Dias Vazios
Capítulo 10
De um canto da sala, tentando não interferirem na reunião, Amélia e a enfermeira Hilda, mesmo que receosas, observavam o grupo, que já perecia bastante entrosado.
— É bom tê-la em casa novamente, não é? - Hilda comentou, sem saber que aquilo afetaria Amélia.
— É bom tê-la em casa sim, mas não me sinto à vontade com a presença deles. Eu ainda os culpo... Eles estavam lá - a mágoa estava ali, o rancor também. — Não há registros de nenhuma outra pessoa na casa. Sei que um deles é o responsável pelo que aconteceu. Sei que se não tivesse acompanhado-os naquela maldita viagem, minha filha não teria passado todos estes anos ausente da vida.
Algumas pessoas nunca estão satisfeitas com o que têm ou com o que conseguem alcançar. Hilda reconhecia as dificuldades pelas quais Amélia havia passado durante o extenso período de internação da filha; ela estava lá nos momentos de incerteza e, apesar de ser uma profissional de saúde, esperava que a mulher demonstrasse algum alívio passado tanto tempo. Porém, Amélia apenas se queixava e deixava clara sua intenção de ter Rebeca só para si, como se ela fosse ainda uma garotinha. Talvez, um pouco de gratidão pela recuperação de Rebeca não lhe fizesse mal.
— Luciana não veio - Rebeca afirmou ao constatar que, pelo avançar da hora, a amiga não chegaria mais. — Nem Mundo...
Todos entreolharam-se, mas foi Lionel que deu seu parecer:
—Talvez, Rebeca, depois de tantos anos, o nosso grupo já não seja mais o mesmo - ele falava sério desta vez, sem qualquer resquício do rapaz inconsequente que ofendera Jamile um pouco antes. —O tempo passou e novos interesses surgiram, é inevitável. Nem todos terão sempre a mesma dedicação que um dia tiveram e nem a mesma disponibilidade.
— Eu ainda tenho, por todos vocês - a dureza das palavras de Rebeca não conseguiu apagar sua emoção. — Pode parecer que para mim o tempo não passou, mas eu sei que ele passou e eu perdi a maior parte. Gostaria que todos estivessem aqui hoje.
Fernanda decidiu interceder por Luciana e para tal, mentiu.
—Eu falei com a Luciana pela manhã e ela disse que não poderia vir; disse que lamentava, mas não poderia. Me parece que o marido tinha um compromisso de trabalho, um evento se não me engano, e ela o acompanharia.
Lionel também sentia pela ausência de Luciana. De algum jeito, os sentimentos do passado ainda moravam dentro daquele coração rebelde. Já em se tratando de Mundo, aparentemente não havia quem sentisse sua falta.
—E o Mundo? - Rebeca insistia. — Estive com ele no dia da alta, mas depois não o vi mais. Alguém lembrou-se de avisá-lo?
—Mundo, provavelmente, está trabalhando neste horário e não teria como vir - Jamile justificou sem qualquer certeza em relação ao que dizia.
— Pipoqueiro... - Fernanda foi quem balbuciou.
— E o que há de errado nisso, Fernanda? - O olhar de Rebeca foi de reprovação. — É um trabalho como qualquer outro. Uns tocam guitarra, outros desfilam em passarelas, há os que são médicos ou advogados ou professores de línguas, da mesma forma que há os que vendem pipocas e há aqueles que nada fazem, como eu e você.
A tensão instalou-se sobre todos ali. Rebeca, que sempre foi a apaziguadora, lançava o estopim de uma discussão, desafiava a amiga sem qualquer pudor, sem reservas. O silêncio que se seguiu àquela última frase foi incômodo e quebrado por Lionel que, passado o susto causado pela resposta de Rebeca, resolveu fazer graça:
— Puta que pariu! Podia dormir sem essa, hein, Fernanda?
— Cala a boca, Lionel. Nossa intenção não é discutir. Acho que todos aqui deveriam alimentar a intenção de ajudar a Rebeca e não de criar intrigas. E digo mais: se eu soubesse que me aborreceria, não teria me humilhado e pedido carona ao Dan só para poder estar com vocês...
— E desde quando uma carona é humilhação? - Daniel questionou surpreso.
Era. Era muita humilhação. Fernanda já não sabia pedir nada, não sabia depender de qualquer pessoa que não fosse seu pai e o dinheiro que ele tinha. Inclusive, se tivesse um pouco menos de bom senso, talvez conseguisse até ser tão brega como seu pai... Habituada à vida fácil, o fato de estar sem carro naquele dia representava tragédia legítima, mas, ainda assim, ela se submetera e pra quê? Pra ser envergonhada em público por uma mulher com mentalidade de adolescente e que ainda acreditava que o mundo ao seu redor era perfeito? Ah! O tempo havia passado, mas Rebeca ainda era a mesma garotinha sonhadora que no passado, em muitos momentos, a irritara.
Nilo demorava para voltar. Era curiosa a forma como o homem considerava seus atrasos normais e condenava a esposa por qualquer deslize, fosse com o tempo, com as ações ou com as próprias palavras. Certamente estava enchendo a cara em um bar ou gastando tempo com conversa fiada. Na poltrona da sala, com a televisão ligada no noticiário e a mesa posta para o jantar, Luciana esperava por ele.
