Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 4 de 36

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Carcereiros

Questão de princípios

 

Guardas de presídio como seu Araújo formam uma corporação a um só tempo homogênea e diversa. A variedade dos aspectos físicos é enorme: vai dos baixos e magros aos de porte avantajado, que, embora nem sempre sejam altos, têm força para agarrar boi bravo pelos chifres. O tipo forte e rude predomina entre os mais velhos, contratados num tempo em que as cadeias eram tocadas na base do enfrentamento.

Já a origem social é semelhante: praticamente todos pertencem a famílias em que os filhos começaram a trabalhar cedo. A motivação que os levou às cadeias foi muito mais a segurança do emprego público do que algum apelo vocacional. Até o primeiro dia de trabalho, a maioria deles jamais havia imaginado pôr os pés numa prisão. Conheci pouquíssimos que se tornaram profissionais para atender um desejo de penetrar o universo atrás das grades. Entre eles, José Carlos Cecílio:

— Sempre me interessei pelo mundo do crime. Quando era adolescente, parava do outro lado da avenida Cruzeiro do Sul, de frente para o portão de entrada, olhava aquelas janelas com grade e pensava: um dia ainda vou trabalhar lá dentro.

Geralmente educados por pais severos que lhes impuseram princípios rígidos de comportamento, cresceram nos mesmos bairros periféricos de onde provêm os marginais. São incontáveis os casos de companheiros de infância que acabaram nos presídios guardados por eles.

Walter Hoffgen, mais tarde o segundo homem na hierarquia da Secretaria de Assuntos Penitenciários, foi contratado nos anos 1970, época em que os jovens deixavam o cabelo crescer até a altura dos ombros. No primeiro dia de serviço, quando se apresentou à chefia do pavilhão Oito, recebeu a incumbência de trancar as celas do terceiro andar, que abrigavam os mais indisciplinados.

Quando ele saiu para cumprir a tarefa, um dos funcionários comentou com o chefe, Mané Caixa:

— Chefe, mandar um menino inexperiente logo para trancar o terceiro andar?

— Deixa esse hippie cabeludo aprender a ser homem.

Bem mais depressa que o esperado, o hippie cabeludo estava de volta, ao contrário dos colegas que subiram com ele para trancar os demais andares. O chefe sorriu:

— Veio pedir ajuda, playboy? Os meninos não te obedeceram?

— Não tive problema, senhor, já tranquei todo mundo.

O chefe achou a façanha tão improvável que subiu para certificar-se.

Enquanto o trabalho dos mais velhos ainda estava pela metade, no terceiro andar não havia um único preso solto na galeria.

Mané Caixa não sabia que o recém-admitido era o afamado centroavante do Relâmpago, da Vila Califórnia, conhecido como Mazzola, assim apelidado pela semelhança física com o atacante do Palmeiras e da Seleção Brasileira. Com alta popularidade na zona leste, Walter fora imediatamente reconhecido pelos companheiros dos campos de várzea.

O impacto do ambiente prisional provoca transformações irreversíveis na personalidade do agente penitenciário. “Em que lugar eu vim parar?” é a frase mais usada para exprimir o choque dos primeiros dias no meio dos presidiários.

— Quando fui admitido, aos 29 anos, a cadeia era outra — disse Juan Isidro, pai de seis filhos e avô de uma menina que nasceu prematura, ocasião em que ele passou três dias num banco de maternidade pública sem tomar banho nem ir para casa, até a criança receber alta da uti.

Juan foi aprovado no concurso para agente penitenciário junto com um amigo de infância. Vizinhos, criados na mesma rua, tomavam o ônibus para o Carandiru todas as manhãs. Seis meses depois da admissão, o amigo comprou um fusca velho e lhe ofereceu carona. Quando ele perguntou como havia adquirido o carro com salário tão baixo, o outro sorriu:

— Você ainda não aprendeu que os presos não podem receber dinheiro de fora? Resolvo esse pequeno problema por módicos 30%.

— Não tem medo de ser pego?

— Qual é, meu? A gente corre risco de morrer nesse lugar, para ganhar essa miséria? Usa a cabeça, compadre.

Juan havia prestado concurso contra a vontade do pai, imigrante espanhol que não queria vê-lo naquele meio. Quando argumentou que se tratava de um emprego como outro qualquer e que tinha mulher e filho para manter, o pai se limitou a aconselhar:

— Se você for um homem honesto e de palavra, será respeitado mesmo num ambiente como esse.

O colega que usava a cabeça trilhou o caminho oposto ao desses ensinamentos, até ser surpreendido na sala de Revista com cinco maços de dinheiro atados à parte interna do cinto. Foi levado imediatamente à presença do diretor-geral, um coronel da pm que mandava e desmandava como se o presídio fosse extensão do quartel que comandara. A conversa foi persuasiva:

— Ou você pede demissão, vagabundo, ou quebro a tua cara e ainda abro um processo por justa causa.

Juan perdeu a carona das manhãs, mas deu mais valor às palavras paternas.

Meses mais tarde, o chefe do pavilhão em que trabalhava o convidou para uma cerveja no fim do expediente. Ele achou esquisito: o homem era enfezado, ignorantão, sempre aos berros, não olhava na cara dos mais novos nem se dava o trabalho de responder quando o cumprimentavam. Dos subordinados exigia respeito, barba feita e pontualidade britânica, embora chegasse tarde e saísse mais cedo, porque à noite trabalhava como segurança numa casa de jogos clandestina. Ao entrar em sua sala, os presos e os funcionários que trabalhavam na burocracia do pavilhão largavam tudo e ficavam em pé, em posição de sentido, à espera do gesto displicente para ordenar que sentassem.

