Carcereiros
A festa
O corpo nu jazia no chão do banheiro, no térreo do pavilhão Quatro. Parecia pintado de vermelho, tal a quantidade de sangue espalhado pelo tronco e pelo rosto. A cabeça pendia desengonçada para a esquerda, o peito e o tórax tinham mais de trinta perfurações.
Quando fui examinar as costas, entendi por que a cabeça estava deslocada: um corte profundo vinha da região occipital para a frente e para baixo, na direção do esterno, dilacerava a musculatura cervical e expunha a base do crânio e a parede lateral da traqueia.
Era evidente que um golpe daqueles só poderia ter sido desfechado com o homem já inerte.
— Quanta perversidade — comentei com o funcionário que me acompanhava naquela verificação de óbito sumária que éramos obrigados a documentar, antes do encaminhamento do corpo para autópsia no Instituto Médico Legal.
— É a marca do Partido — respondeu ele. — Essa gente ainda vai causar muita dor de cabeça. Depois de matar os inimigos, dão essa facada de misericórdia para que todos reconheçam a autoria.
Não lembro se estávamos em 1994 ou 1995 — nas cadeias, é fácil perder a contagem do tempo —, mas foi naquela segunda-feira que ouvi falar pela primeira vez da facção que assumiria o poder na maioria das prisões de São Paulo.
Depois de resumir numa ficha os ferimentos perfurocortantes encontrados no corpo, subi para continuar o atendimento na enfermaria. Entretido com os problemas dos doentes, a imagem do rapaz esfaqueado ficou em segundo plano.
Naquele dia, tinha prometido a minha mulher que chegaria mais cedo, a tempo de irmos sem correria ao jantar de aniversário de um amigo. O compromisso me deixou mal-humorado diante do número de pacientes que se enfileiravam à minha espera.
É preciso determinação psicológica para passar muitas horas examinando doentes. O que a pessoa enferma espera do médico não é apenas uma folha de receituário com os medicamentos prescritos, mas demonstrações inequívocas de que está diante de um profissional seguro, competente, compreensivo e solidário, empenhado em resolver seu caso e em ouvi-la sem nenhuma preocupação com o relógio, como se naquele momento não existisse ninguém mais importante no mundo.
Expectativas tão abrangentes são fáceis de frustrar: a menor distração, uma palavra mal-entendida, o ar de cansaço, a desqualificação de uma queixa irrelevante, qualquer manifestação de impaciência ou de pressa em encerrar a consulta são suficientes para destruir a confiança no profissional.
Levando em conta que na sociedade existem pessoas excessivamente prolixas, hipocondríacas, egocêntricas, manipuladoras, chantagistas, mentirosas, antipáticas, prepotentes e com outras características de personalidade que tumultuam os relacionamentos interpessoais, imaginar que seja possível dedicar a mesma atenção a todos e estabelecer indistintamente o mesmo grau de empatia é idealizar a natureza humana. Nem Jesus de volta à Terra seria capaz de tamanha generosidade aleatória.
Além de sofrer essas restrições impostas por idiossincrasias individuais, o trabalho exige determinação e energia para consolar e motivar pessoas fragilizadas, na tentativa de convencê-las a enfrentar a adversidade com persistência e otimismo.
Há tarefas que conseguimos executar com eficiência enquanto deprimidos, pessimistas, entediados, revoltados, impacientes e até com ódio da humanidade; as do médico, não. A doença tem o dom de trazer a sensibilidade para a flor da pele. Os doentes estão sempre a perscrutar o que nos vai no espírito, não descuidam de um gesto, não desviam seus olhos dos nossos, o menor deslize ou intenção oculta captada subjetivamente pode pôr a perder tudo o que porventura fizermos.
No meu caso existe outra limitação: ao contrário de colegas mais tolerantes, fico aflito com gente à minha espera, comportamento que se agravou com a idade. Nessa situação, por mais que me esforce, não consigo relaxar. Na clínica particular é mais fácil contornar esse inconveniente: basta organizar as consultas com hora marcada; mas, com a falta de médicos dispostos a trabalhar nas cadeias, a demanda é enorme, em minutos formam-se filas com dezenas de pessoas. Quando o médico chega, já há vinte pacientes; atendido o vigésimo, terão aparecido mais dezoito, que, ao ir embora, deixarão outros quinze em seus lugares. Em sete horas de trabalho no Amarelo, uma vez cheguei a consultar 62 presos.
Essa medicina de guerra tem seus encantos, que talvez sejam semelhantes aos das partidas simultâneas em que o enxadrista precisa analisar diversos tabuleiros ao mesmo tempo e decidir contra o relógio, sem perder a precisão ao movimentar as peças. Exige a um só tempo formação teórica, experiência e agilidade no exercício da clínica para chegar ao diagnóstico em minutos, sem exames laboratoriais nem imagens, e escolher na cesta básica de medicamentos disponíveis aqueles com mais chance de resolver o problema. Nessa gincana, os acertos exaltam o ego profissional; os erros causam decepções e sentimento de culpa.
Para complicar, o cansaço mental provocado pelo atendimento interminável embota o raciocínio, esgota a disposição para ouvir o outro e aumenta a probabilidade de conclusões precipitadas.
