Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 29 de 36

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Carcereiros

Dinheiro falso

 

Buda iniciou a carreira de estelionatário ainda na escola primária. Não por necessidade, mas por fascínio, segundo reconhecia.

Obeso desde que veio ao mundo, era ridicularizado pelas crianças da vizinhança e alijado do futebol na rua em que morava, na Lapa de Baixo. Na escola primária, viveu estigmatizado até os colegas descobrirem sua incrível habilidade para imitar a letra alheia. A partir de então, começou a ganhar a vida falsificando assinaturas de pais e anotações de professores nos boletins e cadernetas de alunos relapsos.

O pai, imigrante calabrês severo na educação dos filhos, comerciante de frutas no Mercado da Lapa, deu conselho, pôs de castigo, brigou, bateu, mas não conseguiu impedir a expulsão do filho da escola particular em que estudava. Para melhor vigiá-lo, levou-o para trabalhar consigo na barraca de frutas, iniciativa infrutífera porque o menino se envolveu numa querela que por pouco não acabou em pancadaria, ao falsificar um comprovante de jogo do bicho para um desocupado que perambulava pelo mercado.

Na adolescência, Buda se aproximou da malandragem que se reunia nos bares da região do largo da Lapa, com quem descobriu uma paixão que o acompanharia pelo resto da vida: o talão de cheques. Desenvolveu uma ligação tão paranoide com ele, que a simples visão de um cheque fazia o coração disparar, causava sudorese, tremedeira e lhe deixava as mãos geladas. Não tinha sossego enquanto não conseguia surrupiá-lo, caso contrário era obrigado a afastar-se sem olhar para trás, única maneira de controlar o surto de ansiedade. Parecia um viciado em cocaína na presença da droga.

Na vida adulta, gabava-se de falsificar com tanta perfeição documento de identidade, carteira de motorista, atestado de bons antecedentes e procurações para terceiros, que estava para ser fundado o cartório que não lhes reconhecesse a autenticidade.

Um dia, vendeu um passaporte pelo triplo do preço para um argentino procurado pela polícia, quantia paga em notas de cem, sem questionamento. De posse do dinheiro, correu para abrir uma conta num banco usando identidade falsa, com o objetivo único de conseguir o almejado talão de cheques.

O caixa pediu a ele que aguardasse enquanto consultava o gerente para acertar detalhes burocráticos. Voltou com dois policiais que o algemaram: as cédulas eram falsas.

Na delegacia, levantaram seu prontuário repleto de autuações por falsidade ideológica e estelionato. Por incrível que pareça, ainda assim conseguiu demover o delegado da intenção de prendê-lo, com o argumento de que nunca fabricara nem tinha condenações por falsificação de dinheiro e que, se soubesse da origem ilícita das notas, tentaria passá-las no comércio para pessoas incautas, jamais num banco.

Liberado, foi atrás do argentino. Encontrou-o fazendo a mala no quarto do hotelzinho da rua Aurora em que a transação do passaporte acontecera. Com a mão no bolso do blusão para fingir que estava armado, ameaçou matá-lo caso não lhe devolvesse o passaporte.

O golpista não tentou se fazer de inocente, pelo contrário, disse que Buda havia sido ingênuo em confiar num desconhecido que nem sequer pedia abatimento ao ser explorado. Para reparar o golpe, todavia, estava disposto a apresentar-lhe o espanhol falsificador daquelas notas; quem era capaz de fazer passaportes com tamanha perfeição ganharia fortunas numa sucursal da Casa da Moeda.

O espanhol era um homem de cabelos brancos, com um lápis atrás da orelha e diversas passagens por cadeias da Espanha e da América Latina, apaixonado pela profissão que aprendera na juventude, em Sevilha. Não se considerava um simples falsário, mas um artista que procurava aprimorar a técnica em cada trabalho que realizava. Muitas vezes passava horas com o copo de vinho a admirar a qualidade das notas recém-impressas, espalhadas na mesa ao lado das verdadeiras, para comparação. Se não ficava satisfeito com o resultado, jogava-as no fogo, mesmo que seus clientes tentassem convencê-lo a vendê-las. No novo aluno soube reconhecer o talento e a vontade de aprender.

Quando chegou no pavilhão Seis da antiga Detenção, Buda pediu para trabalhar na Seção Judiciária, pretensão negada para impedir o acesso de um estelionatário aos prontuários dos condenados. Foi designado para prestar serviços na copa dos funcionários, cargo que ocupou com competência e dedicação durante os três anos em que cumpriu pena. Bonachão bem-humorado, virou figura popular entre funcionários e companheiros de infortúnio.

