Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 16 de 138

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Claridades do Sul

*A Terra*

 

Fecundarás a terra com o suor do teu rosto.

 

Cavae, eternamente, a velha terra!

Soffrei, suae, gemei na dura enxada,

Fecundae-a na paz ou pela guerra,

Quer seja pelo arado ou pella Espada,

Ó Homem! trabalhar é tua herança

Até que a Morte, emfim, grite—descança!

É a Arvore a tua companheira

O lar, a tenda, a sombra de teus passos,

Da tua amante a perfumada esteira,

Como bençãos t'estende os longos braços!

E ou seja em teu inverno, ou teu estio,

E teu berço, teu leito, e teu navio!

É preciso que as lagrimas que correm

Façam crescer dos cardos os trigaes, E por cima dos corpos dos que morrem

Se ergam verdes loureiros triumphaes!

É preciso que em paz ou pela Guerra,

Com pranto, ou sangue se fecunde a Terra!

É preciso caval-a!—nos teus braços

Luza a enxada ou o gladio de destroços!

A vida é curta—e breves nossos passos, E as flores vivem, crescem sobre os ossos!

E o berço não é mais, ó creatura!

Que a linha d'união á sepultura!

É preciso que a Morte, a dôr e os lutos

Se transformem em vinhas ostentosas,

Nossos prantos convertam-se nos fructos, Do sangue dos heroes tinjam-se as rosas!

Soffrei, lutae, morrei, ó infelizes!

—O vosso sangue é util ás raizes!