Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 75 de 138

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Claridades do Sul

*Quadra D'um Desconhecido*

Eu morrerei, ó languida trigueira!

Sem sentir teus cabellos sobre mim,

Coroado dos lumes da poncheira,

Sobre o chão immoral d'um botequim!

*EM VIAGEM*

 

Ia o vapôr singrando velozmente

O verde mar antígo e caprixoso,

Á rude voz do capitão Contente,— Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira,—a ilha bella,

A patria excelsa e celebre do vinho,

A viagem foi curta; e no caminho

Intentei relações com Arabella.

Arabella era a lyrica ingleza,

Loura, pallida e fragil como um vime,

Que traz sempre a sua alma meiga presa D'algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d'esses amores,

Era um rubro e excentrico burguez,

Mais amigo do bife que das flores,

—A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traiçoeiro

Tinha visões de sangue derramado Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro, —Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo;—

Vogava ás vezes só no tombadilho,

Com um comprido e merencorio filho,

E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, ás vezes, no mar o olhar sombrio; E ao vento, a fita branca do chapeu

Dir-se-hia a vella triste d'um navio

De naufragos, n'um lugubre escarceu!

—Mas comtudo, a ingleza, a triste amante Com seus longos e louros caracoes,

Fitava ás vezes no azul distante,

Seus olhos divinaes como dous soes.

E, mau grado andar languida, doente,

Ser branca, loura, e fragil como um vime… —Um sabio lêra-lhe a attracção ardente

Pelas virís fascinações do crime.