Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 26 de 36

Páginas do PDF

Carcereiros

Valdemar Gonçalves

 

A barba branca que chega ao peito em meio às correntes grossas com o crucifixo e o busto de prata de um guru barbudo como ele é o que antes de tudo chama a atenção na figura de Valdemar.

O pai, um negro de estatura média, lixeiro no entreposto da prefeitura em frente ao Mercado Municipal, nasceu no interior de São Paulo, onde conheceu a esposa, com quem teve seis filhos. Ela, branca, não obstante conhecida como dona Mulata, enérgica com as crianças e ordeira com a casa no Chora Menino, exerceu forte influência na formação de Valdemar e do irmão mais velho, Eurico, os únicos que permaneceram solteiros.

Aos oito anos Valdemar já entregava marmita para os operários da fábrica de máquinas Santa Terezinha, na zona norte. Aos dez começou a trabalhar com um sapateiro do bairro, com quem aprendeu o ofício exercido nos quatro anos seguintes. Daí em diante foi office boy numa firma do centro, encarregado de preparar e servir café num escritório da praça Dom José Gaspar e vendedor de autopeças na Barão de Limeira, emprego que manteve por mais de dez anos apesar do salário baixo, porque os pais não podiam prescindir de sua ajuda. Hoje, afirma com orgulho que jamais foi demitido de um emprego.

Em 1974 perdeu o pai. Três anos mais tarde, a mãe. Os dois irmãos solteiros ficaram na casa, com o quintal cheio de galinhas, patos, pássaros, coelhos e outros animais de estimação que ocupavam o tempo e faziam a alegria de Eurico, falecido há dois anos.

Se a mãe não tivesse morrido, ele jamais teria feito o concurso para agente penitenciário, em 1985:

— Ela não admitiria que um filho passasse a vida no meio de bandido, mas eu sempre sonhei com a carreira de servidor público.

Ao contrário dos colegas, quase sempre admitidos na juventude, Valdemar tinha 39 anos quando foi designado para a função de carcereiro no pavilhão Oito. Quando cheguei na Detenção, em 1989, ele já não trabalhava na Carceragem, era encarregado do Departamento de Esportes.

Uma vez, ouviu dizer que um ladrão de carga de nome Messias estava prestes a matar um companheiro recém-chegado no pavilhão vizinho. Valdemar subiu para o xadrez do ladrão no terceiro andar:

— É verdade o que me contaram?

— Esse pilantra é Ricardão, seu Valdemar, saiu com a minha mulher sabendo que eu estava na cadeia.

— Quanto tempo falta para cantar sua liberdade?

— Menos de um ano.

— Faz o seguinte: vai lá e mete a faca nele. Depois passa na minha sala para contar se valeu a pena.

No fim do dia Messias apareceu:

— Vim agradecer o senhor. Eu ia atrasar a minha vida.

Para preparar os eventos esportivos que mantinham a malandragem entretida, contava com a colaboração da “turma do Esportes”, formada por presos eleitos pelos companheiros de cada pavilhão, grupo coeso que só perdia em poder para a Faxina, mais numerosa e organizada. A tarefa maior do pessoal do Esportes era coordenar o campeonato interno de futebol, competição renhida da qual emergia a seleção da Casa, que disputava partidas sensacionais com os times de várzea que Valdemar trazia, às sextas-feiras.

Invariavelmente, tais campeonatos eram precedidos pela elaboração do regulamento, que, uma vez aprovado, virava bíblia. O popular “tapetão”, quebra de regras rotineira entre os cartolas dos clubes de futebol profissional, era desconhecido naquele ambiente. As reuniões aconteciam na sala de Valdemar, sob o olhar lânguido das mulheres nuas coladas na parede e a vigilância piedosa de Nossa Senhora Aparecida com o manto azul, São Jorge destemido no cavalo empinado com a lança e o dragão, Jesus Cristo de coração exposto, Zé Pelintra, Pombajira, Oxóssi e outras divindades umbandistas que se acotovelavam no altarzinho em cima do armário, ornamentado com guirlandas de flores artificiais.

A tabela do campeonato envolvia discussões acaloradas:

— Então, é o seguinte, meu: os quatro primeiros vão para as semifinais; os vencedores disputam a finalíssima.

