Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 11 de 36

Páginas do PDF

Carcereiros

Irani Moreira

 

Os colegas dizem que Irani tem mais histórias para contar do que duas manicures juntas.

De fato, é um narrador que hipnotiza a audiência. Há muitos anos no Sistema Penitenciário, acumulou vasto repertório das atribulações que fazem a rotina das cadeias. Seus relatos são dramáticos, pontuados por interjeições que servem de pausa para o ouvinte respirar e aguçam a curiosidade a respeito do que está por vir.

Nasceu no bairro de Santana, na zona norte. O pai, português à moda antiga, cuidou de educar os seis filhos para serem honestos, cumpridores da palavra e respeitarem os mais velhos, princípios que ele considera ter seguido pela vida inteira.

Parou de estudar no fim do antigo ginásio e arranjou emprego de cobrador, num tempo em que era possível circular pelo centro da cidade com a pasta cheia de dinheiro. Aos dezoito anos conseguiu comprar uma Kombi para prestar serviços à Sabesp. Trabalhava muito, mas ganhava bem, mais até do que os engenheiros da companhia. No fim dos anos 1970, quando a empresa decidiu terceirizar o serviço de transporte, Gagaguinho, amigo de infância, sugeriu que prestassem concurso para guarda de presídio. Irani tinha trinta anos, um filho e a esposa grávida.

Ele passou nos exames; Gagaguinho foi reprovado na prova oral.

Na Detenção, conheceu seu Valdomiro, funcionário mais velho que trabalhara na Penitenciária do Estado:

— Seu Valdomiro, que Deus o tenha, era um conhecedor, um homem íntegro e honesto pra caramba. Foi meu primeiro professor.

No pavilhão Quatro, ambos trabalhavam sob a chefia de seu Romeu, funcionário intransigente e rigoroso na manutenção da ordem, que todos os dias ao entrar no pavilhão batia a porta com força para anunciar sua chegada. Quando passava, os presos encostavam-se na parede mais próxima com as mãos para trás, imóveis como soldados disciplinados. Ao subir nos andares, se encontrasse uma janela empoeirada passava descompostura nos subalternos e os acusava de não servir sequer para mandar nos detentos. Irani diz que com ele aprendeu a mandar e a obedecer.

Seu Romeu era rigoroso com a disciplina e a ordem. Os xadrezes só eram abertos pela manhã depois de passar por uma inspeção sumária: a cama devia estar arrumada, o chão varrido, o vaso sanitário limpo e os talheres dispostos em ordem sobre a mesa, caso contrário os presos permaneciam trancados o dia inteiro.

Logo nos primeiros dias, o jovem Irani foi informado de que o chefe queria falar com ele. Quando entrou na sala, não havia ninguém, mas ouviu vozes e o barulho de um chuveiro. Já se preparava para ir embora, quando um dos presos que trabalhavam na chefia pôs a cabeça do lado de fora do banheiro:

— É para o senhor esperar. Ele já está saindo do banho.

Quando o chuveiro calou, seu Romeu saiu nu ao lado de dois presos auxiliares, um deles alto e magro e o outro baixo e careca. O mais alto se apressou em cobrir a cadeira com uma toalha para que o chefe sentasse, enquanto o outro se pôs a enxugá-lo vigorosamente da cabeça aos pés.

Gesticulando à italiana, o chefe contou que tinha recebido a denúncia de um plano de fuga pelo quarto andar do pavilhão, área que se encontrava desativada havia meses. Fazia várias suposições e queria que Irani juntasse três colegas para investigar.

Quando o baixo e careca acabou de secar o chefe, que falava sem interrupção, o companheiro postado em frente com uma lata de talco nas mãos pulverizou-lhe as axilas, os vãos dos dedos dos pés, e ergueu-lhe o saco para jogar talco nas dobras das virilhas, sem que seu Romeu se dignasse a facilitar sua tarefa. Encerrada a operação, os dois o ajudaram a vestir o terno, dar o laço na gravata e calçar as meias e os sapatos irrepreensivelmente engraxados.

