Carcereiros
Guilherme Rodrigues
Guilherme foi boêmio na juventude. Na mesa de snooker, chegava a encaçapar da primeira à última bola sem que o adversário tivesse a oportunidade de pegar no taco.
Com essa habilidade, fez nome nos principais bilhares de São Paulo, jogou com Carne Frita, Joaquinzinho, Boca Murcha e outros personagens que se reuniam no Maravilhoso, da avenida São João, no Bangu, da Vila Formosa, nos bares da Boca do Lixo e do centro antigo.
Como muitos meninos de sua época, ao concluir o curso ginasial foi trabalhar numa fábrica, na qual permaneceu até os 24 anos. Desempregado, mudou de rumo, voltava para casa de madrugada e acordava na hora do almoço.
Quando ele tinha catorze anos, o pai vendeu a pequena oficina mecânica de Borborema, no interior do estado, em busca de uma vida melhor para os seis filhos na capital. Espanhol sisudo que não bebia nem fumava, ficava contrariado com a vida desregrada do filho. A mãe, completamente dedicada à família, mais ainda.
A carreira na boemia durou três anos. Com medo de que o rapaz enveredasse pelo mau caminho, a mãe pediu a um deputado conhecido que conseguisse emprego para ele na Penitenciária do Estado, pequeno tráfico de influência rotineiro naqueles tempos de legislação frouxa.
A escolha do novo trabalho não foi aleatória, Guilherme era fascinado pelas histórias de bandidos e policiais que ouvia contar na noite e leitor assíduo das colunas de Romão Gomes Portão, no Notícias Populares, em especial pelas que descreviam as peripécias de Betona, a rainha da Boca do Lixo, e de outros marginais que mais tarde conheceria na Penitenciária e no Carandiru.
Sempre atento ao modo de agir dos colegas mais experientes, em apenas três meses foi escalado para o Serviço de Vigilância Especial, encarregado de atuar em momentos de rebeldia, apartar brigas, fazer revista e transportar presos perigosos.
Quatro anos mais tarde, prestou exame e se tornou efetivo. No ano seguinte, foi aprovado em concurso para a Polícia Civil e designado para a delegacia de Vila Brasilândia, onde permaneceu alguns meses, tempo suficiente para perceber que sua vocação era mesmo lidar com presos e voltar para a Penitenciária.
Fala com saudades daquela época:
— A Penitenciária era organizada, trabalhávamos uniformizados, havia disciplina, obediência, hierarquia. Os presos eram bandidos que conheciam e respeitavam as regras de procedimento.
Durante quinze anos, morou com a esposa e os dois filhos numa das casas destinadas à diretoria, construídas no terreno da própria Penitenciária. A proximidade do local de trabalho e a natureza da função exercida trouxeram a desvantagem de afastá-lo do mundo civil e dos amigos do passado.
— Ser guarda de presídio significa viver no mundo do crime. Quem vai matar quem? Se eu tomar essa atitude, quais serão as consequências? E se tomar outra? Por que aquele preso disse aquilo? Será que levo a sério a denúncia da fuga? E o colega, está mesmo envolvido com a quadrilha?
A rotina de uma cadeia é tão carregada de conflitos e explosões de violência, que as emoções da vida comum esmaecem. Empenhado em apaziguar duas quadrilhas para evitar uma guerra que terminará com mortes, é pouco provável que o agente chegue em casa descontraído para o convívio familiar.
Depois do café da manhã de um domingo de sol, Guilherme atravessou o caminho arborizado que separava sua casa das muralhas da Penitenciária, para ver como transcorriam as visitas, hábito adquirido desde a nomeação como diretor de Segurança.
Na entrada, retirou da fila quilométrica três senhoras de idade e duas moças grávidas, para fazê-las entrar com ele, providência que havia aprendido com o diretor-geral, Luizão:
— Quando elas chegam lá dentro e descrevem a gentileza, o preso fica eternamente agradecido. Jamais vai criar problema.
No térreo do pavilhão Um, os homens tinham espalhado bancos e forrado as mesas com lençóis e cobertores para almoçar com os familiares que traziam frango assado, maionese de batata, macarronada, farofa, bolos, pudins e as inevitáveis garrafas plásticas de refrigerante. Como sempre, mais de 90% eram mulheres de todas as idades, bebês, e crianças mais velhas que corriam entre as mesas.
