Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 108 de 138

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Claridades do Sul

*A Biographia de Satan*

 

Fragmento

 

Eu vou contar a grande lenda escura

Do fulminado tragico da Luz!

Seu antigo esplendor e sorte dura

Quando andava entre os povos da Escriptura, E comprava os juizes de Jesus.

Elle é o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado,

E sómente Satan é um pseudonymo;

É o auctor do Remorso e do Peccado,

O morcego da Biblia, e o cão damnado

Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte, Fez a guerra dos astros contra Deus;

Tem-lhe sido incostante e varia a sorte!

—Andava roto e pobre por Francfort

Nos bairos tortuosos dos Judeus.

Ó anjo expulso, triste e escarnecido,

Que foste mais fulgente do que o dia!

Deus adorado em Delphos e em Gnido!

Ah quem mais do que tu terá soffrido,

E teve essa ideal melancolia!

Já Vier contra ti perdendo o tino,

Fez dos seus crús pamphletos um açoute; Fez-te sonetos, lubricos o Aretino,

E S. Thomaz contou o teu destino,

E as aventuras célebres da noute.

Quem dirá os espinhos que cingiste!

Quem pesará teu calix de agonias!

E quantos longos seculos carpiste

Aquella luz que cae maguada e triste,

Ó grão crucificado d'ironias!

Eu sei que hoje estás morto ou retirado,

Ó corvo escuro e mau do firmamento!

E que andavas no mundo envergonhado, Já doentio e calvo, e desdentado,

E que era o teu catarrho a voz do vento!

Tu foste sabio, confessor e medico

Nos tempos, legendarios, medivaes…

Tu eras visionario, vão, prophetico…

E o mocho que adejava escuro e tétrico

Nos conventos, egrejas, cathedraes…

Eu sei que foste tu que, um dia, impuro,

Tentaste a castidade de Rachel!

Em Delphos desvendavas o futuro…

E cheio d'um pavor tragico e escuro,

Deixaste envenenar-te Daniel.

Em Sodoma, na noute derradeira,

Tentas as filhas sensuaes de Loth!

Fazes de Roma toda uma fogueira!…

E és tu mesmo que escolhes a figueira

A Judas, natural d'Iscarioth.

Foi elle que abrasou na carne, um dia, A tribu sensual de Benjamin!

Prégou na cathedral d'Alexandria;

Era pae d'um senhor de Normandia…

Foi amigo de Nero e de Cain.

Ia tentar o asceta á sua cella

Nos claustros escuros do Occidente;—

Aos Magos escondeu nos céus a Estrella… E andava disfarçado em sentinella

Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.

Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos… E era elle, o que andava entre as pelejas!… Corrompeu os conselhos areopágicos;

E fazia roubar pelos seus magicos

As hostias consagradas nas egrejas.

Fazia distrair a S. Clemente

Com a bulha invisivel de corceis;

E era elle, nas horas do poente, Quem apagava as luzes, de repente,

Quando oravam nos templos os fieis.

Tomava, ás vezes ordens e a tonsura…

E benzia as prostradas povoações;—

Fazia a voz então austera e dura,

Explicava os segredos da Escriptura,

E cantava entre as lentas procissões…

Dava n'um tom dogmatico uma idéa,

E vinha discutir com S. Thomaz;

Iniciava os sábios da Chaldêa,

E nos biblicos tempos da Judea

Andava a intrigar Christo com Caiphaz.

Tem no rosto o descor d'um fulminado;

—Era mulher nas lendas monacaes;

Outras vezes gigante e corcovado,

E vagava no mundo disfarçado,

Como os deuses nas formas d'animaes.

Nas regiões serenas, luminosas,

Encontram-se inda os seus lucidos rastros?… Ó constellações felizes, piedosas…

Inda, ás noites, choraes silenciosas

A grande lucta biblica dos astros?…

Nasceu nas doces, puras regiões?…

—Ah quem onde dirá nasceu Satan?!…

—Nasceu entre as demais constellações? —Commandava as flammantes legiões?… E seria seu pae Leviathan?…

N'esse tempo do exilio as penas mestas

Jupiter não soffrera inda proscrito;

Apis não inventára suas festas…

Não errava inda Pan pelas florestas,

E não ladrava Anubis no Egypto.

Pára aqui, n'este ponto, a humana vista!… —Quem sabe se do velho Cahos nasceu?… Só quando contra Deus a lança enrista,

É que segundo, o eleito, o Evangelista…

Não se acha mais o seu lugar no Ceu?…