Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 104 de 138

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Claridades do Sul

*Phantazia D'um Aborrecido*

Eu vivo só das multidões distante,

E tenho um tom solemne grave e emphatico, Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante,

Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso,

E tenho uns paradoxos meus protervos… E entre elles conto um livro volumoso…

Em que explico o Remorso pelos nervos.

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Ás vezes vou pensando, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes!

Que has de ainda, entre as plantas verde-negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braços lisos, indolentes,

Hão de os vermes travar a escura guerra, Hão de infundir pavor, inda, esses dentes, E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meterá assombros

—Ó tu que fazes rastejar as lyras!

E serão ossos nús teus lisos hombros,

Costumados ás leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas, E eu estou fumando ás portas dos cafés, E que insultas as lepras e as desgraças,

Coberta de velludos e plaquets!

E eu penso ó corpo esculptural, perfeito!

Ó corpo de Phryné cheio de graça!

Que has de ainda ser putrido e desfeito,

E tomar-te azotato de potassa!

E não terás então, ó minha impura!

Serenadas debaixo das janellas,

E escondida no pó da sepultura

Terás medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos,

Inclinada e indolente sobre o braço,

Comtemplavas com olhos cubiçosos,

As contorsões e saltos d'um palhaço.

E eu suffocando dentro os meus anhelos, Soluçava d'amor, ó crua filha,

E exaltava-me o olor dos teus cabellos,

Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me, ó tranças negras! Ó cansados, mortaes olhos celestes!

Quando fores, nas plantas verde negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu botão d'um dia!

Açucena que puz no peito o abrir!

Farei da tua tez fina e macia

Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trança azevichada

Um cachenez, por causa dos catarros E será no teu craneo, ó minha amada!

Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas

Que enganarão as brancas borboletas!

E teus olhos, em jarras preciosas,

Olharão, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque

Porei sempre que saia de passeio…

E mandarei fazer um almanak

Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto

Com tuas longas cartas de namoro…

E ali passearei de illusões farto,

Como o avaro no meio do seu ouro!

E então tu serás minha, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes!

Quando fores, nas plantas verdes negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes! *EL DESDICHADO*