Naquele começo de noite, dividido entre a fila e a festa, eu tinha uma justificativa a mais para me revoltar: “Só um idiota para ficar nesse inferno, fazendo a mulher esperar e deixando de encontrar os amigos, para atender esse bando de gente. Quantos deles me assaltariam na rua?”. Apesar de estar convencido de que não cabe ao médico julgar crimes e contravenções, prerrogativa exclusiva dos juízes, impossível impedir que tal pensamento conturbasse minha relação com os pacientes naquelas circunstâncias.
Às tantas, perdi a calma:
— Chega. Já é abuso, não sou o único médico da Casa.
Torvão, um preso que me auxiliava na enfermaria, condenado a 22 anos por chefiar uma quadrilha especializada em assaltos a carros-fortes, dono de um físico miúdo, de uma onça em posição de ataque tatuada no antebraço e de uma inesperada voz tonitruante, vociferou:
— Alguém aqui está tão doente que não pode esperar até amanhã?
Da fila que não parava de crescer sobrou apenas um rapaz com tuberculose, doença endêmica que seguia no rastro da epidemia de aids.
Depois de atendê-lo, reclamei:
— Torvão, assim não dá, atendi mais de quarenta pessoas. Quantos mais viriam?
— Não lhe tiro a razão, mas o senhor é o próprio culpado de si mesmo. Tem mania de examinar todo mundo, até gente que não vale o ar que respira.
Em casa mal tive tempo para o banho, no decorrer do qual a imagem do rapaz assassinado retornou nítida. Quanta desumanidade e covardia. Que mundo mais filho da puta aquele; fica impregnado na gente.
Quando chegamos, o jantar estava para ser servido. Embalados pelo vinho, todos conversavam e riam. Fiquei tão calado que minha mulher perguntou se estava indisposto. Faltou coragem para dizer que me sentia desambientado, sem nenhum interesse no chef idealizador do melhor carpaccio da cidade nem disposição para discutir o campeonato paulista ou falar das pechinchas nas lojas de Nova York. Minha imaginação continuava no mundo do crime, no corpo jogado no banheiro, na fisionomia daqueles infelizes na fila da enfermaria e no nascimento de uma facção criminosa que se impunha pela degola, temas mais do que impróprios para ocasiões festivas.
O mau humor no final do atendimento e a pressa para chegar em casa deram lugar a uma sensação de alheamento, no aniversário. No entanto, estava entre pessoas amáveis, que ainda assim demonstravam prazer em desfrutar de minha insuportável companhia. Difícil fugir da culpa pela inadequação: na cadeia, louco para ir embora; na festa, aborrecido e inconformado com a superficialidade das relações sociais.
Essa ambiguidade me persegue desde que pus os pés num presídio pela primeira vez. São incontáveis as ocasiões em que as imagens do cárcere invadem o cenário onde me encontro, como se fizessem parte de uma realidade virtual que se intromete em paralelo nos momentos mais insólitos.
Uma paciente que sofria de dores só controladas com doses altas de morfina contou que subitamente surgiam diante dela figuras de pessoas do passado e paisagens da infância havia muito esquecidas, que relampejavam e desapareciam. Muitas vezes, tenho a mesma impressão sem ter tomado morfina.
Deitar entre lençóis limpos de uma cama confortável ao lado da mulher amada e lembrar de um xadrez lotado com gente dormindo no chão traz o conforto de experimentar um privilégio, mas ser importunado pelo ar de desespero de um homem mortalmente ferido que surge não sei de onde, enquanto conto histórias para meus netos, é perturbador.
Depois de 23 anos frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não me tivesse trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixado de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.
Compartilhar esse universo com aqueles que dele não fazem parte é inútil. Podemos contar casos e comentar certos acontecimentos, mas aconselhar-nos, expor dilemas, contradições, perplexidades e as angústias que nos afligem na convivência com os detentos só tem sentido quando o interlocutor conhece o meio em que vivem os criminosos e as leis que regem as prisões. Sem o domínio dos mesmos códigos, não há diálogo possível.
Estranho ter consciência de que uma parte de sua experiência, logo a de maior conteúdo dramático, precisa ser mantida em segredo para não contaminar as relações com pessoas íntimas avessas ao mundo da marginalidade. De alguma forma, sinto que me tornei mais solitário.
Imagino que os carcereiros se ressintam da mesma inadequação social, com a agravante de que vivem muito mais tempo cercados pelas muralhas, correndo risco de morte, dia após dia, um ano depois do outro, ao contrário do médico, que dedica um único período por semana a um trabalho voluntário bem mais seguro, porque os presos o consideram essencial à sobrevivência do grupo. Com a intenção de poupar amigos e familiares do contato com a brutalidade do cotidiano no cárcere e para evitar mal-entendidos e incompreensões geradas pela natureza do trabalho que realizam, eles também guardam para si as experiências traumáticas que viveram.
