar naquela hora.
Autorizado pelo coordenador, atravessou o portão que dava acesso ao pátio central, entrou no pavilhão e subiu para o terceiro andar. Ao chegar na porta da cela, encontrou os dois funcionários sentados na cama, vestindo as calças cáqui dos presidiários, e os dois rebelados de calças jeans, em pé.
Um deles era justamente aquele da cicatriz e da tatuagem da caveira que viera transferido. O outro encostou o revólver em sua cabeça:
— Olha aqui, chefia, nós tem que ir embora daqui.
Foi como se tivesse falado com um surdo. Irani tinha os olhos fixos nos funcionários:
— Vocês dois, tirem essas calças, já. Que palhaçada é essa?
O ladrão engatilhou a arma. Irani agiu como se estivesse apontada para a parede.
— A cara de vocês é ser ladrão, a nossa é ser funcionário público. Enquanto não destrocarem as calças, não tem conversa comigo.
O da arma ameaçou disparar.
— Atira, que nós três vamos sair daqui no rabecão do iml. Precisa ser muito burro ou gostar de morrer para fazer uma besteira dessas.
O da caveira interveio:
— Vamos fazer o que ele diz, ele não vai desistir.
Trocadas as calças, começou a negociação. Os presos queriam transferência para a cadeia de Parelheiros, único lugar em que se sentiriam seguros. Caso seu Irani concordasse, iriam com ele e os dois reféns sob a mira do revólver até o camburão que os transportaria para lá, ocasião em que entregariam a arma em sua mão.
Estavam de fato desesperados, na sexta-feira haviam chegado no pavilhão Sete mais dezoito presos, entre eles cinco ex-companheiros do Capão Redondo com os quais os dois rebelados não mantinham relações afetuosas.
Os recém-chegados já tinham recebido autorização do encarregado da Faxina, o mandachuva do pavilhão, para executar os dois traidores que no último assalto fugiram com o dinheiro e as armas da quadrilha e ainda deram com a língua nos dentes sobre o paradeiro dos demais, durante o interrogatório no Deic. A única chance de escapar com vida era conseguir transferência para outro presídio com a máxima urgência, o que justificava a ação executada em dia de visita. Se o plano desse errado, morreriam duas vezes: pela traição aos comparsas e pelo desrespeito com os visitantes.
Irani disse que não tinha autorização para decidir, precisava ouvir o coordenador na sala da diretoria, única pessoa com poderes para providenciar a transferência. O da arma ameaçou:
— O senhor vai. Se não voltar, a gente mata esses dois.
Irani se virou para o da tatuagem:
— Muito me admira você, que parece um ladrão mais equilibrado, deixar um revólver na mão de um maluco desses. Meus funcionários estão espalhados pelos andares, com ordem de destrancar todas as celas assim que ouvirem o primeiro tiro. Não vai sobrar vestígio nem da alma de vocês.
Virou de costas e desceu sem esperar resposta.
Na sala da diretoria, dr. Lourival autorizou a transferência, medida que lhe pareceu adequada para preservar a vida dos funcionários e dos dois detentos.
Irani desceu com os colegas-reféns pela galeria escura sob a mira do revólver e da faca. O silêncio era completo. Os presos se acotovelavam para espiar pelo guichê das celas. No pátio interno, ninguém, mas, ao chegar na Portaria, os funcionários de plantão haviam formado um corredor polonês que assustou os sequestradores. Irani tranquilizou-os: tinha empenhado a palavra.
Quando o portão de entrada foi aberto, o camburão que os transportaria já se achava estacionado. Alguns funcionários tentaram se aproximar dos presos para tomar-lhes as armas, mas Irani impediu. Uma vez dentro do camburão, o da tatuagem entregou-lhe a faca e o revólver:
— Conforme prometi para o senhor.