No pavilhão Dois, decorado com bandeirinhas juninas esticadas no teto, o mesmo clima festivo. No Três, o diretor de Segurança estranhou:
— A unidade estava silenciosa.
As visitas conversavam em voz baixa, com ar apreensivo. Ele parou na grade da gaiola situada entre o corredor interno e a galeria central que levava às celas. Um preso conhecido passou junto à grade e murmurou:
— Tá sinistro, o couro vai comer.
Guilherme subiu pelas escadas até o quarto andar. Não fosse a inquietude dos funcionários que guardavam as portas de acesso às celas, nada chamava a atenção. Apenas o silêncio, prenúncio das tragédias.
Inspecionados os andares, voltou para a grade de entrada do térreo. Parado ali, notou que no primeiro xadrez do lado esquerdo o faxina Bobô, um preso com quem tinha amizade, entrava e saía da cela:
— Bobô, você está agitado, chega aqui na grade para trocar uma ideia.
Mal acabou de falar, começou a gritaria. Mulheres e crianças corriam pelas galerias, sem ter por onde sair, porque os guardas de plantão não se arriscavam a abrir as duas portas da gaiola de entrada. Feito pintinhos assustados que procuram as asas da mãe, os funcionários se juntaram ao lado do diretor de Segurança.
Ele diz que esse é um dos segredos da profissão:
— Cadeia precisa ser dirigida de modo que o funcionário sinta que nos momentos de crise o diretor estará ali para protegê-lo.
Vindos da escadaria, dois homens com facas avançaram na direção de Bobô, que mal teve tempo de pegar a sua embaixo do colchão. Apesar de estar sozinho, o faxina investiu contra os inimigos. Guilherme, sem poder entrar pela gaiola trancada, berrava para que a luta terminasse.
Quando os dois atacantes pareciam perder terreno, entrou em cena outro homem com uma faca afiada: Paixão.
Acuado, Bobô recuou para dentro do xadrez. Guilherme gritou, ameaçou, esbravejou, tentou o tom conciliatório, mas não conseguiu evitar o desenlace. Em dois ou três minutos Paixão, matador profissional, apareceu na porta da cela com a faca ensanguentada.
A morte não acalmou os ânimos, foram mais vinte minutos de correria no terceiro andar e de gritos desesperados. Os funcionários finalmente abriram as grades para socorrer as visitas, expondo-se ao conflito. No fim, quinze detentos se apresentaram na gaiola do térreo para entregar as facas. Dois outros companheiros de Bobô estavam mortos, um deles amigo inseparável de Paixão.
O motivo?
Um conhecido de Bobô apoderou-se do “jumbo”, a sacola de mantimentos que a família trouxera para um dos presos. Bobô tomou a defesa do amigo com a justificativa de que se tratava da cobrança de uma dívida. Paixão e os companheiros não aceitaram o argumento.
Como consequência da morte de Bobô e dos dois companheiros, Paixão, homem revoltado, com diversas mortes nas costas, estuprado anos antes no Carandiru, foi transferido para o Anexo de Taubaté, na época o presídio de segurança máxima do estado. Meses mais tarde, enforcou-se nas grades da cela.
Naquele domingo do entrevero, Guilherme chegou atrasado para um almoço em família:
— Ainda tomei uma bronca da minha mulher.
Na Penitenciária do Estado, suas relações com Luizão, o diretor-geral, nem sempre foram amistosas:
— Ele vivia pegando no meu pé. Não podia encostar o dedo num preso que ele ameaçava: “Vou te mandar para o inferno, seu desgraçado”.
Luizão justifica:
— Ele foi um de meus funcionários mais dedicados e corajosos, sempre pronto a entrar nas confusões, mas era muito afoito e agressivo. Corria risco de morte. Precisava de um freio.
Uma noite, no táxi em que trabalhava nas horas de folga para complementar o orçamento doméstico, Guilherme ouviu no rádio que o secretário da Justiça havia acabado de transferir Luizão para a Casa de Detenção, o Carandiru:
— Só não pulei de alegria porque estava dentro do carro. Deus tinha ouvido minhas preces, estava livre daquele chato.
A felicidade durou apenas até ele chegar em casa. A esposa tinha um recado:
— É para você ligar para o doutor Luizão.
