Claridades do Sul

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 87 de 138

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Claridades do Sul

*Debaixo das Hervas*

Podesse ir eu comtigo que m'encantas

Como um vinho, no pó da terra dura,

Dormir ambos na mesma sepultura,

Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova

Sentir os nossos pallidos abraços,

De noite, quando branca nos espaços,

Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram

Os meus olhos nos teus, adormecidos,

Dizel-as outra vez, já confundidos

Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranças, Com que tu tantas vezes me vestiste,

Enlaçarem-me ainda, á hora triste,

Em que os astros reluzem como lanças.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros Dos cyprestes, dizer as cousas mil Que diziamos, ó triste! quando abril

Fazia colorir os teus canteiros.

E debruçada estavas á janella

Nas horas religiosas do Poente,

Como a mãe que anciosa e docemente,

Espreita no horisonte a amada vella.

E quando íamos depois as nossas magoas Contarmos, pelo espesso das folhagens, Cabellos desmanchados nas aragens,

E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes,

Quando estás debruçada na costura,

E que inda nunca ouviu a terra dura,

E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste,

—Marco escuro da terra que nos come!

Enlaçado tivesse o nosso nome,

Como um lenço bordado que me déste!

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Podesse ir eu comtigo, que m'encantas

Como um vinho, no pó da terra dura,

Dormir ambos na mesma sepultura,

Entre os braços das hervas e das plantas!