Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 2 de 138

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Claridades do Sul

Hymno ao Sol

PRIMEIRA PARTE

 

INSPIRAÇÕES DO SOL

HYMNO AO SOL

 

Vous prêtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre corps: «votre tonsure» est le disque du «soleil,» votre «étole» est son zodiaque, vos «chapelets» sont l'embléme des astres et des planétes.

VOLNEY (LES RUINES)

 

Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo!

(Tão pontual ha tantos centos d'annos)

Mais reluzente que um broquel antigo,

Mais dourado que sceptros de tyranos;

Avé, heroica luz! viva e sonora,

Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas, As florestas extensas dão gemidos,

E o duro mar se chora!

Eu te saudo, ó astro das batalhas!…

Por que atravez das cruas dissenções,

Douras o pó que se ergue das mortalhas. E levantas os nossos corações!

E por isso, ainda hoje, e eternamente, Os romanticos te hão de a ti saudar,

—E os tristes sempre irão, á luz poente,

Ver-te morrer no mar!

Tu és a Voz; a Côr; as Harmonias Accordam com as tuas claridades;

És quem benze as aldeias e as cidades,

E quem fases cantar as cotovias;

És quem inspira extranhas theorias,

És forte, são, consolador e bom!

Tem a lua silencios e elegias;

—Mas tu a Côr e o Som!

Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!…

Eterno confessôr de madrigaes,

Que desgellas os densos nevoeiros,

Que alegras as sonoras capitaes;

Que dás valor nos campos marciaes,

E força e amor aos aldeões trigueiros,

E que incitas os tigres carniceiros

A beber nos caudaes!

Desde a Chaldea ás tristes solidões,

Tens tido cultos, templos levantados,

E velhos ritos barbaros sagrados,

E alegres, sensuaes religiões!…

Tu foste Mithras, nome cabalistico, Baal, Agni, Apollo (invocações) —E hoje Christo—teu nome occulto e mystico—

Fere inda os corações!

Quem contará, ó luz, tuas bondades?…

E o amor no qual o coração abrasas,

E as tuas funeraes solemnidades

Á ideal palpitação das azas?…

Quem nos livra das flexas do pecado?

Quem faz na intima terra o diamante?

Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado,

E a idea extravagante?

Ave! pois, asto caro dos valentes…

Da Força, Vida, Gloria, da Paixão,

A flexa d'ouro aos corações ardentes,

Astro amigo das lutas e da Acção!

Ave! e em dias crús d'expiação

Vae, e beija—nas hervas relusentes—

Os que morrem, vencidos combatentes,

—A espada inda na mão!