Do outro lado da linha, o chefe foi impositivo:
— Você vai ser meu assessor na Detenção.
Ao assumir o novo cargo, Guilherme estranhou a falta de disciplina, da rigidez no trato com os sentenciados, e a diferença de cultura entre as duas cadeias:
— Na Penitenciária, um detento flagrado com maconha ia para a Isolada, sem reclamar. Na Detenção, tantos fumavam, que eu me limitava a mandar comer o baseado. Se fosse mandar para o castigo, ia a cadeia inteira.
Numa segunda-feira, quando ele chegou em sua sala no pavilhão Seis, o telefone interno tocou. Era um de seus informantes, que cumpria pena no pavilhão Oito:
— Seu Guilherme, pega a maconha que vai entrar no caminhão de conta-gotas.
Fazia sentido: naquela manhã era esperado o caminhão que trazia da fábrica os componentes dos conta-gotas, que seriam montados e embalados em caixas pelos presos que trabalhavam nos Patronatos, área em que eram executados os serviços contratados pelas empresas.
Guilherme ligou para o dr. Walter Hoffgen, seu superior hierárquico, que veio a ser diretor-geral da Penitenciária e da Detenção nos anos 1990 e chefe de gabinete do secretário da Administração Penitenciária em 2010.
Quando o caminhão estacionou na entrada, seu Ulisses, chefe da Portaria, permitiu que seguisse até a Divineia, o pátio central da cadeia, onde Guilherme e dois auxiliares aguardavam para revistá-lo, tarefa demorada por causa da grande quantidade de material empilhado.
Enquanto descarregavam os fardos, tiveram certeza de que a denúncia era digna de crédito:
— Pelo nervosismo do motorista, que ficou branco e trêmulo feito vara verde.
Numa das caixas em que estavam dispostas as folhas de papelão para a confecção das caixinhas de conta-gotas, encontraram 34 quilos de maconha.
Duas semanas mais tarde, Luizão avisou a Guilherme que levaria um grupo de visitantes para conhecer o pavilhão Oito.
Acompanhando a visita à distância, Guilherme não gostou de ver as galerias desertas e as rodinhas que se formavam no campo de futebol, ao lado.
Num dado momento, passou por ele um preso magrinho, condenado a muitos anos:
— Tira as visitas, seu Guilherme. Vai ter briga de faca.
Era justamente o informante que denunciara o caminhão com maconha.
Guilherme encontrou um jeito para aproximar-se do diretor-geral sem que os visitantes percebessem:
— Chefe, temos problemas. Melhor sair.
Assim que as visitas se retiraram, ele pediu aos dois auxiliares que dessem uma olhada no pessoal do campo.
Os dois voltaram logo:
— Não dá nem para chegar perto. Fizeram uma parede humana junto à muralha que separa o Oito do Cinco, nem conseguimos ver o que acontece ali no meio.
Em passos rápidos, Guilherme atravessou o campo. O pavilhão inteiro formava uma barreira que não deixava espaço para passar.
Não teve dúvida; com os braços e os ombros foi abrindo caminho aos trancos em meio à massa. A resistência passiva que os presos faziam não foi suficiente para impedir-lhe a passagem.
Quando chegou nas últimas fileiras, pôde ver dois homens junto à muralha, armados com faca, em luta de vida ou morte.
Sem cerimônia, empurrou com tanta força os que ainda restavam à frente, que três deles foram ao chão.
— Para já com isso. Dá aqui essas facas.
Gritou e avançou resoluto contra os adversários. Ficou no meio deles, tão perto das armas que nem notou a chegada de seu Siqueira, funcionário mais velho que veio atrás para não deixar o companheiro sozinho no meio da confusão.
Os carcereiros desconfiaram da prontidão com que os contendores entregaram as facas. Negociador nato
Mais tarde descobririam que os dois tinham sido injustamente acusados de delatar a maconha apreendida, pelo fato de trabalharem no setor encarregado do controle das mercadorias encaminhadas para os Patronatos.
Na sala da diretoria, ao receber a notícia de que a indisciplina lhes custaria trinta dias na cela-forte, os lutadores agradeceram:
— Foi Deus que enviou os senhores. Obrigaram a gente a lutar, mas já tinham combinado matar aquele de nós que sobrevivesse.