Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 3 de 36

Páginas do PDF

Dias Vazios

Capítulo 2

 

— Rebeca...

Ao longe, uma voz chamava por seu nome.

Aos poucos, Rebeca foi abrindo os olhos e mais uma vez precisou acostumar-se com a claridade. O rosto do homem à sua frente, inicialmente embaçado, começava a ganhar formas conhecidas e que, apesar de aparentemente envelhecidas, ela lembrava-se de ter visto ainda na véspera.

— Dan?

Era o Dan.

Ele estava diferente. Muito diferente!

— Oi, Rebeca...

Daniel não sabia por onde começar. Apesar de ter alguns anos de experiência em clínica médica e de ter esperado muito tempo por aquele momento, ver que Rebeca havia despertado, o desconsertava. Enquanto emocionava-se com a volta da amiga, ele sabia que precisava manter o controle da situação para acalmá-la, esclarecê-la da melhor forma possível em relação ao acontecido e para não permitir que ela soubesse demais. Ele admitia, mesmo que somente para si, que algumas coisas deveriam permanecer esquecidas. Mas como explicar a uma pessoa que ela perdera doze anos de sua vida?

— O que estou fazendo aqui?

Era aquela a pergunta que ele temia.

— Você entenderá tudo...

Daniel era apenas dois anos mais velho que Rebeca e ela lembrava-se perfeitamente de que o rapaz havia completado dezoito anos em Julho e estava cursando o primeiro semestre de medicina para seguir os passos do pai, enquanto ela, aos dezesseis, havia acabado de concluir o ensino médio. Apesar de não morar no mesmo bairro, Daniel era parte do grupo. Conhecera os demais em suas andanças pelas ruas próximas, ainda quando era pequeno, nos tempos em que acompanhava o pai, sócio em uma clínica médica local, ao trabalho. Com o passar dos anos, a amizade desenvolvida resultou na viagem que estavam prestes a realizar.

— Meu Deus! - Rebeca começava a perder o pouco de paciência que ainda tinha. — Já fiz inúmeras perguntas e ninguém me responde, ninguém me diz nada que preste! Até mesmo a minha mãe me esconde o que está acontecendo... Isso não é certo!

— Agora, neste exato momento, não está acontecendo nada, Rebeca. Já aconteceu - ele fez uma pausa que para ela pareceu eterna e depois prosseguiu. — Houve um problema em nossa viagem.

—E o que você quer dizer com isso? - Rebeca foi atropelada tão fortemente por suas próprias palavras, ela custava a perceber que a realidade era muito diferente do que supunha ser. —Foi cancelada? Alguém desistiu, é isso? Nós não vamos mais para Petrópolis?

Ela passara todo o mês esperando por aquela viagem! Desde o dia em que a mãe, depois de muito relutar, autorizou sua ida, Rebeca não pensou em outra coisa.

Como dizer a ela que eles estiveram em Petrópolis e que a volta de lá não fora como o esperado? Como contar para a amiga que, por conta daquela viagem maldita, ela ficara ausente da vida por anos? Como fazê-la entender que muitas coisas haviam mudado durante aquele intervalo de tempo?

Enquanto enchia o amigo de perguntas, Rebeca guardava a pior de todas para o final: "Porque você parece envelhecido, Dan?" Por mais que estivesse atordoada com toda aquela situação, Rebeca não era idiota; ela percebera as mudanças em sua mãe, que ostentava a cabeleira grisalha e o rosto enrugado, e em Daniel, cuja pele mais grossa na região da barba apontava para bem mais que dezoito anos. Além do mais, como ele já era um médico? Em seus pensamentos Dan estava ainda no início do curso universitário.

Ela sabia que havia uma lacuna, sabia que algum acontecimento desconhecido a desviara da realidade que agora se apresentava repentina e sem maiores explicações. E quantas foram as vezes em que no passado ela também se sentira invadida por realidades não escolhidas, realidades que ela não pediu para experimentar? Ansiar por explicações era normal, mas... Lá no fundo Rebeca conhecia as respostas. Ao menos, conhecia a maior delas: o tempo havia corrido enquanto ela dormiu.

— Rebeca, talvez você não se lembre... - Dan começava sua explicação sem saber o rumo adequado. Em algumas ocasiões, a adequação era evidenciada apenas no final. — Nosso grupo foi à Petrópolis - ele deu ênfase ao verbo, como se sua intenção fosse conjugá-lo dentro da memória de Rebeca. —Passamos alguns dias lá.

— Não, eu não lembro e não entendo como isso aconteceu - as palavras saiam vagas. —Quando acordei pensei estar despertando no dia da viagem... Imaginei que fosse hoje, que sairíamos hoje. Fiz a mala ontem.

Daniel e Amélia se entreolharam. A princípio, todas as lembranças dos dias passados em Petrópolis haviam abandonado Rebeca. Ou foram abandonadas por Rebeca. Em algumas ocasiões, para se defender, o corpo responde de forma inesperada. Se ela não se recordava de ter estado lá, certamente não havia qualquer resquício de lembrança em relação ao acontecido. A jovem de vinte e oito anos, deitada ali naquele leito de hospital, não passava de uma adolescente estacionada em seus dezesseis, que aguardava ansiosamente por duas semanas fora de casa na companhia de seus melhores amigos.

Sem saber o que esperar daquelas pessoas que a encaravam desnorteadas, Rebeca prosseguiu:

— Me lembro perfeitamente de ter feito minha mala ontem. Você me ajudou, mãe... - ela direcionou-se à Amélia especificamente. —Nós fomos para o quarto depois do jantar e arrumamos tudo. Inclusive, você insistiu para que eu levasse agasalho, pois as noites por lá são mais frescas, quase frias mesmo em Dezembro. As meninas também estiveram lá em casa na véspera da viagem. Fui dormir ansiosa, louca para que a noite passasse rapidamente.

Havia chovido e o chão estava molhado, o que refrescava um pouco aquela noite quente de Dezembro.

— Amanhã, nesta mesma hora, nós já estaremos lá, Jamile.

— Pois é! - Jamile respondeu à Rebeca sorridente e Luciana, que estava ao seu lado na varanda, sorria também.

— Já arrumei algumas coisas, mas preciso conferir se não me esqueci de nada.

As amigas nunca haviam viajado e estavam surpresas com o fato de seus pais terem autorizado. Rebeca era a mais empolgada, seguida de Luciana. Já Jamile, ponderada como sempre, não demonstrava tanta alegria, mas aquele era seu jeito.

— Eu queria tanto que nós nunca mais esquecêssemos esta viagem! -Luciana parecia não esconder a importância que acarretava ao passeio.

— Será inesquecível para todos nós, com certeza - foi o que Jamile disse antes de levantar-se e seguir em direção ao portão. — É tarde, já. É melhor descansarmos.

Depois, foi a vez de Luciana seguir para casa. Sozinha na varanda de sua casa, Rebeca refletiu um pouco mais antes de entrar e seguir para seu quarto, pois era preciso arrumar a mala.

Amélia também se recordava daquela última noite que passara com a filha até então. Rebeca não estava apenas ansiosa, ela estava feliz. A viagem com os amigos representava não somente um primeiro passo rumo a uma possível liberdade, mas também era indício de maturidade. A filha de Amélia estava tornando-se uma adulta e em breve estaria na faculdade. A permissão para a viagem nada mais era do que um voto de confiança dado pela mãe e uma recompensa pelos muitos anos de afinco nos estudos.