Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 30 de 36

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Carcereiros

O palco do Chiquinho

 

Quando cheguei à Detenção, Rita Cadillac já era famosa por lá. Chamada carinhosamente de “Madrinha da Casa”, era figura obrigatória nos eventos que o diretor de Administração, José Francisco dos Santos, o Chiquinho, organizava em datas festivas como Natal, Dia das Mães e Dia dos Pais.

Rita e eu ficamos amigos depois de um show armado no salão em que um dia funcionou o cinema da cadeia, no pavilhão Seis, destruído numa rebelião. Nesse salão, onde costumávamos fazer palestras sobre aids para trezentos a quatrocentos homens, naquela tarde de calor reunimos mais de mil, com o objetivo de comemorar o fim de uma campanha interna de combate ao uso de cocaína injetável e a entrega de prêmios aos autores dos melhores cartazes sobre o tema.

Acompanhada pelo Unidos por Acaso, grupo de pagode formado por detentos do pavilhão Oito, ela encenou um samba requebrado que arrancou da plateia gritos delirantes alternados com suspiros e silêncios prolongados, daqueles em que é possível ouvir um mosquito no salão. Quando desceu do palco, suada, de saia justa e blusa desabotoada, a multidão abriu espaço respeitoso como se uma rainha estivesse entre os súditos. Fiquei tão impressionado com a coragem e com o domínio que aquela mulher exercia sobre a massa carcerária, que descrevi essa cena no livro Estação Carandiru.

Chiquinho foi o diretor de Administração até o fim da Detenção, em 2002. Homem educado, de estatura baixa e comportamento contido, sua figura é oposta à do estereótipo do agente penitenciário. A aparência do burocrata desligado das mazelas do ambiente prisional esconde o funcionário competente que se tornou conhecedor profundo dos mandos e desmandos da administração pública. Se um dia decidisse revelar tudo o que viu e ouviu, colocaria em situação delicada muita gente graúda.

Tempos atrás, voltávamos de metrô para casa comentando a desonestidade de dois carcereiros que guardavam um dos portões internos. Com exceção dos que trabalhavam nas funções essenciais à manutenção da cadeia, preso nenhum passava de um pavilhão para outro sem pagar-lhes pedágio. Os preços eram módicos: dois ou três maços de cigarro, a moeda tradicional das cadeias.

— Corrupção miúda — disse Chiquinho. — Perto da que vem dos políticos é um dinheiro que não dá nem para a pinga.

Em nossas reuniões do Conselho é o que menos fala, mas, quando descreve acontecimentos do passado, costuma fazê-lo com detalhes tão precisos que surpreendem os próprios companheiros de mesa que participaram desses episódios.

Caçula de sete irmãos nascidos em Natividade da Serra, foi criado em Taubaté, também no interior de São Paulo. Começou a trabalhar cedo, no Departamento de Pessoal da cpi, uma fábrica de tecidos. Graças à facilidade no relacionamento com os colegas, foi eleito diretor social do Clube Atlético Cepeiense, função que incluía organizar os bailes de Carnaval com artistas convidados.

Tinha acabado de completar 25 anos quando leu num diário de Taubaté o edital de um concurso público para a admissão de agentes penitenciários.

Não tinha a menor ideia do trabalho que o esperava na Penitenciária do Estado, quando foi escalado para prestar serviço nos pavilhões. Pensou em desistir:

— Nunca havia passado na frente de uma delegacia. Quase fiquei louco.

O diretor-geral era Luizão, que se encarregou de fazer uma ronda para dar as primeiras instruções aos recém-concursados, três das quais Chiquinho guardou para sempre:

— Quando disserem que um preso vai escalar a muralha de costas, não acreditem, mas não custa dar uma olhada.

A segunda foi dada na frente dos chuveiros em que tomavam banho os detentos escalados para o trabalho nas hortas:

— Sabem por que as portas deixam esse vão na parte de baixo? Para vocês olharem. Se enxergarem quatro pernas e não for vaca, podem invadir que é pederastia.

A terceira foi particularmente inesquecível:

— Vocês têm ideia de como um preso olha para a natureza sem piscar?

Para mostrar, subiu com o grupo até o segundo andar do pavilhão Três. No fim da galeria havia um suicida enforcado nas grades da janela.

A carreira de agente em contato direto com os prisioneiros durou apenas dois meses, porque Luizão precisava de um secretário com noções de administração e que conhecesse datilografia, habilidade rara no presídio. Foi o início de uma parceria para a vida inteira.

Uma das atribuições do secretário era chamar os funcionários relapsos, os corruptos, os que bebiam demais e os que abusavam da violência, para comunicar-lhes que seriam transferidos para a “bagunça da Detenção”, castigo que obrigava o agente a trabalhar numa cadeia bem mais desorganizada.

Um dia, ao chegar para a rotina diária, Chiquinho encontrou Luizão conversando no portão de entrada. Antes que se aproximasse, o diretor-geral perguntou:

— Onde pensa que vai? Você não trabalha mais aqui. Pode se apresentar na Detenção.

— O que eu fiz de errado?

— Nada. Fui nomeado diretor-geral daquele inferno. Você vai comigo.

Graças aos contatos no meio artístico, Chiquinho conheceu o apresentador Raul Gil, amizade que lhes permitiu realizar mais de trinta shows nos palcos armados no campo do pavilhão Oito, com a participação de artistas consagrados e outros menos conhecidos.