Moravam em uma vila de casas situada em uma rua calma do Méier e cujo movimento era quase nenhum. Ela não estava muito longe dos amigos, mas também não estava perto; nada era perto quando as vontades de Nilo se faziam presentes. Mas ela aguentava mesmo sabendo que as alegrias eram pequenas, quase nulas quando comparadas às dores. Aquela fora sua escolha e os motivos que a levaram a ela já não tinham mais qualquer importância. O amor, que jurava sentir anos antes, havia se acabado.
Pelas manhãs, quando tinha garantias maiores de que Nilo se manteria fora de casa, era por meio da música de Lionel, que Luciana sentia-se mais próxima dos amigos. O refrão ecoando através do rádio e que fora composto para Rebeca, encaixava-se perfeitamente a ela também.
É nos momentos em que os amigos imploram
A presença, um abraço, um por que
Que você se mantém mais ausente
Sem que algo se possa fazer
É em todos estes dias vazios,
Enquanto você não está mais aqui,
Que o coração se faz presente na estrada,
Para entoar o que alguém possa ouvir
Era certo que os dias vazios cantados por Lionel não pertenciam somente à Rebeca. Luciana identificava-se com a canção. Ela havia se afastado, não estava mais presente e reconhecia o vazio que instalara-se dentro dela, contudo, mesmo de longe, sabia que havia um grande vazio em cada um de seus amigos. Ninguém conseguia passar por tudo aquilo e sair ileso.
Rebeca, agora desperta, não estava mais ausente, voltara a fazer parte da vida dos seus. Já ela, Luciana, não tinha qualquer data ou previsão de retorno ao seio do grupo. Àquele momento estavam todos reunidos, todos menos ela; àquelas horas, eles certamente compartilhavam lembranças, enquanto ela sufocava as suas para que não lhe deixassem marcas de choro na face, que despertariam a atenção e a ira do marido quando este resolvesse aparecer.
Em um telefonema rápido e eufórico dias antes, Fernanda havia avisado sobre o encontro marcado e recebera um talvez vago como resposta. Os amigos sabiam que para Luciana o talvez nada mais era do que uma forma delicada de dizer não; um não que não era seu, era imposto, vinha de Nilo, apesar de desconhecerem este detalhe.
A dificuldade de Nilo ao abrir a porta da casa, desviou Luciana de seus pensamentos e acusou o estado em que o marido se encontrava: caindo de bêbado.
— Demorou hoje...
As palavras anteciparam-se ao raciocínio de Luciana, escaparam sem que ela conseguisse segurá-las. Em contrapartida, o tapa que levou foi calculado, acertando em cheio o lado esquerdo de seu rosto.
— Pois eu chego a hora que eu quiser, quando eu quiser e se eu quiser -foi a resposta do marido, que caminhou em direção à mesa, para em seguida informar: — Já jantei.
Depois, em fração de segundos, Nilo meteu a mão nas travessas servidas pela mulher, jogando tudo ao chão. Ele estava alimentado, não havia qualquer necessidade de janta naquela noite.
— Vou tomar um banho. Limpe essa merda. Não quero ver nem um grão de arroz no chão quando eu sair do banheiro.
Os dias mais quentes de Dezembro sempre trouxeram turistas, até mesmo para o subúrbio. O movimento na escadaria da Penha naquele sábado fora excelente e Mundo, satisfeito, voltava para casa com arrecadação suficiente para pagar a conta de luz vencida na véspera. O sorriso no rosto era inevitável. Nos momentos em que conseguia sentir-se vitorioso, o homem cedia espaço ao menino que ainda habitava dentro dele e era cheio de orgulho e de mãos dadas com este menino, que ele seguia para seu descanso.
Ao passar pela calçada em frente à casa de Rebeca, repetindo seu trajeto diário, percebeu os muitos carros na calçada e a grande movimentação na varanda. Eram os amigos de antes, todos reunidos naquilo que parecia ser uma comemoração. Comemoração para a qual ele não foi convidado.
Era de se esperar, a mãe dela não gosta de mim e todos, bem lá no fundo, me culpam. Menos Dan, mas ele não contrariaria a maioria. Os anos se passaram e apesar do acontecido não ter sido esclarecido, na cabeça de cada um deles o verdadeiro responsável sou eu, infelizmente. Sempre foi assim... Quando tocávamos a campainha e saíamos correndo, era eu quem recebia a cara feia dos vizinhos que abriam seus portões, era para mim que direcionavam seus olhares de raiva. Depois da internação, nas poucas vezes em que tentei visitar Rebeca no hospital, fui hostilizado, a mãe dela me enxotou de lá sem que o Dan conseguisse convencê-la de me ouvir. Aliás, nem sei por que não me botou pra correr no dia em que me encontrou na varanda... Consideração com a filha recém chegada, só pode ter sido.
Os devaneios se apossaram de Mundo. Tratava-se de responder ao que não lhe fora perguntado, de entender o que não tinha explicação. Entre todos do grupo, fora ele, o filho da faxineira, o único mal quisto após o acontecimento que afastou Rebeca da vida ativa. Dona Amélia, que sempre o tratara muito bem, jamais o encarara da mesma forma.
Agora, estavam todos reunidos em um mesmo ambiente, enquanto ele, sem que percebessem, passava pelo outro lado da rua. Quem disse que a vida era justa com os menos favorecidos? Mundo seguiu seu rumo, esperançoso de que em um dia qualquer as coisas seriam diferentes. Ele só não sabia quando.