Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 15 de 36

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Carcereiros

O Empreiteiro de Cristo

 

Vanico, nordestino alto e forte, tinha fama de carregar uma peixeira na cinta. Por esse motivo, Luizão, diretor de Disciplina, estava de frente para ele, atento aos seus movimentos. À direita de Luizão, o dr. Javert, diretor-geral do presídio; à esquerda, com a camisa desabotoada e para fora da calça, Messias, vulgo “Empreiteiro de Cristo”, matador profissional.

Dr. Javert queria saber qual dos dois presos contrabandeava pinga no Instituto Penal Agrícola de São José do Rio Preto, dirigido por ele naquela cidade. Messias, presidiário bem-comportado que ganhara a confiança do diretor, começou a explicar que nada tinha a ver com a contravenção, gesticulando sem parar. Luizão, sem desgrudar os olhos de Vanico para evitar a surpresa da peixeira, não conseguia acompanhar os movimentos do Empreiteiro de Cristo, parado à esquerda, um pouco mais atrás, fora de seu ângulo de visão.

No meio da gesticulação, Messias sacou um punhal. Quando Luizão se deu conta, a lâmina já havia penetrado a parede lateral de seu tórax e, em movimentos de vaivém, perfurara o intestino quatro vezes.

O diretor de Disciplina não caiu. Receberia, então, o golpe de misericórdia, se não tivesse conseguido apará-lo com o antebraço.

Sem dar tempo para nova investida, jogou o corpanzil contra o agressor, que recuou, desequilibrado com o impacto, até se chocar contra a parede, no fundo da sala. Na tentativa de ajudar o auxiliar ferido, dr. Javert puxou Messias pelo braço desarmado, mas escorregou, caiu e arrastou os dois contendores para o chão. Sem afrouxar a mão que empunhava o punhal ensanguentado, Luizão prensou o agressor contra a parede, mas não conseguia tomar-lhe a arma.

Agarrados um ao outro, os três ficaram imobilizados até que o diretor de Disciplina, sentindo-se enfraquecido pela hemorragia, reuniu todas as forças e bateu a mão de Messias contra o solo com tanta violência que o punhal voou longe, para perto de Vanico, que o apanhou do chão e ameaçou investir contra Luizão, agora dominando o Empreiteiro de Cristo com uma “gravata” aplicada com o braço direito.

Ainda caído, dr. Javert berrou para que o nordestino largasse da arma, imediatamente. Vanico hesitou por alguns segundos, antes de sair correndo e abandonar o comparsa espremido contra a parede, quase sufocado pela gravata impiedosa.

Quando os colegas chegaram para ver o que acontecia, Luizão ficou em pé, com a visão turva. Tinha a camisa tingida pelo sangue que escorria até as botas, um corte profundo no braço que aparara o segundo golpe e uma dor aguda no abdômen apunhalado. Apesar da pleura e do diafragma perfurados, as dores no tórax eram ofuscadas pelas das vísceras abdominais.

Respirando com dificuldade, o ferido conseguiu andar até a caminhonete estacionada em frente ao Instituto. Com o dr. Javert ao volante e Messias algemado com as mãos para trás entre os dois, um foi levado à Santa Casa e o outro à delegacia local.

Prestes a perder os sentidos, Luizão ainda subiu as escadas de acesso à sala de atendimento, de onde foi transportado para o centro cirúrgico. Pelo visor, dr. Javert acompanhou a cirurgia até passar mal ao ver os intestinos do amigo serem puxados para fora.

O pós-operatório foi tormentoso, chegaram a chamar um padre para a extrema-unção. Teria morrido nesse período, não fosse a dedicação dos presos que vinham da Colônia Penal para doar-lhe sangue quando surgiram complicações hemorrágicas e cuidar dia e noite para que nada faltasse a ele. Não o deixaram sozinho um minuto durante os trinta dias de internação hospitalar; davam-lhe banho quando a febre não baixava e até comida na boca.

Depois da alta voltou à casa em que morava com a esposa e os filhos, nas dependências do Instituto Agrícola. Ainda em convalescença, dava os primeiros passos pelas redondezas, quando um preso mais velho fez um comentário a respeito do suposto bom comportamento de Messias que lhe serviu de lição pelo resto da vida:

— Chefe, ninguém faz trança em rabo de burro bravo, o que mata é o coice de burro manso.