Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 103 de 138

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Claridades do Sul

*Nova Ballada do Rei de Thule*

N'um paiz nada visinho…

Em Thule até mui distante,

Houve outr'ora um rei farçante,

Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel

Mimosa e cheia de graça,

Morreu, deixou-lhe uma taça

Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza

Da taça que nada iguala!

—Ficava sempre ao esgotal-a,

El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,

De noute, até horas mortas,

Folgava, as pernas já tortas,

Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,

Na sua mais alta torre,

Pensando em que tudo morre,

Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga

Legava a todos dinheiro,

E a seu filho e seu herdeiro

Seu reino, seu povo… e a adega.

Da sua amisade em prova

A todos dava uma graça,

Só aquella enorme taça

Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões,

Fez juntar para uma orgia,

N'uma sala, onde dormia

As suas indigestões.

E ali, depois de libar…

Passados curtos momentos,

Começou a vêr, aos ventos,

Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé,

De taça em punho, á janella,

Mas n'isto, tropeça… e ella

Vae levada da maré…

E afunda-se… mas tal revéz

Tomba o rei morto de magoa!

—Era esta a primeira vez

Que a taça se enchia d'agua! *PHANTAZIA D'UM ABORRECIDO*