Uma tarde, Buda veio com o café e um presente para Fausto e Narciso, carcereiros de plantão na sala da chefia do Seis:

— Trouxe duzentos para cada um dos senhores e mais trezentos para o chefe do pavilhão. Por favor, entreguem para ele.

Narciso não recebeu bem a oferta:

— Pegue de volta, não levo dinheiro para facilitar a vida de ninguém.

— Não peço nada em troca. É um agrado pela educação com que os senhores me tratam.

Deixou o dinheiro em cima da mesa e saiu da sala.

Narciso ainda quis devolvê-lo, mas foi impedido por Fausto:

— O cara não pediu envolvimento. Quer dar de mão beijada? É a cara dele, meu.

Na semana seguinte, Fausto foi chamado à sala de um dos diretores da cadeia. Cesário, um preso que trabalhava como auxiliar da diretoria, transmitiu-lhe a ordem:

— É para comprar esses produtos, senhor. Só vende na cidade.

Recebeu uma nota de mil, que nunca tinha visto, e uma folha de caderno com uma lista de produtos químicos, entre os quais acetona, éter, ácido, removedor e tintas de diversas cores.

Naquele tempo os funcionários eram proibidos de abandonar as dependências da Carceragem, o expediente devia ser cumprido integralmente no interior dos pavilhões. Quando recebiam uma ordem para ir à rua, todos se ofereciam como voluntários:

— Era a oportunidade de respirar longe daquele ambiente nefasto.

Por preguiça, Fausto não se dispôs a aceitar a incumbência, preferiu transferi-la para Mineirão, o primeiro colega por quem passou.

Quando Mineirão pegou a nota de mil, ficou desconfiado:

— Tá doido, sô. É falsa.

— Como assim? Veio da diretoria, cuidado com o que fala.

Diante da dúvida, Fausto sugeriu que fossem à tesouraria para esclarecer a questão.

No meio do caminho encontraram seu Shirodo, um dos diretores da Casa, e mostraram a cédula:

— É mais falsa do que uma nota de trinta. De onde veio?

Ao saber que viera de um preso que prestava serviços na diretoria, seu Shirodo se encarregou de descobrir a origem do problema.

Fausto pensou na hora: “Filho da puta desse Buda”, e correu para o pavilhão para avisar Narciso, que tinha aceitado o dinheiro por interferência dele:

— O bagulho é louco, meu, o dinheiro do Buda era falso. Graças a Deus eu ainda não gastei.

O colega não tivera a mesma sorte, havia liquidado a conta do açougue:

— Puta que o pariu, Fausto, em dez anos de trabalho nunca peguei dinheiro. O açougueiro vai descobrir. Maldita hora que fui ouvir você.

— Calma, vamos lá no xadrez do Buda. Se ele deu esse chapéu em nós, eu penduro ele. Acabo com aquele desgraçado.

Buda coava um chá no fogareiro:

— Chegaram na hora — disse.

— Chegamos na hora de acabar com a tua raça, seu gordo do caralho — respondeu Fausto. — Pensou que ia fazer nós de trouxa e sair tirando uma?

— Posso saber de que assunto o senhor está falando?

Narciso falou do problema com a nota de mil, dos duzentos recebidos, com os quais pagara o açougueiro, e do arrependimento de ter nascido que o falsário sentiria por havê-los feito de idiotas.

Buda ouviu impassível. Tirou o coador do bule, serviu três xícaras e perguntou se preferiam açúcar ou adoçante.

— O dinheiro que eu dei para os senhores é quente, mano. Sou estelionatário, mas louco não. Mais a mais, estou fora do ramo de impressão. Agora, como tive um professor, ensino quem quer aprender e tem recursos para pagar meus honorários. O que meus pupilos vão fazer com os conhecimentos é eles na fita. Tô fora.

Os dois carcereiros ameaçaram levá-lo para o castigo na Isolada, se não declarasse quem eram os alunos. Buda citou quatro nomes, entre eles o de Cesário, responsável pelo pedido de compra do material.

No xadrez de Cesário foram encontrados frascos de tintas e outros produtos químicos, uma prensa, uma guilhotina afiada e grande quantidade de papel cortado no tamanho das cédulas de mil.