Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 10 de 36

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Carcereiros

Zé Montanha

 

Anos mais tarde, Bem Nutrido foi nomeado chefe de um dos pavilhões mais movimentados da cadeia, cargo reservado aos mais experientes.

Num fim de ano, recebeu em sua sala a visita de Zé Montanha, um funcionário dedicado, ex-lutador de luta livre em espetáculos de televisão.

— Chefe, dei uma cana num preso que tinha seiscentos contos enrustidos na meia. É o meu salário de cinco meses.

Meteu a mão no bolso e exibiu o bolo de dinheiro.

— Faz a comunicação e manda para a frente — aconselhou Bem Nutrido.

— Tá louco, chefia? Pôr para a frente, porra nenhuma, vamos dividir meio a meio, já troquei uma ideia com o cara. Tá pela hora.

Bem Nutrido perguntou o nome do contraventor. Quando soube que era determinado traficante do terceiro andar, reagiu:

— Você é que tá louco, meu, esse cara é um tremendo mau-caráter, vai direto contar para o diretor de Disciplina.

Zé Montanha justificou:

— Estou construindo um quarto para mim e meus filhos na casa da minha mãe, preciso comprar blocos de cimento. Se der problema, é tudo no meu peito.

— Se você segura, dá aqui os trezentos. Vou passar o Natal sorridente.

No plantão seguinte, ao passar pela Portaria, Bem Nutrido foi avisado de que o diretor de Disciplina estava a sua procura. A casa tinha caído mais cedo do que esperava.

Na sala do diretor, foi informado de que um de seus funcionários havia ficado com o dinheiro da apreensão. Quando o nome de Zé Montanha foi mencionado, reagiu:

— Não pode ser. Eu orientei esse rapaz como um filho, ele não ia trair minha confiança. Vou falar com ele e volto.

Quando o quase filho entrou na sala da chefia do pavilhão, ouviu uma repreensão que nada tinha de paternal:

— Olha aqui, seu filho da puta do caralho, não te avisei?

O rapaz acalmou-o, insistiu que havia prometido assumir toda a responsabilidade e assim o faria.

Bem Nutrido voltou para conversar com o diretor de Disciplina:

— Estou amargurado. Nem posso acreditar. O que vamos fazer com o Zé, esse ingrato?

O diretor hesitou, não é agradável punir colegas. Se levasse o caso adiante, o funcionário poderia ser demitido a bem do serviço público. Além disso, gostava dele, era um bom guarda de presídio que passava por um drama familiar.

A solução foi dada pelo próprio Bem Nutrido:

— Alguma punição tem que ter, senão vira a casa da mãe joana. Por que o senhor não transfere ele para o pavilhão Oito? Ninguém gosta de trabalhar com os reincidentes, no fundão da cadeia.

Quando soube da decisão, Zé Montanha reagiu:

— Porra, no Oito, chefia?

— Meu, em rio de piranha jacaré nada de costas. Deixa passar uns dois meses, na manha, que eu te trago de volta.

Pesados os prós e os contras, Bem Nutrido acha que o incidente foi bem resolvido. No caso de encontrar dinheiro em posse de um preso, o regulamento mandava levar o caso ao diretor-geral, que deveria encaminhá-lo à delegacia mais próxima para lavrar o flagrante de apreensão. Zé Montanha seria forçado a deixar o trabalho, perder horas até prestar depoimento e entregar o dinheiro para ser recolhido ao Tesouro Estadual, destino final altamente improvável, em sua opinião.

Além do mais, o colega atravessava um momento difícil. Havia descoberto que a mulher se encontrava com um vizinho nas noites em que ele trabalhava como segurança de uma empresa. Separado, voltou para a casa da mãe; não tinha condições financeiras para pagar a pensão alimentícia e ainda enfrentar as despesas de outra casa. A ex-mulher ficou com os filhos e com a pensão descontada diretamente na folha de pagamento do ex-marido.

Meses mais tarde, ela apareceu na casa da sogra com as crianças e uma mala de roupas. Queria viver com o namorado, sem a obrigação de cuidar delas. Daí vinha a necessidade da compra dos blocos para construir mais um quarto.

Mesmo livre dos filhos, a ex-mulher continuou a receber o dinheiro. Obrigado a sacar o salário já no dia do pagamento, ele ficava mortificado ao encontrá-la com o namorado na fila do banco para retirar a parte que lhe cabia.

A situação foi resolvida por um advogado, irmão de um funcionário da Penitenciária do Estado, que se dispôs a fazer gratuitamente uma petição para o juiz cassar o direito à pensão alimentícia, uma vez que o pai era o responsável pela guarda das crianças.

Quando a sentença saiu, Zé Montanha fez questão de esperar num bar em frente ao banco a chegada do casal. Quando entraram na fila, ele atravessou a rua e aguardou até o caixa lhes dar a notícia de que nada tinham a receber.

Então, chegou bem perto dos dois:

— Vão se foder, seus vagabundos. Agora, quando quiserem dinheiro, vão ter que trabalhar.

Zé Montanha casou novamente. Num sábado, voltava de um aniversário com a esposa quando a Brasília que dirigia foi abalroada por trás, por um motorista embriagado. A batida foi insignificante, mas, ao descerem para verificar o estrago, o bêbado, talvez assustado com o tamanho do oponente, disparou três tiros em seu peito, sem lhe dar tempo para reagir.