— Decidir num jogo só favorece a sorte. Mais justo é melhor de três.

— Três é muito jogo, tira a emoção. Além do que demais, o último prélio cairia na sexta-feira do Dia das Mães; os mano vão querer dar uma geral no barraco para receber as visitas com dignidade e consideração.

Ouvi esses diálogos numa das tardes em que passei por sua sala antes de me dirigir à enfermaria do pavilhão Quatro para o atendimento. Ao sair, ele se aproximou e disse em voz baixa:

— Tem um senhor preso no pavilhão Dois que passou mal à noite. No fim do dia a gente não poderia dar uma olhada nele? Não é bom que ele fique andando por aí.

Depois de ver o último doente na enfermaria, voltei à sala de Valdemar. Ao mesmo tempo chegou um dos detentos que participara da organização da tabela do campeonato, no início da tarde. Tinha uma reclamação a fazer:

— Quando voltei para o Sete, os companheiros acharam que nós vamos ficar no prejuízo, porque todo mundo tem dois jogos em dias seguidos, enquanto o pessoal do Dois não. É vantagem para eles.

Valdemar tirou uma tabela do bolso:

— São sete pavilhões, número ímpar, um deles tem que levar essa vantagem. Escolhi o Dois porque só tem trezentos presos, muito menos do que os outros, logo com mais dificuldade de formar um time como o do Oito, que tem 1600, e mesmo como o de vocês, do Sete, com oitocentos.

— Entendi — respondeu o rapaz. — Vou explicar para os companheiros.

Deu alguns passos na direção da porta e parou:

— O senhor é firmeza, seu Valdemar. Procura sempre agir certo com nós. Se tivesse conhecido um homem como o senhor quando eu era criança, quem sabe não tinha entrado nessa vida.

Era noite quando atravessamos a galeria do segundo andar do Dois. A cela era ampla; em seu interior, dois homens conferiam contas numa mesinha coberta de papéis, um travesti de calça justa e umbigo de fora preparava no fogareiro um chá para um senhor de cabelos brancos com olheiras fundas recostado num dos beliches do fundo do xadrez. Antes de servi-lo, o travesti derrubou o conteúdo de uma colherinha do chá nas costas da mão para testar a temperatura.

Era um caso de sinusite num homem com pressão alta. Tinha febre e tossia muito, especialmente quando deitava; nas duas noites anteriores mal conseguira cochilar alguns minutos.

Receitei cortisona, um antibiótico, e fomos embora. Quando saímos do pavilhão, perguntei quem era o personagem. Valdemar confidenciou que se tratava de gente importante: proprietário de diversas bancas de jogo de bicho na zona sul e controlador de máquinas eletrônicas, entre outras contravenções, condenado a cinco anos pela suposta ordem para matar um concorrente. Duvidava que o homem cumprisse a pena até o fim, tinha bons advogados.

Na semana seguinte voltamos para vê-lo. Era outra pessoa: sorridente, animado, com os olhos azuis cheios de brilho ao falar da escola de samba que presidia. Insistiu muito para que a visitássemos em dia de ensaio, seríamos recebidos com fidalguia por seu preposto, Juvenal, encarregado de administrar os negócios na ausência do patrão.

A quadra estava lotada de mulheres, homens e correria de crianças. Não fosse o ar inquisidor do segurança de terno preto que nos encheu de perguntas na entrada, a acolhida teria sido impecável, conforme a promessa. Fomos conduzidos à tribuna de honra, na parte central, construída a dois metros e meio do chão, com a escada de acesso guardada por dois brutamontes postados em posição de sentido no primeiro degrau. A bateria ensurdecedora ensaiava sob o comando do apito do diretor magrinho e compenetrado.

Na tribuna, Juvenal estava sentado no centro de uma mesa comprida atapetada de latas de cerveja, entre homens e mulheres da diretoria que berravam a plenos pulmões para se fazer ouvir. À direita dele, duas cadeiras vazias reservadas para Valdemar e para mim; à esquerda, outras três, nas quais sentaram o enfermeiro Paulo Preto e os autores do gibi O Vira-Lata, que distribuíamos na cadeia como parte de um programa de prevenção à aids: o músico Paulo Garfunkel e o ilustrador Líbero Malavoglia. Aos pés de Juvenal, uma bolsa preta cheia de zíperes abertos da qual ele não desgrudava os olhos.

