Carcereiros
José Araújo
Seu Araújo nasceu e mora até hoje no Tatuapé, bairro de elite, como costuma dizer.
Convencido de que ele era o mais ajuizado dos sete filhos, o pai, pouco antes de morrer, chamou-o para pedir-lhe que não deixasse vender o único bem da família: a casa onde viviam, adquirida numa época em que o Tatuapé era considerado periferia da cidade.
O filho fez a vontade paterna, e cada irmão pôde construir sua casinha no terreno. A dele fica na parte alta, acessível por um corredor congestionado por samambaias, avencas, bromélias e begônias coloridas, entre outras plantas visivelmente cuidadas por mãos carinhosas. O corredor termina num lance de degraus altos que conduz a uma varandinha espremida, com uma churrasqueira no fundo, e à entrada da área íntima, à esquerda. A cozinha minúscula é conjugada à sala, um cômodo estreito com uma cristaleira e um sofá de dois lugares em frente à tv, quase uma passagem para o quarto de dormir, com a cama, a cômoda e o guarda-roupa de casal.
Entre familiares e colegas funcionários, seu Araújo chega a reunir nesse espaço angustiado mais de cinquenta pessoas para comemorar a noite de são Pedro, todo mês de junho. Uma das vezes em que não pude comparecer à festividade, encontrei-o na segunda-feira no pátio de entrada da cadeia, conhecido como Divineia. Pedi desculpas pela ausência e perguntei se tinha ficado feliz com a comemoração. Respondeu que sim e acrescentou:
— Sabendo levar, a vida é uma festa maravilhosa.
Outra vez, quis saber qual a razão para o tumulto formado na frente da sala de Revista, local em que os funcionários eram obrigados a passar antes de entrar para o trabalho. Com ar resignado, ele explicou que um rapaz recém-contratado havia sido surpreendido com cem gramas de cocaína.
O infrator não tinha mais de 25 anos. Estava cor de cera no meio dos colegas que lhe dirigiam impropérios. Fiquei até com pena:
— Que merda, o menino chega aqui como funcionário público e acaba na delegacia enquadrado como traficante.
Ele acrescentou como se pensasse em voz alta:
— O problema é que essa juventude quer tudo de uma vez. Ainda não aprendeu que a felicidade exige paciência.
Aos doze anos de idade, comprou em prestações uma máquina de raspar taco usada e começou a trabalhar por conta própria. Mais de trinta anos atrás, já casado e pai de cinco filhos, fez um curso de jardinagem e paisagismo para melhorar de vida. Com o diploma arranjou emprego nas instalações do Senai, na avenida Paulista.
O ano de 1978, em que completou 35 anos, foi o mais infeliz de quantos viveu: dois de seus meninos mais novos morreram de pneumonia quase ao mesmo tempo; um tinha seis anos e o outro três. Menos de um mês mais tarde, o filho mais velho, que acabara de completar doze anos, estava brincando com uma bola de basquete no quintal, quando caiu desacordado. A mãe correu com ele para o hospital. De madrugada, o garoto faleceu.
O neurologista disse que provavelmente se tratava de hemorragia cerebral, diagnóstico que só a autópsia poderia confirmar. Inconformado, o pai pediu que o exame fosse realizado; depois da tragédia com os dois menores, queria entender como era possível morrer um menino cheio de saúde como aquele.
Trabalhador responsável, quando o dia clareou foi para o Senai avisar que faltaria no serviço, porque o corpo do filho aguardava liberação no Instituto Médico Legal. O diretor disse que lamentava o ocorrido, mas que não podia dispensá-lo porque no dia seguinte seria comemorada a festa da indústria nas instalações do Senai, a diretoria inteira estaria presente e o jardim necessitava de uma reforma.
— Estava estremunhado, sem dormir. Mesmo assim, fiz o jardim até as nove da noite; só no dia seguinte pude buscar meu filho no iml.
