Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 64 de 138

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Claridades do Sul

*Falstaff Moderno*

In vino veritas

 

Quando eu morrer, ninguem lerá no craneo

Se eu fui mouro ou judeu,

Se presava o cognac ou o Madeira,

Que soffrer foi o meu!

Ninguem dirá se era trigueiro ou louro,

Se eu fui Pope ou Camões,

E os sabios não dirão, coçando a calva,

A côr dos meus calções.

Não saberão dizer se foi a pipa

O hotel em que vivi,

E se fazia sol ou aguaceiros

No dia em que nasci.

Se, apoz a douda orgia, o meu enterro

Pela manhã, sair,

Tu virás á janella bocejando,

E em coifa de dormir.

E não conseguirás verter um pranto

Do terno teu setim,

Em quanto os gordos padres irão lentos,

Ressonando em latim!

Os annos jogarão com os mais craneos

E o meu magro esqueleto

Uma especie de jogo das caveiras

Dos coveiros d'Hamleto!

Ninguem, mulher, dirá que funda magoa

Minou meu coração!

E eu mandarei pôr, por epitaphio!

—Maldita indigestão!—

Mas que ideas tão negras! O que importa

Rôa a terra mais um!

Depois da morte! o nada. Ó minhas lagrimas

Não me estragueis o rhum!