Na mesa do bar, o chefe fez questão de esclarecer que o fato de estarem ali descontraídos não serviria de pretexto para intimidades no serviço. No botequim podiam rir e falar da vida, no setor jamais; do portão para dentro, era “sim, senhor”, “pois não, senhor”, “por obséquio” e “por gentileza”.

Feita a admoestação, foi direto ao assunto:

— Quando surgir alguma oportunidade, traz para mim que você não vai se arrepender. Viro animal quando meus funcionários se metem a fazer negócios por conta própria.

A oportunidade veio a cavalo. Na semana seguinte o diretor-geral entrou no pavilhão para providenciar a transferência de trinta homens para a Penitenciária do Estado. Dirigiu-se à salinha da chefia e mandou reuni-los.

Juan Isidro foi encarregado de ir buscá-los. Ao descerem a escada, um deles cochichou em seu ouvido:

— Senhor, não posso ir para a Penitenciária de jeito nenhum. Vou perder o que ganho aqui para sustentar mulher, três filhos e mãe viúva. Pago 1700 para ficar.

Juan explicou que impedir a transferência estava fora de seu alcance. O máximo que poderia fazer era levar a proposta ao chefe do pavilhão, mas como fazê-lo na presença do diretor-geral?

Enquanto os transferidos se enfileiravam para ouvir as orientações, criou coragem e fez um sinal nervoso para o chefe, que levantou e veio até ele com cara de pouquíssimos amigos:

— Fala. Tomara que seja importante.

— Senhor, aquele ali que tem um lado da testa afundado paga 1700 para ficar.

O chefe foi incisivo:

— Pode dizer que ele não vai.

De fato, não foi. Assim que o diretor-geral saiu, Juan chamou o rapaz:

— Ô testa afundada, é o seguinte: se der um chapéu em nós, vai me colocar na decepção, e, quando me decepciono com alguém, o final é infeliz.

O rapaz tranquilizou-o. Podia confiar, o irmão viria visitá-lo no domingo seguinte. Juan não estaria de plantão, mas iria à cadeia especialmente para viajar com o visitante até Santos, ocasião em que receberia 2200 cruzeiros. Dessa importância, quinhentos corresponderiam à parte que lhe tocava como agradecimento pela prestação do serviço.

No fim da tarde de domingo, os dois tomaram o ônibus para Santos, desceram na entrada da cidade e pegaram outro ônibus que os levou ao pé de uma favela, com barracões de madeira iluminados por luzes de lampião que serpenteavam morro acima. Havia escurecido, o carcereiro teve um mau presságio:

— Era uma quebrada cabulosa, sem luz elétrica. Mandei o cara subir por conta própria, que eu esperava no ponto de ônibus.

O outro insistiu que fossem juntos, era mais perigoso um estranho ficar sozinho naquele local do que subir acompanhado por um morador. Desconfiado com a insistência, ele não arredou pé. Não tinha falado com ninguém sobre a viagem nem trouxera a carteira profissional; se o matassem, desapareceria sem deixar vestígio:

— E o preso ainda ia dizer que eu tinha fugido com o dinheiro.

Passou quase uma hora, e nada. Quando três tipos mal-encarados saíram de um beco e caminharam em sua direção, entendeu que caíra numa cilada. Pensou na mulher e no filho; quanta ingenuidade meter-se numa enrascada daquelas sozinho e desarmado. Estático, com o coração disparado, sem mover um músculo do corpo, esperou pelo pior.

Os três se detiveram a poucos metros dele. Sem tirar a mão direita do bolso, o mais gordo se aproximou:

— E aí, do casaco de couro, tá esperando quem?

Ele nem sequer sabia o nome daquele que o trouxera, mas lembrava o do irmão com a testa afundada. Explicou que viera buscar uma encomenda para levá-la à cadeia. Ao ouvir o nome do prisioneiro, o gordo perguntou como era ele e onde estava preso. Quando Juan disse que o sujeito tinha um defeito na testa e estava no pavilhão Sete da Detenção, o outro sorriu:

— Tá limpo. Diz pra ele que o Latrô mandou considerações.

Foi um alívio quando o farol do ônibus iluminou a rua, mas Juan não chegou a subir no veículo como acabara de decidir, porque viu o vulto do irmão do preso virar a esquina com um pacote.

— Demorou, meu, quase fui embora. Agora, tem o seguinte: você me acompanha até a rodoviária, porque, se eu for assaltado no caminho, seu irmão vai se complicar.

Para mostrar que viera preparado para escoltá-lo, o rapaz levantou a camisa e exibiu o revólver de cabo de madrepérola no cinto.

Segunda-feira, já havia passado do meio-dia quando o chefe chegou com a cara enfezada de sempre. Juan pediu licença para entrar, fechou a porta da salinha e lhe entregou os 1700 combinados, sem mencionar a parte que já lhe coubera. O chefe contou o dinheiro e separou quinhentos:

— É seus.

No total, recebeu mil, quantia equivalente ao salário que levava cinco meses para ganhar. Ele não considera haver traído os ensinamentos do pai:

— Não fui desonesto: não pedi nem tomei nada de ninguém.

Ficou em paz com a consciência porque arriscou a vida para buscar o dinheiro, o ladrão conseguiu o que pretendia, deixou de ser transferido não por ordem dele, Juan, que não tinha autoridade para tanto, mas por ordem do chefe do pavilhão, que recebeu o combinado sem levantar da cadeira. Se, por vontade própria, cada uma das partes envolvidas achou por bem presenteá-lo com quinhentos, caberia a ele recusar?

— Veio na hora certa, meu, minha mulher estava na maternidade, meu segundo filho tinha acabado de nascer.