Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 93 de 138

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Claridades do Sul

*A uma Andorinha*

 

Nas brisas da tardinha

Pára teu vôo um pouco;

Ouve um poeta, um louco,

—Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos;

Attende as vãs loucuras,

—Tambem nas sepulturas

Vôam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo

Quaes flexas vão cortando,

—Tambem riem, voando,

No chão do cemiterio!

Lavam os pés rosados

Nas urnas funeraes;

—Tu, mesmo, nos telhados

Moras das cathedraes!

Não fujas d'um poeta,

Que ha nuvens mais sombrias!

—Tu já moraste uns dias

No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras

A primavera e o Sul,

Dize-me,—no alto azul,

Quem faz sempre as Auroras!

Quem dá tintas vermelhas

Ao Sol poente que arde?

—Quem coze as nuvens velhas,

E accende o astro da tarde?

Os campos dão renovos

Tambem, n'outras espheras?

—Quem faz as primaveras?

—Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?

Quem tinge o temporal?

—Quem faz a pomba, côr

Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,

E rios, campos, vinhas?

—Dize, se nos planetas?…

Tambem ha andorinhas…

E tu que mais almejas?

Tens sol, astros e ninhos—

Tens tudo o que desejas…

—Luz, grãos, pelos caminhos! *ENTRE OS ARVOREDOS*

Ó triste ambicionar!

Ó santo e vão delirio!

—Talvez, ó filha do Ar

Quizesses ser um lyrio!