Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 32 de 36

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Carcereiros

A implosão

 

A sociedade faz questão de ignorar o que se passa no interior dos presídios. Tem lógica: se todos concordam que a finalidade da pena é apenas castigar os que cometeram delitos, por que haveria interesse em assegurar condições mais dignas de aprisionamento?

Nossas cadeias são construídas com o objetivo de punir os marginais e de retirá-los das ruas, não com o intuito de recuperá-los para o convívio social. Preocupações de caráter humanitário com o destino dos condenados só ganharão força no dia em que os criminosos das famílias mais influentes forem parar nas mesmas celas que os filhos das mais pobres.

O caso do Carandiru é representativo. Aquele conjunto de prédios com mais de 7 mil homens e quase mil funcionários, em plena avenida Cruzeiro do Sul, a quinze minutos da praça da Sé, tinha para a cidade a mesma importância que uma craca grudada no casco tem para o resto do navio, como um dia escreveu com propriedade o jornalista Pedro Bial.

O que a comunidade esperava das autoridades penitenciárias era que os problemas criados no interior da cadeia ficassem circunscritos às muralhas; os meios empregados não eram da conta de ninguém, contanto que não viessem a público.

Até a morte dos 111, a Detenção só havia aparecido nos noticiários de rádio e tv e nas primeiras páginas dos jornais por ocasião da tentativa de fuga à mão armada que ocorreu em 1982. Descontado esse episódio, os comentários da imprensa ficavam restritos às colunas policiais dos jornais populares, ainda assim quando aconteciam rebeliões ou fugitivos que escapavam inexplicavelmente pela porta de entrada ou por túneis construídos com astúcia cinematográfica.

É inacreditável que um presídio daquelas dimensões tenha permanecido em anonimato silencioso por quase meio século, a despeito do entra e sai diário dos caminhões de entrega para prover as necessidades de uma população maior que a de muitas cidades, acrescido das filas quilométricas formadas por milhares de mulheres e crianças nos fins de semana, numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo.

A única explicação para esse fenômeno está na invisibilidade social reservada aos excluídos.

Todos os dias chegavam detidos e saíam em liberdade dezenas de homens, muitos dos quais responsáveis pelos sequestros, assaltos e homicídios que roubam a tranquilidade das ruas. Como essa “escória social” tem suas origens na periferia da cidade, bairros e vilas por onde um bem-nascido jamais se aventura, seus membros enfrentam preconceito duplo: o primeiro por viver fora da lei, o segundo por ser pobre. Se tiverem pele escura, então, a discriminação será tripla.

Se os consideramos todos iguais, bandidos perversos e impiedosos, independentemente do que tenham feito ou deixado de fazer, por que motivo nos importaríamos com a sorte dessa laia? Que mofem como feras enjauladas até que a morte os leve para as profundezas do inferno. Dar-lhes comida e moradia gratuita já não é um fardo insuportável que o mundo civilizado nos obriga a carregar?

Dias antes da tentativa de fuga à mão armada de 1982, Luizão dissera a seus assessores:

— Se um dia eu cair refém, tudo tem que ser resolvido aqui dentro, sem ninguém abrir os portões.

Foi um dos mais corajosos e destacados diretores da história das prisões paulistas, não por acaso escolhido para a função. Cabia ao diretor-geral detectar e pôr fim aos conflitos antes que a sociedade tomasse conhecimento deles, orientação transmitida a todos os subalternos. Manter os presos encarcerados e a cadeia longe dos noticiários era o que as pessoas de bem esperavam dos homens encarregados de administrar o Sistema Penitenciário.

Então, veio o massacre do pavilhão Nove, em outubro de 1992, quando uma briga entre duas quadrilhas gerou um confronto de facas com meia dúzia de mortes no decorrer do qual os detentos começaram a depredar as instalações. Por inexperiência, os presos não fizeram reféns, imprudência de consequências desastrosas.

