Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 67 de 138

Páginas do PDF

Claridades do Sul

*O Selvagem*

 

A Silva Qinto

 

Eu não amo ninguem. Tambem no mundo Ninguem por mim o peito bater sente,

Ninguem entende meu sofrer profundo,

E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,

Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas, Selvagem, solitario, inerte e mudo,

—Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado

Sinto em mim o despreso do Futuro,

E vivo só commigo, amortalhado

N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras

Regiões dos crueis indifferentes,

Meu peito é um covil, onde, ás escuras,

Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente

Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,

Quando ninguem me espreita, nem me sente, E, em lamentos, os cães ladram á lua…