Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 40 de 138

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Claridades do Sul

*Na Taberna*

 

A João de Deus

 

Vejo apontar o hynverno…

os crepitantes frios

Me açoutam as vidraças…

(Francisco Manoel)

 

Alguns dormem nas mezas, debruçados, Junto aos restos de um vinho já bebido;

—Outros contam seus casos desgraçados.—

Um d'elles alto, magro, mal vestido,

Conta historias d'amor, lançando fumo

D'um cachimbo de gesso ennegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo

Sobre os hombros, e um calvo, e já vermelho Faz das suas miserias um resumo.

Depois conta que o pae ethico e velho

Lhe está para morrer; lastima a vida;

E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa é escura, velha, ennegrecida

Do fumo. Noute velha, ouve-se o vento

Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento

Tem quebrantado muito aquellas frontes, E em muitos esmagado o pensamento.

N'alguns extinguido, mesmo, as fontes

Da justiça e do bem; e feito errar

No mundo, como os lobos pelos montes.

E o egoismo dos filhos e do Lar

Banido o dó das lastimas estranhas;

E tornado-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas, Outros o rio tem por seu visinho;

E com a Fome travam más campanhas.

E—todos—tem o ar triste e mesquinho,

Dos que vão sem prazer, habituados,

Como a um somno que tira maus cuidados,

Beber as suas lagrimas com vinho.