A cantora Alcione muitas vezes vinha do Rio para esses espetáculos; os sambistas Roberto Ribeiro, Leci Brandão e Elza Soares também. Moreira da Silva, o rei do samba de breque, gostava tanto de se apresentar para os detentos que precisava ser interrompido, como Chiquinho recorda:

— Uma vez, cantou em coro com eles durante uma hora e quinze, sem intervalo, uma música seguida da outra. Quase na hora da tranca, tive que subir no palco. A malandragem gostava tanto dele, que fui vaiado.

No auge de suas carreiras, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Francisco Egydio e Angela Maria, cantores que enterneciam corações sonhadores, chegavam horas antes de entrar em cena, a tempo de almoçar com os funcionários e passear pela cadeia. Participavam ainda Agnaldo Timóteo, Martinha, Eliana de Lima e Lilian Gonçalves, que mais tarde se tornaria dona de todos os bares e restaurantes de uma das ruas de Santa Cecília. Tobias, puxador de samba que chegou a presidente da Vai-Vai, tinha o bom gosto de se apresentar ao lado das mulatas da escola, jovens exuberantes com o bico dos seios escondido atrás de um selinho colorido.

Raul Gil animava os espetáculos com bailarinas em trajes mínimos, à moda dos programas de auditório na tv. Nenhuma delas jamais foi desrespeitada, o ambiente era absolutamente familiar, mesmo quando as famílias estavam ausentes.

Num show realizado ao ar livre numa quarta-feira com a presença de mulheres e crianças visitantes, liberalidade que a direção da Casa só autorizava no meio da semana para premiar fases de bom comportamento coletivo, Rita Cadillac, que ousava levar a provocação sensual às últimas consequências, anunciou um striptease. Devagar, tirou a blusa, por baixo da qual havia um bustiê vermelho-sangue. Sem pressa, desabotoou a saia comprida que cobria outra bem curta, em seguida retirada com glamour e malícia depois de inúmeras idas e vindas com as cadeiras em movimentos sinuosos.

Nessa hora, pegou o microfone para chamar um voluntário disposto a ajudá-la a livrar-se da calcinha, manobra que jurava ser incapaz de executar por conta própria.

Subiu ao palco um malandro confiante que levou um tapa na mão apressada para realizar a tarefa:

— Não seja afoito, menino. Primeiro, preciso de um beijinho.

Quando ele se aproximou para beijá-la no rosto, Rita virou de costas, curvou o corpo e apontou para as nádegas com o indicador da mão direita. Meio sem graça, o rapaz deu o beijo. Ela sorriu:

— Agora, sim. Pode tirar, mas com os dentes.

Ele titubeou, mas acabou mordendo e abaixando a calcinha até expor a tanga que ela usava por baixo.

A malandragem acompanhava com interesse, mas percebi que só as mulheres riam, comentavam entre si e aplaudiram no final.

No dia seguinte, o malandro que subira ao palco precisou ser transferido às pressas para não pagar com a vida o que os companheiros consideraram atitude de desrespeito com as mães, esposas e namoradas presentes. Contra Rita, nenhuma palavra, como justificou Jurandir, o preso encarregado da Faxina do Oito:

— Ela é artista, está na dela. Ele é quem? Um vacilão que faltou com o procedimento. Tinha que ter dado o beijinho, pedido licença e descido do palco.

Em 1996, Chiquinho resolveu fazer um show especial, com a participação de muitos convidados. Como a Casa não dispunha do palco que precisava ser montado no Oito, ele recorreu aos amigos do Anhembi que sempre o socorriam nessas ocasiões, mas esbarrou num problema prático: eles precisariam do palco para um evento a ser realizado dois dias mais tarde.

A solução encontrada pela diretoria da empresa foi montar o palco para a festa da Detenção e desmontá-lo logo na manhã seguinte, para remontá-lo no mesmo dia no local do evento. Como o tempo era exíguo, a equipe encarregada da desmontagem deveria começar o trabalho às sete da manhã.

Como sempre, o espetáculo transcorreu sem intercorrências. Quando terminou, os visitantes se retiraram e os detentos foram recolhidos a seus respectivos pavilhões. Antes de ir para casa, Chiquinho tomou o cuidado de conversar com o chefe do Oito:

— Pelo amor de Deus, não deixa ninguém tirar nada do palco. O pessoal do Anhembi vem para retirar logo cedo.

O chefe do pavilhão tranquilizou-o:

— Não tem problema, daqui a pouco começa a tranca.

O diretor de Administração tinha razão para estar preocupado. As tábuas eram bens de primeira necessidade, podiam ser transformadas em bancos, cadeiras, camas, armários e o que mais sugerisse a imaginação criadora de gente desocupada; com as estruturas de ferro, renovariam o arsenal de facas e estiletes.

Chiquinho chegou pontualmente às sete da manhã e foi para sua sala. Às sete e meia, vieram avisá-lo que os funcionários do Anhembi o aguardavam na Portaria.

Depois de resolver os trâmites de identificação e controle, o grupo entrou empurrando o carrinho de ferramentas.

Quando cruzaram o portão que separava o Cinco do Oito, Chiquinho duvidou do que seus olhos enxergaram:

— O palco tinha sumido. Não sobrou um cisco sequer.