Dez dias depois desse episódio, foi chamado à sala do diretor, que falava com a esposa no telefone quando ele entrou. Terminado o telefonema, o homem levantou e disse que conversaria com ele mais tarde, porque precisava levar a filha ao dentista.
O sangue de seu Araújo subiu à cabeça:
— Não pôde me dispensar quando meu filho morreu, mas saía do trabalho para levar a filha ao dentista. Na frente da secretária e de todo mundo xinguei ele de um palavrão que tenho vergonha de repetir.
O chefe respondeu que não o levava a mal, que jamais iria demitir um empregado bom como ele, querido por todos na repartição.
Na semana seguinte ele mesmo pediu demissão; depois da ofensa ao diretor, sentiu que não havia como continuar ali.
Desempregado, prestou exame para a função de agente penitenciário. Estava em casa quando recebeu o telegrama que lhe dava o prazo de 24 horas para apresentar-se na Casa de Detenção.
— Naquele tempo não tinha escolinha para ensinar como agir com os presos. Já entrava e ia pegando as chaves.
Foi o começo de uma carreira que dura 33 anos; só no Carandiru foram 22, seguidos de transferências para a Casa de Detenção Feminina do Tatuapé e para os presídios Parada Neto e Adriano Marrey, ambos em Guarulhos.
Os anos de trabalho na cadeia não lhe tiraram a vaidade de calçar sapato de verniz, vestir calça com vinco e camisas impecavelmente passadas por ele mesmo aos sábados, nem o fizeram perder o amor pelas plantas, que trata com carinho em casa e nos jardins da Penitenciária do Estado, onde trabalha atualmente. Apesar do início humilde, chegou à chefia do pavilhão Oito, no Carandiru, posto para o qual eram designados apenas os mais hábeis, porque lá cumpriam pena os reincidentes; impossível manter em paz o resto da cadeia sem controlá-los.
Em 1989, quando o conheci, passava o dia num banquinho na gaiola de entrada do pavilhão, de olho no vaivém incessante dos detentos que entravam apressados na direção das celas e saíam para o pátio interno e o campo de futebol, como se fossem operários atrasados para bater o ponto.
No meio da balbúrdia, mantinha o ar enfadado do funcionário público relapso. De repente, como o cão de caça que ergue as orelhas e dispara, levantava do banco para barrar e revistar um transeunte. Era flagrante de contravenção na certa.
Na chefia, resolvia pessoalmente as ocorrências mais graves. Subia aos andares para apartar brigas, revistar celas e acalmar ânimos em momentos de tensão.
— E também para aplicar algum corretivozinho, quando se fazia necessário.
Não faz comentários nem descreve esses corretivos, muda de assunto quando alguém pergunta de que forma eram aplicados.
Para antecipar-se às tentativas de fuga e à execução de algum infeliz, contava com um grupo secretíssimo de informantes, de cuja sobrevivência cuidava com desvelo paternal. Respeitado por honrar a palavra empenhada, tinha regras claras para discernir o momento de favorecer, o de punir e o de perdoar.
Num mês de dezembro, recebeu a denúncia de que estavam cavando um túnel sob o campo de futebol do Oito, em direção à muralha, como parte de um plano de fuga em massa que aconteceria antes do Natal.
Levou a informação ao diretor de Disciplina e pediu ordem para procurar o túnel pessoalmente.
Esperou que os presos fossem recolhidos no fim da tarde, pegou a picareta e começou a cavar no ponto que lhe pareceu mais provável. Depois de fazer um buraco de quase um metro de profundidade, resolveu abrir outro ao lado.
Das janelas das celas que davam para o campo, a malandragem gritava e ria:
— Aí não, mais para a esquerda, senhor. Mais para a direita. Fura mais. Assim não vai achar. Está esquentando. Está frio outra vez.
Irritado, ele deu três passos para a frente, fincou com raiva a picareta no chão, olhou para cima, na direção dos andares mais altos, e perguntou:
— E aí, gente boa? É aqui que você contou que passava o túnel?
Não sobrou um ladrão nas janelas.