Carcereiros
Na sala de Revista
Tudo o que entra numa prisão deve ser revistado. Não obstante, basta acompanhar a rotina para perceber a impossibilidade de fiscalizar com rigor os caminhões de entrega que trazem as três refeições do dia e os materiais necessários para abastecer um presídio que pode albergar mais de mil pessoas, as vans e caminhonetes com os artigos para o trabalho dos detentos nos Patronatos, além de todos os que passam pela Portaria, sejam funcionários ou visitantes carregando sacolas abarrotadas de mantimentos, refrigerantes, cigarros e pacotes de biscoito. Numa cadeia grande seria preciso que dezenas de homens e mulheres se dedicassem apenas a essa função, número de que nenhuma delas dispõe.
São três as contravenções que respondem pela quase totalidade das mercadorias contrabandeadas para detrás das grades: droga, dinheiro e telefone celular.
A criatividade das visitas para ludibriar a fiscalização é diversificada. Cocaína e maconha são escondidas no interior de bolos de aniversário, frangos assados, embalagens de miojo, álbuns de fotografia, fraldas de recém-nascidos, bengalas de senhoras de idade, bíblias ocas, velas de sete dias e em pernas engessadas. A estratégia mais usada pelas visitantes para entrar com celulares e quantidades pequenas de droga é a de envolvê-los em sacos plásticos e ocultá-los na vagina.
Algumas mulheres empregam essa técnica por mero interesse financeiro: chegam a receber setecentos a oitocentos reais, dependendo da quantidade de droga que conseguem acondicionar. Outras são levadas a fazê-lo por sentimentos mais nobres. Em geral são jovens com pouca escolaridade, mães de mais de um filho, moradoras da periferia, apaixonadas e chantageadas por ladrões que nunca mais se lembrarão de seus nomes caso sejam presas em flagrante.
Dona Joana, com muitos anos de experiência na função de revistar, reconhece a invasão da intimidade:
— É humilhante, mas não tem outro jeito. Tem que fazer todo mundo tirar a calcinha e abaixar. Na dúvida, mandar tossir com força. Já peguei senhoras de oitenta anos trazendo droga na vagina para o vagabundo do neto sem-vergonha. Aparecem umas mocinhas com bebezinho no colo, que a gente tem que mandar para a delegacia. Corta o coração, podia ser uma filha nossa.
Na delegacia, essas mulheres são autuadas em flagrante e encarceradas. Não voltam mais para casa; os filhos ficarão sob os cuidados sabe lá Deus de quem. Meses mais tarde, serão condenadas a cumprir penas por tráfico que podem chegar a quatro ou cinco anos. As que são surpreendidas traficando droga para algum membro da facção dominante recebem as condenações mais longas.
As novatas entrarão em contato com criminosas de carreira e aprenderão a obedecer às leis impostas pelas quadrilhas que controlam os presídios paulistas; as mais experientes farão pós-graduação em criminalidade.
Ao entrar na cadeia num domingo, Irani viu uma mulher com mais de setenta anos ser levada para lavrar o flagrante na delegacia. Trouxera cocaína para o filho, que lhe contara uma história de que seria assassinado caso não liquidasse a dívida contraída com traficantes.
Revoltado ao ver uma senhora de idade com roupas simples, tranças compridas como as das evangélicas e as pernas cheias de varizes, aterrorizada, enquanto aguardava a chegada da polícia, Irani foi atrás do filho que a colocara naquela situação.
O rapaz se apresentou em sua sala, humilde, com as mãos para trás. Depois de confirmar que se tratava da pessoa certa, entregou-lhe um catecismo aberto na página dos dez mandamentos:
— Você vai ler um por um, em voz alta. Quando chegar naquele que manda honrar pai e mãe, faz o nome do padre, ajoelha e reza uma ave-maria e um pai-nosso, baixinho mas que eu possa ouvir. Depois faz outro nome do padre, levanta e começa tudo de novo.
— Quantas vezes, senhor?
— Até acabar a visita.
— Mas ainda faltam três horas, senhor.
— O que são três horas perto do tempo que a senhora sua mãe vai passar na cadeia?
Nem sempre a contravenção é praticada por visitantes: funcionários aliciados podem fazer vistas grossas à entrada de itens proibidos. Os colegas se revoltam:
— Eles levam grana para não examinar a pacoteira. Passa uma partida de maconha, cocaína, meia dúzia de celulares, até que um dia entra uma arma.
De fato, contam os mais antigos que na tentativa de fuga da Detenção, em 1982, no decorrer da qual foram assassinados a tiro Santiago e Adãozinho, funcionários que faziam a escolta do diretor Luizão, os revólveres vieram camuflados nas sacolas das visitas que passavam semanalmente com maconha pelo boxe de um colega venal.
Justiça seja feita, no entanto. Quando comparamos o número de carcereiros do Sistema com o daqueles envolvidos no tráfico de drogas e celulares, constatamos que se trata de uma minoria. Mesmo os de conduta pouco ortodoxa, que aceitam favores e retribuição financeira de presos interessados em pequenas regalias, condenam os colegas traficantes:
— Até para levar grana tem que ter ética. Uma coisa é ganhar um dinheiro que não prejudica ninguém, outra muito diferente é se mancomunar com vagabundo, virar traficante ou colocar em perigo a vida de todos.
Um dos revistadores, que conheço há pelo menos quinze anos, já mandou para a prisão mais de vinte funcionários-traficantes. A seriedade no cumprimento do dever lhe valeu elogios de seus superiores, menções honrosas formais, diversas tentativas de suborno e ameaças de morte.
Homem com perto de cinquenta anos, pai de três filhas, estatura mediana, mais parece balconista de loja de tintas do que encarregado de vigiar portaria de presídio. Quem o vê na sala de Revista tem a impressão de que se trata de profissional displicente à espera do horário de bater o ponto. A postura relapsa, entretanto, faz parte de uma técnica aprimorada para apanhar contraventores, habilidade que lhe confere respeito unânime entre os pares.
— Fico com ar distraído, mas, antes de revistar o cidadão, olho fixo na pupila dos olhos dele. Se estiver trazendo bagulho, o olhar foge, não resiste, quando volta já não é o mesmo.
Ao desconfiar da atitude, seria esperado que iniciasse uma revista minuciosa:
— Pelo contrário, mal bato as mãos nas laterais do corpo e deixo entrar. Nos dias seguintes a mesma coisa, até ele achar que não estou nem aí, que sou idiota. Então dou o bote definitivo: revisto pente-fino dos pés à cabeça, para pegar o cara carregado.
O fato de mandar para a cadeia funcionários públicos como ele não lhe causa dilemas existenciais:
— Colega meu é aquele que, quando precisa de dinheiro, arranja um bico para fazer a segurança de uma padaria ou de um supermercado. Esses caras que hoje trazem droga amanhã tentarão passar com um revólver. Eles não são colegas de ninguém, são bandidos.