Carcereiros
A batalha do conhaque
O caso que se passou com Irani e Florisval, dois funcionários do antigo Carandiru, que serão personagens de outras histórias deste livro, é ilustrativo.
Ao cruzar no pátio interno do pavilhão com o preso de baixa estatura que mancava da perna esquerda, torta e bem mais curta, Irani pôs em prática a operação ensaiada: olhou para a direita, enquanto o outro virava a cabeça para o lado oposto.
Sem esboçar movimento nos lábios, o baixinho murmurou quase inaudível:
— Trinta litros de Dreher no terceiro andar.
Irani, chefe do pavilhão, ficou surpreso: como teriam passado pela revista tantas garrafas? Parecia inverossímil, mas levou a história em conta porque o informante já dera várias provas de lealdade.
No fim do plantão, decidiu transmitir a notícia a Florisval, diretor de Disciplina da Casa. Os dois concluíram tratar-se de audácia inaceitável contrabandear tantos litros de bebida para dentro da cadeia, e programaram uma blitz para a manhã seguinte.
Logo cedo, Florisval chegou de óculos escuros no pavilhão para organizar a busca. Enquanto os carcereiros escalados vasculhavam os xadrezes do terceiro andar, os dois sentaram na sala de Administração.
Não tardou para que um detento se aproximasse do balcão à frente deles:
— Com a permissão de suas senhorias, posso relatar uma pequena reivindicação que se passa comigo?
Era Paulão da Vila, um preso de bom comportamento encarregado do café na copa dos funcionários. Comprido e desajeitado, sua magreza franciscana contrastava com o físico compacto dos outros dois, fortes como touros. Pedia autorização para receber no sábado a visita da mãe, que viria de Presidente Prudente, no oeste do estado, de carona com um vizinho.
Embora Irani devesse favores a Paulão pela atenção com o café e por informações prestadas em algumas oportunidades, ele argumentou que o dia de visita era domingo e que, se abrisse exceção, não poderia negar pedidos de outros. O rapaz retrucou que estava há um ano sem ver a progenitora, senhora de idade sem dinheiro nem saúde para viajar mais de quinhentos quilômetros de ônibus, sozinha, até a capital.
A conversa foi interrompida por um tropel vindo da escadaria do pavilhão. Em segundos, mais de trinta presos com os rostos cobertos por máscaras de ninja, armados com facões e estiletes, pararam na entrada. À frente, o líder, que vestia a camisa do São Paulo e era o único com a cara à mostra, foi direto ao assunto:
— Esse X-9 que entregou os Dreher vai morrer agora.
Antes que os dois funcionários tivessem tempo de reagir ao susto, Paulão da Vila voou por cima das mesas e saltou o balcão sem o apoio das mãos, em busca de refúgio na salinha da diretoria, contígua. Irani e Florisval se apressaram atrás dele, com o intuito de entrar e trancar a porta, proeza que conseguiram realizar com muito esforço.
Encurralados na salinha, os três jogaram o corpo contra a porta para deter os inimigos que tentavam arrombar a fechadura a pontapés. De quando em quando as investidas eram interrompidas para que o são-paulino avisasse:
— Nosso problema não é com os senhores, é com o magrelo dedo-duro. Entrega ele para nós, que já era.
Na tentativa de contê-los, Florisval gritava: “Calma, meninos, calma, meninos”, frase que seria lembrada durante anos pelos colegas quando queriam provocá-lo.
Depois de várias tentativas frustradas de estourar a fechadura, um dos justiceiros decidiu descarregar o ódio assassino contra a porta, que, infelizmente, era de compensado. A fragilidade do material foi incapaz de resistir à passagem da lâmina afiada que a trespassou até chegar ao cabo.
A primeira facada foi seguida de muitas outras. Na sala, a situação se agravou: impedir o arrombamento exigia firmar os pés no chão para jogar o peso do tronco e a força dos braços contra a porta e ao mesmo tempo desviar-se das facadas que atravessavam o compensado como se fosse de papelão.