Qualquer carcereiro mais velho teria tomado as medidas de rotina: cortar luz e água e aguardar o dia seguinte para negociar a rendição. Sem reféns, que pressa haveria? Com os ânimos mais serenos bastaria conversar.

Era o que o dr. Ismael Pedrosa, diretor-geral que andava pelo presídio como se estivesse no quintal de casa, tentava fazer junto ao portão que dava acesso ao Nove, quando foi empurrado contra a parede pela tropa da pm que invadia para dar início à repressão mais sangrenta da história das cadeias brasileiras.

Foi naquele momento que Osmar, funcionário-chefe do vizinho pavilhão Oito, comentou com Araújo:

— Invadir o Nove no escuro! Os cara perderam a cabeça, mano?

Loucos não eram os militares com os cachorros e as metralhadoras, mas a autoridade que ordenou aquela invasão intempestiva com o objetivo de “controlar a rebelião a qualquer preço”, para em seguida esconder-se na covardia do anonimato.

Daquela noite de chuva para o dia, o Carandiru se tornou o presídio mais famoso do mundo.

A cadeia jamais foi a mesma. Diretor andar pelos pavilhões como vi o dr. Pedrosa fazer no próprio dia 2 de outubro, nunca mais; presos fazerem exigências fora de propósito e afrontarem funcionários virou rotina. Nos primeiros dias depois da tragédia, Valdemar Gonçalves, diretor do Departamento de Esportes, ao sair do pavilhão no fim do expediente foi abordado por Barra, um traficante respeitado e temido pelos companheiros:

— Eu acompanho o senhor até o portão que dá para a Divineia. O ambiente está esquisito. Não quero que aconteça nada, o senhor não merece.

Não foi o único a sair escoltado pelos próprios detentos, inversão de papéis inimaginável semanas antes.

Cientes de que o Estado saíra enfraquecido do episódio e de que não haveria condições políticas para nova repressão armada, os detentos mais experientes formaram coalizões para assumir o poder, esse espaço abstrato que os homens jamais deixam desocupado.

De acordo com os princípios que Charles Darwin estabeleceu há mais de um século e meio, na competição fratricida que se desenvolveu entre as diversas facções predominou a mais forte, que em poucos anos imporia suas leis na maioria dos presídios paulistas e em parte significante das ruas desassistidas dos bairros periféricos de São Paulo.

A decisão de implodir o Carandiru foi fruto da má notoriedade adquirida. Ao contrário de épocas anteriores, agora tudo o que lá acontecia virava manchete no noticiário.

Depois de muitos anos sem investir na criação de novas vagas, os dois últimos governos estaduais daquele período haviam construído diversas cadeias na capital e no interior, mais modernas e bem equipadas. Esse esforço, no entanto, ficava ofuscado pelo interesse da imprensa a respeito da Detenção, local antiquado e problemático que denegria a imagem do Sistema Penitenciário paulista.

No dia da implosão reuni um grupo de funcionários antigos na lanchonete do último andar de um prédio da avenida Ataliba Leonel, com visão panorâmica da cadeia. O ambiente era de excitação nostálgica movida a cerveja; todos faziam comentários, contavam histórias e recordavam experiências vividas durante os anos de trabalho naquele local. Quando os alto-falantes levaram ao ar as vozes distantes do secretário de Assuntos Penitenciários e do governador, a animação emudeceu. No fim, lado a lado, todos em pé junto à sacada do prédio, ouvimos a contagem regressiva que precedeu as explosões.

Em segundos, os pavilhões requebraram e ruíram desajeitados como se mãos descomunais lhes tivessem arrancado as pernas. Das entranhas do monstro de concreto e ferros retorcidos subiu uma nuvem alaranjada de poeira densa que se propagou pela Ataliba Leonel, na direção do Alto de Santana.

No silêncio comovido da sacada, Valdemar murmurou:

— Não precisava ter sido assim.