Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 96 de 138

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Claridades do Sul

*A Sua Camara*[2]

 

No ar calado e bom da camara fechada,

Como um ninho d'amor, casto e silencioso, Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso, N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle; Algumas flores vão morrer nas jarras finas, —Elle sereno vê, nas rendas das cortinas, Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello, No seu vaso de jaspe, entre as demais existe, —Como um rei infeliz n'um ultimo castello, Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal,

Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua! —Mysteriosa flor!—que caprixosa magoa O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol—a luz vermelha viva? O sol que vae morrer—o bello agonisante!

Talvez que chore a lua—a lua pensativa!

Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão—olympica, divina, A mão macia, ideal—traidora—que o colheu? Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens, Á bondade da luz—ás noutes meigas bellas, Exilado do sol, e orphão das paisagens,

O cravo virginal—viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa

A ninguem o dirá seu calix pensativo,

E a morrer—morrerá, calado, firme, altivo, E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

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Lá fora morre o sol, como um desgosto humano, Voam aromas bons no ar quente e calado; Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado, Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes estão, nas preciosas telas,

Pintados menestreis, pastoras e guitarras, Debruçam-se os jasmins nas grades das janellas, E os lyrios, como uns ais, morrem nas finas jarras. *HORA MYSTICA*

Tudo agonisa ao pé, n'aquella solidão!…

—Solidão de mulher distincta e perfumada! Cuja pelle é talvez mais fina que a pomada, E as farinhas d'Italia e as sedas do Industão!…

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Tudo agonisa ao pé,—só elle altivo e bello, No seu vaso de jaspe entre as demais existe, Como um rei infeliz n'um ultimo castello,

Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa,

—A noiva a dona d'elle, occulta uma outra magua No morto coração, mais morto que uma rosa, E do que elle amanhã na sua jarra d'agua!