Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 24 de 36

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Carcereiros

Violência contagiosa

 

A sociedade brasileira, que vive assustada com a violência urbana, é omissa e conivente com aquela praticada pelo Estado, desde que a classe média e os mais ricos sejam poupados. Quando as câmeras de tv surpreendem um policial espancando populares, não falta quem justifique: “Se apanham é porque fizeram por merecer”.

A filosofia do “bandido bom é bandido morto” tem inúmeros adeptos entre nós. O massacre do Carandiru, em que perderam a vida 111 homens do pavilhão Nove, foi aplaudido por tantos, que o comandante da tropa responsável pela operação se elegeu deputado estadual, com um número de candidatura que terminava em 111, para que não pairassem dúvidas entre seus eleitores.

A tortura nas cadeias de São Paulo arrefeceu gradualmente a partir dos anos 1990. Dois fatores contribuíram para essa mudança. O primeiro foi a pressão da sociedade, representada pelos ativistas que começaram a cobrar das autoridades a responsabilização criminal dos torturadores. O segundo foi o crime organizado, que ganhou força nos presídios paulistas com o massacre de 1992.

Há poucos anos um diretor de presídio foi assassinado na Grande São Paulo. Ao comentar o acontecimento, seu Manoel disse:

— Alguns ainda pensam que estão no passado. Hoje, bater em preso tem consequência; a realidade é outra.

Valdemar Gonçalves contrapõe:

— Quando fui contratado em 1986, qualquer agressão que um funcionário sofresse em qualquer cadeia gerava revolta imediata em todos nós. Hoje, passa um mês até a gente ouvir que um colega foi espancado ou assassinado no trabalho.

Há trinta anos no Sistema, Guilherme Rodrigues considera que a cultura antiga de impor ordem nos presídios por meio da força bruta foi um erro coletivo:

— O que adiantou bater? Se tivesse dado certo, não teríamos perdido o controle das cadeias para o crime organizado, como de fato aconteceu.

Estamos longe de acabar com a tortura no país, mesmo nas cadeias paulistas, onde a vigilância é mais severa. Como saber o que acontece durante a madrugada num canto qualquer de um distrito da periferia ou num presídio que a sociedade nem sabe que existe?

Não vamos esquecer que a natureza do trabalho de quem convive com a criminalidade incita naturalmente a prática da violência. Contê-la não é fácil, exige seleção rigorosa de profissionais, treinamento especializado, reciclagem educacional e fiscalização permanente, tarefas que os salários baixos desestimulam e que o Estado tem muita dificuldade em executar.

Violência é doença contagiosa.

Durante as filmagens de Carandiru, realizadas nas dependências da própria Casa de Detenção, os figurantes que faziam o papel dos presos rebelados nas cenas do massacre foram se queixar ao diretor Hector Babenco: estavam apanhando de verdade dos colegas que interpretavam os policiais militares encarregados de reprimi-los.

O vírus da violência contamina o ambiente prisional. Digo por experiência própria. Eu, que chego a demorar para pegar no sono por causa de um doente com febre — como acontece com tantos médicos —, muitas vezes senti vontade de bater num preso. Não por alguém haver me desrespeitado, fato que jamais ocorreu, mas pelos requintes de crueldade nos crimes cometidos contra gente indefesa ou pela brutalidade empregada para subjugar os companheiros.

Um detento famoso por haver decepado a cabeça de dois de seus companheiros de pavilhão uma vez me procurou com voz chorosa para se queixar dos dissabores que lhe causava um resfriado comum. É fácil para o médico tratar de um paciente desses com respeito e solidariedade?

Se eu soubesse que outro, um rapaz de 25 anos internado na enfermaria em estado grave, havia roubado e assassinado os pais e a avó de uma criança de dez anos, em seguida estuprada por ele, teria me empenhado durante semanas para conseguir os remédios que lhe salvaram a vida? Teria ido pessoalmente ao Posto de Saúde para buscá-los?

As torturas mais bestiais de que tive notícia não foram praticadas por carcereiros, mas pelos próprios presos contra os que caíram em desgraça, na maioria das vezes por motivos fúteis, vingança ou mera disputa de poder. A perversidade no mundo do crime não conhece limites. Não vou dar mais exemplos para não relembrá-los.

Cadeia é um lugar povoado de maldade.