Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 50 de 138

Páginas do PDF

Claridades do Sul

*Tarde de Verão*

Trepam-lhe pelas janellas

Jasmins, cheirosas serpentes,

E soltam-se as bambinellas

Em pregas indifferentes.

Os lyrios que são uns ais

Suspiram melancholias;

Riem quadros sensuaes

Nas largas tapeçarias.

Satyro ri nas florestas

Niobe soluça magoas,

E escuta-se entre as giestas

A voz rythmica das agoas.

E á luz dubia dos occasos

Ensanguentados do Sul

As camelias dos seus vasos

Olham voltadas o azul.

Lá dentro das gelosias

Volteiam como desejos, Perfumes, melancholias,

Como saudades de beijos.

Jaz ao pé do seu bordado

Um cofre de filigrana,

E um mandarim espantado

Com olhos de procelana.

Uma violeta esfolhada

Chora um amor n'um jardim.

Uma vareta quebrada

Ri n'um leque de marfim.

Nadam no quarto perfumes

D'oleos, pomadas cheirosas,

Um collar mostra os seus lumes;

Voam aves gloriosas

N'um album perto olvidado

Ha uns idyllios d'amores,

E ao pé d'um Christo chagado

Morrem nas jarras flores.

Mas, pasmada alheia a tudo

Junto d'um missal já velho,

Uma masc'ra de velludo

Olha idiota no espelho.

Olhos vasios d'espanto,

Olha, olha, nada vê,

Ri-se uma Venus a um canto,

E um cravo murcha-lhe ao pé. *NA CABECEIRA D'UM LEITO*

…………………………………… …………………………………… …………………………………… ……………………………………

Assim eu sou moço velho,

E em minha alma, ó minha amada!

Como a masc'ra no espelho

Eu olho e não vejo… nada!