Carcereiros
O submundo
Histórias como essa ouvi às centenas nas mesas em que o Conselho se reúne. Não fossem os compromissos do dia seguinte, seria capaz de passar a noite escutando uma depois da outra.
Sempre que tentei buscar as razões para explicar por que um homem da minha idade, criado por um pai que deu exemplo e transmitiu aos filhos princípios rígidos de caráter, honestidade e respeito aos direitos do próximo, tem tamanho fascínio pelo mundo do crime, saí de mãos vazias.
Hoje, aceito esse interesse como um traço de personalidade, sem me preocupar com questionamentos morais nem psicanalíticos, mas, aos doze anos de idade, a atração pelo universo dos que viviam em desacordo com os valores que me eram ensinados em casa aumentava em mim a perplexidade que permeia a transição da puberdade para a adolescência.
Nessa época, morávamos num sobrado na Vila Mariana. Meu pai tinha dois empregos, saía cedo, retornava para o almoço rápido e emendava o trabalho até meia-noite. Minha madrasta gostava de dormir às nove da noite, horário em que nos obrigava, meus irmãos e eu, a fazer o mesmo.
Quando eu conseguia juntar o suficiente para o bonde, esperava todos dormirem, levantava da cama, vestia a roupa, escalava o parapeito do terraço do quarto de minha irmã, descia pela grade da janela da sala de visitas e ganhava a rua, ágil e silencioso como um gato.
Pegava o bonde para a cidade. Descia na praça João Mendes, cruzava a praça da Sé, seguia pelas ruas Direita, São Bento e atravessava o viaduto Santa Ifigênia, que me levava ao destino final: a Boca do Lixo.
Não ia atrás de sexo — não tinha dinheiro nem coragem para tanto —, era o ambiente devasso que me atraía: as mulheres de batom vermelho e saia justa encostadas nos postes e nas portas das casas, as idas e vindas da clientela, os cafetões de terno de linho branco, os bares barulhentos e esfumaçados, os boleros e as guarânias dos rádios, o carro de polícia que passava com a sirene ligada, os homens de unha esmaltada em volta das mesas de bilhar, as brigas das mulheres, que se agarravam pelos cabelos até que uma boa alma se dignasse a apartá-las.
Andava pelas calçadas colado ao meio-fio, para guardar distância das profissionais, que me chamavam de nenê e faziam propostas indecorosas. Parava junto às portas dos bares para bisbilhotar os frequentadores, pronto para me afastar feito um raio assim que a primeira pessoa se aproximasse.
O mais estranho é que essa ronda pela moradia do pecado estava longe de ser divertida; pelo contrário, vinha acompanhada de sobressaltos, tensão permanente e de um medo que congelava as mãos e fazia o coração disparar bastava avistar um policial, uma mulher chegar mais perto, um cafetão notar minha existência ou o balconista do bar olhar em minha direção.
Pontualmente às onze horas, eu fazia o caminho de volta, atormentado e confuso, mas excitado por mergulhar na intimidade de um submundo inacessível a meninos como eu. No dia seguinte, morto de sono no colégio, as imagens da véspera me perseguiam, mas eu não contava nada para ninguém, receoso de que me acusassem de pervertido ou depravado, adjetivos em moda naqueles dias.
É evidente que o trabalho voluntário nos presídios, realizado com disciplina e persistência durante tantos anos, está ligado a esse interesse pela marginalidade que se manifestou já na infância ao assistir aos filmes de cadeia e ao ouvir no rádio os programas policiais. A diferença é que a maturidade e a prática da medicina substituíram a curiosidade infantil e aquela que me levou à Casa de Detenção por formas mais complexas de envolvimento com os personagens condenados a viver atrás das grades e com os homens escalados para impedir que fujam.
No convívio com os carcereiros aprendi a admirar a sagacidade com que analisam os acontecimentos e procuram desvendar as intenções ocultas dos que participam deles.
Na Detenção, esfaquearam um rapaz que por sorte chegou com vida no Hospital do Mandaqui. Irani, na época encarregado da chefia do pavilhão, descobriu que a agressão fora planejada num xadrez do segundo andar, ocupado por dois ladrões da zona sul, e mandou buscá-los:
— Qual de vocês esfaqueou o cara?
O mais velho se voltou para o outro:
— Josué, o homem já tá sabendo da fita. Não adianta esconder.
Irani interrompeu abruptamente:
— Não precisa explicar agora, eu chamo vocês daqui a pouco.
Voltou para a sala da diretoria xingando a própria mãe, enfurecido com a idiotice da pergunta que fizera. Com ela, havia dado chance para que a esperteza do preso mais velho obrigasse o outro a assumir a culpa sozinho. Se Josué acusasse o comparsa, seria considerado dedo-duro, condição que poderia condená-lo à morte. Como corrigir erro tão primário?
Uma hora mais tarde, chamou-os novamente:
— Não me interessa qual de vocês é o culpado. Os dois vão para a cela de castigo.
O mais velho ainda quis argumentar:
— Isso não tá justo. O senhor não quer saber quem foi?
— Quem tomou as facadas é que vai dizer. Se ele morrer, ficam os dois no castigo; se sobreviver, solto quem for inocente.
Três dias mais tarde, foi ao hospital visitar o ferido. O doente estava com uma sonda que entrava pelo nariz, o braço direito preso a dois frascos de soro que gotejavam e o esquerdo algemado na grade da cama. Com voz rouca contou que o ataque fora desfechado pelos dois acusados. E ainda por cima:
— Pelas costas, na maior covardia.
A agudeza de espírito do agente penitenciário não é qualidade inata, mas habilidade construída fragmento por fragmento, a partir da observação atenta das reações individuais e da maneira de proceder da massa carcerária, um ano depois do outro, num microambiente social cujo pano de fundo é a morte, que pode chegar a qualquer momento, de onde você menos espera.