Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 113 de 138

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Claridades do Sul

*Humorismo Mystico*

 

(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)

 

Quando eu morrer, se acaso inda presares Aquellas nossas digressões antigas

Ao verde campo, e as joviaes cantigas

Da aldeia inda apagar os teus pezares…

Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,

A larangeira e o grande muro branco…

Te lembram… e te vaes sentar no banco

Ás tardes… junto ás tilias do caminho!…

Se, acaso, aquelle nome solitario

Que eu fui gravar um dia no pinheiro,

Vinha descendo o sol… como um guerreiro Cheio de sangue… atraz do campanhário…

Se, acaso, aquelle nome o tronco duro

Inda o guardou fiel!… e a larangeira!…

E eu não passei por este val escuro

Como uma ave lugubre e estrangeira!…

Se acaso inda te lembra d'esse, a quem

Tanta vez tu vestiste com as tranças!…

E á cova em que eu jazer vier alguem… Sem ser as meigas pombas e as creanças!…

Se acaso aquelle fogo em que te abrasas Inda não se apagou!… nem o encanto!… —Mais que a ideal palpitação das azas,

Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!

E n'essa cova então bella e dourada,

—Como a nossa união antiga e calma!

Colhe tu uma flor branca e raiada…

—Que n'essa flor te enviarei minha alma!

Toma cuidado n'ella… Ali se encerra

O que amaste!… e, ah! não vás como as mulheres Curiosas d'amor, lançando á terra

As folhas virginaes dos malmequeres!…

Planta-a dentro d'um vaso predilecto…

Entre os outros, á luz… sobre a sacada… E eu gosarei como um praser secreto,

Sentindo a tua mão pequena e amada!…

Será esse o meu goso derradeiro!…

O meu sol, meu azul, o meu espaço!…

E ao sentir-me regar pelo teu braço…

Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro…

Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,

A larangeira e o grade muro branco…

—E quando iamos fallar no velho banco,

Ás tardes… junto ás tilias do caminho!