A desigualdade da luta demandava esforço extremo. Aos gritos de “força” e “vamos lá”, cada um procurava incentivar os outros dois. Desesperado, Paulão implorava que não desistissem, estava para morrer.
— E nós, não, malandro? — perguntou Irani.
Com a voz embargada pelo esforço físico, Florisval insistia no “calma, meninos”.
Calma era justamente o que faltava aos meninos decididos a matar a pessoa errada. Aos gritos de “vai morrer”, arremessavam-se em bloco contra o compensado, que naquela altura mais parecia um paliteiro com lascas que esvoaçavam para todo lado. Quando conseguiram arrebentar a fechadura e abrir um vão no batente, Irani mudou perigosamente a posição do corpo e levou uma facada no ombro. O bisel afiado penetrou fundo logo abaixo da clavícula.
Em vez de intimidar os três, o sangue que jorrou lhes deu mais energia. Enquanto os funcionários executavam o malabarismo de bloquear a entrada e se desviar das lâminas, Paulão conseguiu arrastar uma escrivaninha pesada até a porta. O expediente permitiu que se afastassem da zona de maior perigo, mas o alívio durou pouco, porque o compensado começou a rachar verticalmente de cima para baixo. Não havia mais como se aproximar do batente sem correr risco de morte. A resistência chegava ao fim.
Paulão tremia como vara verde contra a escrivaninha. Irani perguntou a Florisval como fariam quando a multidão invadisse a sala, mas a resposta do diretor de Disciplina não lhe trouxe otimismo:
— Não faço a menor ideia.
Parecia tudo perdido, quando uma voz conhecida entrou pela janela que dava no pátio interno:
— Seu Florisval, pega o ferro aqui.
O diretor de Disciplina largou a escrivaninha, trepou numa cadeira e alcançou o revólver que o colega lhe passava através das grades da janela, que ficava no alto da sala.
Ao voltar à posição de origem, já não tinha o tom conciliador. Em vez do “calma, meninos” repetido à exaustão, gritou o mais alto que pôde:
— Agora quero ver quem é homem, seus covardes filhos da puta.
O tiro ecoou seco, atravessou a rachadura e arrancou reboque do teto do lado oposto.
Não houve necessidade de disparar o segundo, a malta debandou desabalada na direção da escadaria.
Os três saíram da sala. Não havia um detento sequer nas imediações, apenas o colega que fora atrás do revólver e um grupo de agentes penitenciários que chegava para ajudar.
O preso que escapara da morte foi levado com pressa para lugar seguro. Irani sentou numa cadeira, enquanto os companheiros procuravam estancar o sangue que escorria do ferimento. Estava pálido, mas aparentemente tranquilo, ao contrário de Florisval, que, ao ver o amigo tão ensanguentado, perdeu a cabeça:
— Quero aqui o cara que armou. Aquele são-paulino folgado que veio com a cara descoberta.
Três homens subiram para buscá-lo. Os degraus estavam atapetados de havaianas que os rebelados perderam na correria.
Trazido à presença do diretor, o líder do ataque cometeu a imprudência de perguntar com sorriso insolente:
— Algum problema, chefia?
Branco de ódio, Florisval avançou contra ele aos socos e pontapés. Em seguida pulou no pescoço do rapaz, que foi ao chão. Primeiro aos gritos, depois com o emprego da força, os funcionários ali presentes lutaram para demovê-lo da intenção de estrangular o inimigo.
Para retirá-lo de cima do outro, que já estava com o rosto cianótico, foram necessários quatro homens. Tinha a camisa ensopada e o rosto lavado de suor. Assim que se acalmou, mandou tirar de sua presença o torcedor do São Paulo e agradeceu a intervenção dos colegas:
— Muito obrigado. Acho que eu ia matar esse cara.