Apesar de assimétrica, essa é a realidade que nos aproxima. Nascemos em bairros de operários, mas graças à obstinação de meu pai cheguei à universidade; eles não tiveram a mesma sorte. Frequento ambientes e me relaciono com pessoas inacessíveis a eles, vivo com mais liberdade financeira, viajo por lugares com os quais sequer podem sonhar, mas na mesa de um bar essas diferenças perdem significado diante da solidariedade, da compreensão mútua, da disposição para amparar o companheiro em dificuldade e da aceitação sem julgamento dos defeitos e dos erros cometidos por todos nós.
Oito anos atrás fui hospitalizado com febre amarela, doença com alta letalidade. Todos se mobilizaram para me ajudar na fase mais dura, Araújo fez promessa para acender vela na igreja de São Judas Tadeu assim que eu recebesse alta. Valdemar, naquela época exagerado na bebida, prometeu permanecer em abstinência pelo tempo que os médicos me recomendassem ficar longe dela. Passou um ano sem provar uma gota de cachaça nem reclamar da sorte:
— Cheguei até a esquecer do gosto.
Em nossos primeiros encontros depois do trabalho na Detenção, era visível a preocupação para evitar determinados comentários em minha presença, sobretudo os que envolviam violência contra os presos e dinheiro recebido indevidamente. As conversas se limitavam aos problemas pessoais, às aventuras amorosas e aos relatos das histórias dos personagens com quem conviviam.
A implosão do Carandiru foi um marco na vida de todos nós, mas especialmente na deles. O mundo onde viviam desabou no instante em que as paredes vieram abaixo. A violência, a corrupção miúda em troca de pequenos favorecimentos, as mortes que presenciaram sem poder impedir, as atitudes covardes, o valor da palavra, os atos de heroísmo em defesa dos companheiros e dos sentenciados, o bem e o mal de mãos dadas, soterrados nos escombros do Casarão, ressuscitam como fantasmas em nossos encontros.
Esses homens foram contratados numa época em que bater nos presos malcomportados era política institucional consentida pela sociedade, não receberam treinamento nem tinham preparo para tomar conta daqueles que queremos ver atrás das grades, sem nos importarmos com a precariedade dos espaços nos quais serão encarcerados. Atirados num ambiente dominado pelos piores instintos humanos, em contato direto com a violência, com salários insuficientes para sustentar a família, em condições de trabalho quase medievais e a vida em risco permanente, cada um procurou agir da forma que lhe pareceu mais sensata.
RENATO PARADA
drauzio varella nasceu em São Paulo, em 1943. Form ado em m edicina pela USP, trabalhou por vinte anos no Hospital do Câncer. Foi voluntário na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru) por treze anos e hoj e atende na Penitenciária Fem inina da Capital. Seu livro Estação Carandiru (1999) ganhou os prêm ios Jabuti de Reportagem e Livro do Ano de Não Ficção. Pela Com panhia das Letras, publicou ainda Por um fio (2004) e O médico doente (2007), entre outros títulos. É autor tam bém de Macacos (Publifolha, 2000) e de Cabeça do cachorro (TerraBrasil, 2008), este últim o em parceria com o fotógrafo Araquém Alcântara. Desde 1995, dirige um proj eto prospectivo de plantas m edicinais am azônicas. “Depois de 23 anos frequentando cadeias, não faz sentido especular com o eu seria sem ter vivido essa experiência; o hom em é o conj unto dos acontecim entos arm azenados em sua m em ória e daqueles que relegou ao esquecim ento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria m ais ingênuo e m ais sim plório. A m aturidade talvez não m e tivesse trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o m al existe um a zona cinzenta sem elhante àquela que separa os bons dos m aus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria m uito m enos m eu país e as grandezas e m esquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido m enos m edicina, perdido as dem onstrações de solidariedade a que assisti, deixado de ver a que níveis pode chegar o sofrim ento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o m ais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria um a ideia m uito m ais rasa da com plexidade da alm a hum ana.”
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Capa
Retina78
Imagem de capa
Casa de Detenção do Carandiru, Pavilhão 5, 22 de m aio de 1974.
© Alfredo Rizzutti/ Agência Estado
Todos os esforços foram realizados para identificar o fotografado.
Como isso não foi possível, teremos prazer em creditá-lo, caso se manifeste.
Preparação
Márcia Copola
Revisão
Ana Maria Barbosa
Viviane T. Mendes
ISBN 978-85-8086-460-1
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Table of Contents
Sumário
Um dia trágico
Carcereiros
José Araújo
Questão de princípios
Carcereiros do passado
Os delatores
A batalha do conhaque
Hulk
Bem Nutrido
Zé Montanha
Irani Moreira
A negociação
A faca afiada
O submundo
O Empreiteiro de Cristo
Luiz Wolfmann, o Luizão
Solidariedade
A mulher
Shirley, o estelionatário e seu Silva
A cachaça
Sombra
O inferno de Joyce
A tortura
Violência contagiosa
Na sala de Revista
Valdemar Gonçalves
Guilherme Rodrigues
Negociador nato
Dinheiro falso
O palco do Chiquinho
O túnel
A implosão
Fábricas de ladrões
Fuga sangrenta
Amauri Bonilha
A festa
Você terminou Carcereiros
Drauzio Varella
Livros como este
Depois do livro
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