Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 44 de 138

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Claridades do Sul

*A Sesta do Senhor Gloria*

 

É no fim do jantar. Deram tres horas

No bom relogio antigo dos avós,

E o senhor Gloria pega n'uma noz

Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada

E o estuque cheio d'aves, de paysagens, De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens, Tem uma forma antiga e recatada.

D'involta com seus goles de Madeira

A senhora digere o seu café;

E ao lado, um filho rubido de pé

Parece um pregador sobre a cadeira.

No collo da matrona dorme um gato

No melhor somno commodo do mundo,

Em quanto em baixo um cão grave e profundo, Contempla uns restos que inda estão n'um prato.

O senhor Gloria falla, chocarreiro,

Do seu cunhado Aleixo de Miranda;

Lá fóra, um papagaio n'um poleiro

Diz cousas aos burguezes, da varanda.

Com um ar meio comico e boçal

Um sisudo creado atraz, de pé,

De vez em quando falla menos mal;

—O senhor Gloria aspira o seu café

Muito tempo assim ficam n'esse estado

De santa somnolencia e beatitude,

Mais que assás conhecido da Virtude

Quando tem digerido e bem jantado.

No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes, Contempla na parede os bons pastores,

Confidentes fieis dos seus amores,

—Que outrora hão já sorrido aos seus parentes

Duas pastoras fallam com poesia

N'uma vereda d'alamos annosos,—

E isto accorda-lhe os tempos virtuosos

Que a hora do jantar era ao meio dia!

Bellos tempos—pensa elle—de virtude!

De gloria, amor, coragem, fé ardente,

De longas procissões, e de saude,

De singelesa e paz—vida contente!

E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro

Deita a cabeça, de pensar prostrado;

—O papagaio ri no seu poleiro,

—E a senhora sorri para o criado.