Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 76 de 138

Páginas do PDF

Claridades do Sul

*Noutes de Chuva*

 

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças! Se tu amas no Outomno—já sem rosas!— A longa e lenta chuva nas vidraças,

E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que—visionarios— Temos chymeras misticas, celestes,

E scismamos nos pobres solitarios

Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,

As chymeras, e as horas infelizes,

Os velhos casos tristes olvidados,—

E os mortos corações sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito Cae o frio granizo nas estradas,

E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,

Ouvir a longa chuva nas calçadas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,

Todas cheias d'aromas outonaes, Que a tristeza tem formas monstruosas

Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes só em que o sabio acha prazeres, —Tão ignorados dos crueis profanos!—

E em que as nervosas, mysticas mulheres, Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem! é que os poetas Tem ás vezes seus sonhos mais brilhantes, Folheam suas obras predilectas…

—E evocam rostos… e visões distantes!