A tensão em seu rosto era indisfarçável; o olhar ligeiro percorria os quatro cantos da quadra. Impossível não lembrar dos filmes em que os gângsteres e seus convidados caem sob as rajadas de metralhadora dos rivais que surgem ninguém sabe de onde.

A expressão do chefe só desanuviou quando dois homens vindos de lados opostos lhe fizeram um sinal de o.k.

Quase ao mesmo tempo a madrinha de bateria entrou, fez reverência aos presentes e começou a dançar. Era uma figura esguia, de salto alto e vestido curto, que mais parecia uma deusa de pele escura a flutuar sinuosa em harmonia com o som da percussão. Seu sorriso iluminava a quadra inteira.

Paulo Garfunkel se aproximou de meu ouvido:

— O tal de Hitler era um débil mental. Raça superior, aquelas alemoas branquelas?

Quando a escola saiu para um giro pelas ruas do bairro, vieram dois garçons com pratos de mortadela cortada em cubos, provolone, calabresa acebolada, torresmo e mais cerveja, é lógico.

Aproveitei o silêncio para perguntar a Juvenal:

— Que idade você tem?

— Trinta e três, mas não quero morrer crucificado.

— Imaginei que fosse mais velho. Quantos homens você comanda?

Ele fechou a cara. Expliquei que podia confiar, trabalhava no Carandiru havia muitos anos e nunca delatara ninguém.

— São mais de quatrocentos empregos diretos. Se for contar os indiretos, passa de 1200.

— Como um rapaz da sua idade consegue chefiar tanta gente?

— Eu dou para os meus homens aquilo que o ser humano mais gosta.

Eu sorri, ele continuou:

— Não é dinheiro nem sexo, é a oportunidade para falar de si mesmo. Tenho paciência para escutar o que cada um tem a dizer.

Dois ou três meses mais tarde, encontrei Valdemar na sala tirando o pó das imagens do altar.

— Pedindo perdão pelos pecados do sábado?

— Fim de semana bravo, doutor. Ganhei uma cachaça aveludada, de um alambique de Minas. Ó, problema sério, me ajudou a esfriar os pensamentos.

— E o que esquentou sua cabeça?

Ele fechou a porta e voltou com uma fisionomia desconhecida.

— Você tem dez minutos para uma conversa sigilosa que um homem só pode ter com um amigo de verdade?

Havia recebido uma proposta para levar cinco quilos de cocaína para dentro da cadeia, a título de pagamento para três presos arregimentados com a finalidade de matar o bicheiro que tínhamos atendido no pavilhão Dois. Em troca lhe dariam uma bmw no valor de 80 mil dólares.

Estranhei pagarem tanto, quando arranjariam com facilidade quem executasse o serviço por 10% desse valor. O interlocutor explicara que preferiam gastar mais com um funcionário que não despertaria suspeita ao passar pela Revista, e que honraria a palavra, a correr o risco de que algum mau-caráter desse com a língua nos dentes, abortasse o plano e pusesse todos em perigo.

Ele argumentou que em mais de vinte anos de funcionalismo jamais havia feito algo errado. O interlocutor quis saber o que ganhara com a honestidade, uma casa velha herdada dos pais e as galinhas do quintal?

— E você perdeu o sono? — perguntei.

— Se vender o carro, recebo 240 mil reais. Ganho 2 mil por mês. São 120 salários: dez anos de trabalho.

— Mas está vivo e dorme tranquilo. Se por qualquer razão o plano der errado, a chance de morrer não é pequena.

Em seguida, ele alinhou as estratégias que poderia empregar para passar pela Revista com os cinco quilos. Pelo visto, tinha avaliado todas as possibilidades.

Bateram na porta. Quando dois funcionários entraram atrás de um jogo de camisas de futebol, fui para o atendimento no pavilhão Quatro, mas passei a tarde preocupado. No fim do dia fui procurá-lo:

— E aí, Valdemar?

— Vou me fingir de morto. Nasci para ser pobre.

Lembrei-me de uma citação de Machado de Assis modificada por Luizão:

— A ocasião faz o roubo, o ladrão já vem feito.