Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 17 de 36

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Carcereiros

Solidariedade

 

A solidariedade entre carcereiros é comparável à dos soldados em guerra. Como no caso dos militares nas trincheiras, a vida do guarda de presídio está nas mãos do companheiro de trabalho: uma palavra mal colocada, um passo em falso, uma simples distração podem comprometer a integridade física de todos.

Cumprir o expediente em contato direto com homens enjaulados não é uma profissão qualquer, exige equilíbrio psicológico, perspicácia, sabedoria, capacidade de discernimento, astúcia e atenção permanente. Como saber quando alguém será executado? Em que momento o estopim dará início à rebelião? De que forma identificar na massa o prisioneiro ensandecido que tentará desfechar a punhalada pelas costas? Mesmo no ônibus de volta para casa ou no passeio com a família, a possibilidade do ataque inesperado está presente.

No passado, quando a indisciplina era punida com castigos físicos, o agente vivia mais inseguro ainda.

— Bastava alguém olhar para a gente no meio da rua para tirar a tranquilidade.

Ao comentar o assassinato de um diretor de presídio que teria esbofeteado um preso, prática considerada altamente ofensiva pela bandidagem, Guilherme Rodrigues, homem experiente, que hoje dirige uma das quatro unidades do Cadeião de Pinheiros, situado na marginal do rio Pinheiros, próximo à saída para a rodovia Castelo Branco, disse:

— Quem bate esquece da fisionomia do outro, quem apanhou na cara vai lembrar pelo resto da vida.

Do novato ao mais experiente, todos convivem com a tensão que se instala ao ouvir o baque de ferro do portão de entrada quando se fecha. A partir dali, deixam de ser cidadãos do mundo livre, passam a conviver com uma comunidade formada por assaltantes, sequestradores, ladrões, estelionatários e assassinos, que preza valores estranhos aos do mundo civilizado e impõe leis draconianas, segundo as quais a vida humana é moeda de pouca valia.

Os marginais que vivem no crime aprendem a desconfiar de tudo e de todos, a lidar com os fatos e não com as palavras, a usar a mentira como estratégia de sobrevivência, a respeitar apenas a lei do cão, a aceitar com naturalidade a traição bem-sucedida, o assassinato de inocentes, o abuso de poder e a destruição do mais fraco, a obter vantagens pessoais em detrimento dos semelhantes e a conviver com execuções sumárias como se fossem medidas necessárias para manter a ordem social.

De alguma forma, o agente penitenciário é contaminado por esses valores. Logo cedo aprende a desacreditar, a suspeitar de complôs existentes ou imaginários, a ir atrás de explicações lógicas para acontecimentos obscuros, a buscar sentido nas atitudes e nos gestos mais insignificantes. Comportam-se como montadores de quebra-cabeças a encaixar as peças que se ajustam, sem perder de vista o formato das que estão soltas.

A desconfiança, como ferramenta de trabalho, é a única forma de antecipar-se às explosões de violência que eclodem com periodicidade aleatória. Ao ser repreendido pelo dr. Carlos Jardim, meu colega de consultório, por não haver tomado os medicamentos prescritos, Luizão, ex-diretor da Penitenciária e da Detenção, justificou-se:

— Doutor Jardim, vivi no meio de bandido a vida inteira; assisti às maiores atrocidades. No fundo, acho que não consigo confiar em mais ninguém, nem nos médicos nem nos remédios.

O agente penitenciário é proibido de sair das dependências da cadeia durante o expediente. No passado, na Penitenciária e na Detenção tinham que permanecer em pé enquanto estivessem de guarda; quando surpreendidos sentados ou encostados na parede, eram repreendidos e ficavam sujeitos a sanções administrativas. Apanhado com as mãos nos bolsos, Rafael, agente aposentado, ainda se lembra da descompostura pública que tomou do Coronel, diretor-geral da Detenção na época dos governos militares:

— Moço, você está aqui para vigiar a entrada do pavilhão. Tenha a compostura de servidor público, você não é um vagabundo de esquina.

É evidente que nas oito horas diárias e nos plantões noturnos em dias alternados, durante anos consecutivos, a aparência do agente em serviço é de tranquilidade absoluta: conversam uns com os outros, riem, contam casos, ajudam os presos a cumprir a rotina de limpeza das galerias, distribuição das refeições e execução de pequenos reparos; comportam-se como se estivessem em ambiente familiar. De um momento para outro, porém, um som inusitado, uma voz mais alta, alguém que passa apressado ou um objeto que cai é o suficiente para se calarem e ficarem alertas, como os cachorros sonolentos que levantam as orelhas ao menor ruído no quintal.

Não é o barulho que os deixa mais estressados, entretanto:

— Quando tudo está em silêncio, alguma tragédia vai acontecer. Vão matar alguém, executar um plano de fuga, começar uma rebelião.

