Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 8 de 138

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Claridades do Sul

*Mysticismo Humano*

Sunt lacrimae rerum…

(Virgilio)

 

A alma é como a noute escura, immensa e azul, Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul, Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras Que cantam ao luar, á noute pelas eiras… Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita,

E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita… E como a folha morta em lagos somnolentos As nossas illusões vão-se nos desalentos!

Tem um poder immenso as Cousas na tristeza! Homem! conheces tu o que é a natureza?… —É tudo o que nos cerca—é o azul, o escuro, É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro, A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos, É a floresta espessa esguedelhada aos ventos; Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos, Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!…

—E os que viram passar serenos os seus dias… E curvados se vão, ás longas ventanias,

Cheio o peito de sol, atravez das florestas, Á calma do meio dia… e dormiam as sestas, Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas… Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas, Outra vez sob o Sol—a sua eterna crença!— Em fructos resurgir á natureza immensa,

E, aos beijos do luar, descansarem felizes, Da bem amada ao pé, no meio das raizes!

Morrer é livramento! oh deve saber bem

Sentir-se dilatar na Natureza mãe!

Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra, A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra! Estremecer na encosta ás nocturnas geadas, E recortar o azul das noutes constelladas!

Oh pelo claro azul d'essas noites serenas, Que o segador trigueiro entôa as cantilenas, Tristes como a lua e o espinho dos martyrios, E que atravez do azul parecem cair lyrios!… Quando a brisa levanta as folhas indiscretas, Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas… E a Natureza tem como um sabor de beijos, Que obriga a soluçar a alma de desejos!…

Que segredos dirão nas brisas mensageiras, Á doçura da lua, a flor das larangeiras,

O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes, Que foram já, talvez, seios fortes e amantes, E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes, Conversam sobre o amor e os gosos ideaes Do tempo, que a fallar corriam breve as horas, Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras, E debaixo do Ceu teciam longas danças, Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!…

No lago somnolento a flor do nenuphar

Talvez é um coração que abre para chorar! O lyrio um seio bom,—e as violetas curvadas São os olhos talvez das doces bem amadas!…

Feliz o semeador que vive entre os arados, O campo, os lentos bois, longe dos povoados, Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros, Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros, E quando á noute finda os suarentos trabalhos, Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos, Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola, E descanta chorando á noute na viola!…

E os que andam pelo mar, alegres e contentes, Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes, Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus, Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus, Hombro a hombro o abysmo,—abysmo sempre aos pés, Que dormem á poesia, á lua das marés,

E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos, Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!

Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus, Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus, E que inda a fronte mal me obscureça a magoa, Como espelhos d'amor já sejam rasos d'agua!… Sósinho passarei, e não irei jámais,

Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes; De inverno não terei os consollos do lar,

Nem do estio a doçura immensa do luar;

Meus filhos não irão jámais colher os ninhos; Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!