O grupo de funcionários subiu para abrir e vasculhar as celas fechadas do andar mais alto. Ao entrar na 422, Irani encontrou um molho com meia dúzia de chaves. O que fariam elas num xadrez trancado?

Começou a testá-las em todas as fechaduras daquele andar, até que conseguiu abrir o cadeado da porta de acesso ao telhado do pavilhão. Lá, encontrou barras de ferro, cobertores, pedaços de lona, alicate e chave de parafuso:

— Que bagulho louco é esse?

Com aquele material, alguém tivera a brilhante ideia de construir uma asa-delta para saltar do telhado sobre a muralha, situada num nível mais baixo, plano com pouquíssima chance de dar certo.

— Eu nunca tinha ouvido falar nessa porra de asa. Foi seu Romeu quem matou a charada e pediu para descer os presos do pavilhão.

Quando todos estavam reunidos no pátio, inesperadamente chegou o diretor-geral, a quem eles chamavam de Coronel, policial militar linha-dura que fez fama no Carandiru.

Diante da massa, ele olhou para o relógio:

— Dou três minutos para aparecer o passarinho-voador. Se não se apresentar, vai todo mundo para o castigo.

Deu trabalho encontrar espaço nas celas de castigo dos demais pavilhões para distribuir quase duzentos homens.

No plantão seguinte, seu Valdomiro recebeu um recado para ir conversar com o pessoal de castigo no pavilhão Cinco. Irani foi junto. Um dos transferidos assumia a responsabilidade pela tentativa de fuga.

Todos foram liberados para voltar ao pavilhão de origem, menos o preso-voador, que tomou uma surra antes de ser trancado novamente. Bateram até seu Romeu ter certeza de que ele não assumia a culpa alheia.

A violência assustou Irani:

— Caiu minha ficha: aqui o cara apanha só para provar que não é laranja. Em que lugar vim parar? Mano, o bagulho é muito mais louco do que eu pensava.

Alguns meses mais tarde, ouviu dizer que um colega estava contrabandeando droga para dentro do presídio.

Foi falar com o acusado. O funcionário confirmou a prática e acrescentou que já não tinha como sair do tráfico: assim que chegava no trabalho, o maior traficante do pavilhão vinha atrás dele; na saída, o mesmo assédio.

Irani se dispôs a ajudá-lo: daquele dia em diante entraria e sairia junto com o colega, queria ver quem teria coragem de abordá-lo. No intuito de protegê-lo ainda mais, deu um jeito para que trabalhasse no quinto andar do pavilhão, área mais calma por ser menos acessível.

Quando seu Romeu descobriu que o funcionário era escalado todos os dias para a tranquilidade do quinto, ficou bravo:

— Você está dando cobertura para sem-vergonha. Vai se foder junto com ele. Só quero ver se não sobra pra mim.

Irani explicou que estava tentando corrigir o colega, que morava de aluguel e dependia do emprego para manter os cinco filhos. Entendia as dificuldades financeiras do outro, e sentia pena.

Entraram e saíram juntos durante várias semanas, até que uma das manhãs o protegido não apareceu. Pouco mais tarde, chegou a notícia de que um funcionário tinha rodado com droga na sala de Revista. Irani não se deu o trabalho de perguntar quem fora.

À tarde, aos berros de “cadê o Irani?”, seu Romeu quase arrebentou o portão de entrada do pavilhão. Antes que o subalterno pudesse escapar, o chefe já esmurrava a mesa. As condições não estavam propícias para o diálogo:

— Falei que você ia me levar pro buraco, seu filho de uma puta. Por sua causa tive que dar um murro num colega nosso.

Quando seu Romeu chegou à tarde e encontrou o funcionário-traficante detido na sala de Revista, avançou para agredi-lo. O encarregado do setor, responsável pela integridade do detido, tentou contê-lo e levou um soco na cara.

O pai de cinco filhos foi condenado por tráfico. Por ironia do destino, veio cumprir pena no mesmo pavilhão em que havia trabalhado. Irani, entretanto, jamais o perdoou:

— Onde ele entrava eu saía. Nunca mais falei com ele.