Nessas ocasiões ficam agitados, apreensivos, cochicham entre si em linguagem cifrada, procuram manter-se próximos dos colegas e tomar medidas de precaução. Os que já foram sequestrados ou enfrentaram levantes consideram os momentos que antecedem as explosões de violência mais assustadores do que a crise deflagrada por elas.

Enfrentei algumas dessas horas em que o silêncio é absoluto. Quem disser que não sente medo é mentiroso. A iminência de um ataque é mais assustadora do que seu desfecho, porque as fantasias humanas não reconhecem limites nem respeitam a racionalidade, como descreveu na véspera da sexta cirurgia um paciente que tratei de câncer no início da minha carreira:

— Eu tinha nove anos. Quando as sirenes anunciavam os bombardeios noturnos em Paris, minha mãe e eu descíamos para o abrigo no porão do prédio. Eu me agarrava a ela, chorava e tremia até a explosão da primeira bomba. Ao ouvir o estrondo, o pavor acabava.

Enxergar perigo nas situações corriqueiras não é manifestação de paranoia persecutória, perder a vida no exercício da função faz parte da rotina. Quando se lembram de um colega assassinado, não demonstram revolta, fazem-no com a resignação de quem descreve uma fatalidade à qual todos estão sujeitos:

— Você entra de manhã achando que vai sair, mas certeza quem pode ter?

Uma vez, um grupo de presos sequestrou um caminhão de lixo estacionado na Divineia, o pátio interno da Detenção, para com ele forçar e arrebentar os portões de saída. Atrás do veículo, como os soldados atrás dos tanques nos filmes de guerra, os detentos aproveitariam a oportunidade para ganhar a avenida Cruzeiro do Sul. Ao perceber a manobra, seu Zezinho, funcionário de cabelos brancos tão zeloso quanto cordial, que guardava o primeiro dos portões, apressou-se em passar o cadeado entre as grades para impedir a passagem. Foi esmagado contra a parede.

O caminhão ainda conseguiu arrebentar o portão seguinte, antes de entalar no portão de entrada, de ferro maciço. Seus ocupantes foram metralhados.

A lembrança de casos como esse explica os rituais dos funcionários ao chegar na cadeia. É comum persignarem-se na Portaria, jamais entrar com o pé esquerdo, ir direto tocar o manto azul da imagem de Nossa Senhora Aparecida, figura obrigatória nos nichos das paredes de entrada dos pavilhões. É curioso ver homens que dominaram com as mãos inimigos armados, corpulentos, capazes de dialogar com autoridade sob a ameaça de facas e estiletes, dar um beijinho na ponta dos dedos que tocaram o manto da santa.

É pouco provável que em outras cadeias a generosidade de pôr a vida em risco para salvar a do companheiro tenha sido manifestada em tantas ocasiões quanto na Penitenciária do Estado e no Carandiru. Bastava um funcionário ser ameaçado de morte ou cair nas mãos de presos amotinados para todos correrem em seu socorro. Não lhes interessava em qual dos dois presídios o companheiro trabalhava; muitos voltavam de casa para ajudar.

Mavi, que foi chefe do pavilhão Quatro, do qual fazia parte a enfermaria onde atendíamos os internados com aids e tuberculose no auge da epidemia, fase em que ocorriam três ou quatro mortes por semana, fala com saudades daquele tempo:

— Não era como hoje, que o funcionário corre do tumulto. No dia a dia a gente podia se desentender, falar mal do outro, não ir com a cara dele, mas na hora do perigo chegávamos juntos. Éramos nós na fita, para o que Deus desse e o diabo mandasse.

As provações diabólicas muitas vezes chegam sob a forma de um revólver. Nada depõe tanto contra o agente penitenciário como contrabandear uma arma de fogo para dentro da cadeia. Vi um funcionário acusado desse tipo de contravenção ser espancado pelos colegas com a justificativa de que:

— Colocam em perigo a vida de todos. São traidores que não merecem a menor consideração.

Viver em estado de alerta cria um clima de estresse generalizado que é inerente à atividade profissional. A necessidade de complementar o salário como segurança de lojas, supermercados, casas lotéricas, cassinos clandestinos e inferninhos aumenta sobremaneira a carga de trabalho, priva-os do sono regular, do lazer dos dias de folga, afasta-os do lar e do convívio com a família, e dá origem aos desacertos que explicam o grande número de casamentos desfeitos.

Para aliviar as tensões causadas pelo risco de perder a vida no trabalho, pela dificuldade crônica de equilibrar o orçamento doméstico e pelas reclamações da esposa carente de atenção, o agente penitenciário conta com duas válvulas de escape: a mulher e a cachaça.