Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 110 de 138

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Claridades do Sul

*Bilhete D'um Estudante*

 

D'aquelle esguio telhado

—Onde tu sabes que eu moro,

Eu acho os astros d'um ouro

Já bastante mareado!

Nenhum d'elles val a trança

Dos teus cabellos compridos!

Por isso meu peito lança

Ao teu telhado gemidos!

Se eu fosse Deus, minha amada!

—Dar-te-hia Satan m'esfólle!—

Uma cartinha fechada,

Servindo de lacre o Sol.

Mas sou um predio em ruinas,

—Não tenho nada commigo,

Sou um deus feito mendigo,

Que tomo o sol ás esquinas.

Divago roto e contente!…

—Odeio um lente—e o Philyntho!

E sob este azul clemente,

Triumpho alegre e faminto!

Meus deuses são Vico e Dante!—

E gosto, no meu caminho,

Encontrar Minerva amante,

E as Musas cheias de vinho.

Como um barco sem amarra,

Navego, turgidas vellas,

E desafio as estrellas,

Á noute, sobre a guitarra!

E a cabello louro ou preto—

—Fragillidades do barro!

Envio sempre um soneto

Na mortalha d'um cigarro!

Erro sem norte e sem tino!

—Ninguem m'estende o seu braço!

Quer-me por força o destino

Comendador ou palhaço!

 

*Postscriptum.*

Desculpa-me, flor amada!

—Ó minha Musa divina!

Não fui hontem á escada,

Por que empenhei a batina!…