Dias Vazios
Capítulo 8
O primeiro café da manhã em casa poderia ter sido mais agradável se a campainha não tivesse tocado ainda antes das oito.
Foi Amélia quem atendeu e quando a mãe voltou ao interior da casa, Rebeca viu que ela não estava sozinha. Atrás de Amélia, que parecia conformada e talvez até satisfeita com a situação, a enfermeira Hilda entrava sorridente, com uma sacola de viagens razoavelmente grande pendurada no ombro e um pacote na mão esquerda. O cão, em festa, abanava o rabo sem parar, o que mostrou à Rebeca que sua reação na véspera poderia não ter nenhuma associação com lembranças que ele pudesse guardar dela. Ao que tudo indicava, aquele rabo peludo sacudia-se para qualquer pessoa que chegava à sua casa.
— Pão doce! - Hilda disse, mostrando o pacote para Rebeca. — O doutor Daniel disse que você gosta, Rebeca.
— Sim, eu gosto. E gosto também de informações. Por acaso o doutor Daniel mandou alguma? - Foi irônica. Apesar de não ter lembranças, a ironia, que Rebeca só usava em momentos extremos, permanecia intacta.
Se algum desinformado pudesse ouvir aquela conversa, diria que Rebeca invejava a evolução de seus amigos, principalmente de Daniel, que era um médico enquanto ela, de certa forma, era ainda uma adolescente e não tinha formação ou perspectiva concreta de futuro. Rebeca não tinha nem passado! Mas não se tratava de inveja, pelo contrário: Rebeca sempre quis ver os amigos bem, sempre torceu por suas conquistas. Sua reação, além de quase irracional, foi apenas reflexo de sua total ausência de conhecimento. Ela estava na sala de sua casa, em companhia da mãe e de uma enfermeira que apesar de ser uma recém conhecida, a conhecia havia anos e ambas sabiam de todos os detalhes daquilo que Rebeca buscava apenas entender um pouco que fosse, mas ninguém lhe dizia nada.
Era revoltante.
— Não, querida. Nenhuma informação que não esteja registrada em suas memórias, mesmo que elas pareçam adormecidas - a mulher não tirava o sorriso do rosto. — Na hora certa e através do estímulo adequado, ou até mesmo de alguma grande necessidade, estas memórias voltarão. Nem tudo acontece quando e como queremos, não é mesmo? A vida, em alguns momentos, pode se mostrar dura, restando a nós passar por isso.
Hilda falava com conhecimento de causa. Já havia sofrido muito e fora isto que a levara a cuidar tão bem das pessoas com as quais trabalhava.
Ela prosseguiu:
—Nos resta esperar, apenas esperar, Rebeca. O passado não se desfaz, ele está armazenado apenas, guardado em algum lugar e quando chegar à hora, tudo virá à tona.
Rebeca sentiu-se indignada e sua indignação nada mais era do que fruto de um egoísmo necessário, que clamava por respostas. E em relação à enfermeira, nada irritava aquela mulher? Apesar de toda a sua falta de compostura, a enfermeira Hilda mantinha seu sorriso e seus olhos transmitiam tranquilidade. Lógico! A vida dela tinha um ontem, tinha um curso, enquanto Rebeca não vislumbrava nada de relevante para a sua.
Sem cerimônia, Hilda sentou-se à mesa enquanto Amélia buscava uma xícara para ela.
— Vim acompanhar sua evolução, Rebeca. Vou ficar por aqui... Sua mãe está de acordo e o doutor Daniel acredita ser bom, pois pode ser que você precise de algum tipo de assistência - Hilda informou. Apenas informou, sem se importar com a opinião de Rebeca. —Prometo que não vou atrapalhar, não serei um estorvo.
Se dependesse de sua vontade, Rebeca deixaria a mesa. Deixaria a enfermeira Hilda falando sozinha, pois ela não tinha nenhum interesse naquela informação. Não era boba e, pelo volume da sacola de viagem que a mulher carregava, suas intenções estavam bastante claras. Ela viera para ficar, não havia dúvida alguma.
Amélia entregou a xícara à Hilda que rapidamente a encheu com o café fumegante, mas não sem antes informar:
— O doutor vem mais tarde, após o expediente no hospital. Ele quer vê-la e passar mais algumas orientações - depois justificou-se: — Não há necessidade alguma de preocupação extra com a minha presença aqui. Estou mais que acostumada a dormir em cadeiras, então, não se incomodem com acomodações ou com conforto. Eu fico bem em qualquer cantinho.
— Menos mal! - Rebeca deixou escapar desaforadamente. — Imaginei uma cama de dobrar sendo montada ao lado da minha...
Hilda riu. Se ela soubesse o quanto sua risada irritava Rebeca, a guardaria para quando estivesse em frente a um espelho.
— Não, querida. Não há necessidade. Não estou aqui para vigiá-la e sim para acompanhá-la. Sou apenas uma profissional de saúde à sua disposição- Hilda realmente não perdia a calma.
— Temos um quarto extra, enfermeira. Apesar de ser pequeno, há uma cama e uma cômoda. Ele já está arrumado e você pode se estabelecer lá.
— Está ótimo! Obrigada - a enfermeira agradeceu sorrindo, enquanto passava manteiga em uma torrada.
A conversa estava cansativa e Rebeca não tinha condição alguma de acompanhar aquilo por mais tempo. Pensava em qual momento foi, durante aqueles anos, que as pessoas perderam os parâmetros... Decisões eram tomadas sem que ela fosse consultada e tudo ali lhe soava desconexo, sem qualquer sentido.
A campainha tocou mais uma vez e Amélia deixou a mesa do café para dirigir-se ao portão. Quando entrou trouxe consigo um grande buque de flores que entregou à Rebeca. No cartão, uma breve mensagem de Jamile: "Seja bem vinda de volta!" Rebeca não gostava de flores, as detestava e talvez Jamile tivesse se esquecido deste pequeno detalhe. O cheiro lembrava morte, o que contrastava com o fato de Rebeca ter "voltado à vida".
Deixou a mãe e a enfermeira à mesa e voltou ao quarto, ao computador. Talvez, com a cabeça mais fria, pudesse analisar melhor o que estava à sua disposição na rede social. Se deixou levar pelas coisas que lia na tela, evidentemente sem se deixar influenciar por elas. Era muita bobagem! Discussões inúteis onde cada qual defendia seu ponto de vista como verdade soberana; orgulhos vazios sobre elementos que não significavam coisa alguma; disputas baratas, fossem estas políticas ou profissionais; bajulação e enaltecimento do eu. Àqueles tempos, a rede parecia ter se tornado um grande dicionário de palavras ocas ou palavras de significado restrito, entendido apenas por aquele que a empregava; palavras que não diziam nada e que ficariam para trás a partir da publicação seguinte. Tudo ali estava muito fora de seu tempo, com índices de modernidade ou de contemporaneidade que ela não havia atingido e, por não ver-se engajada em muitas daquelas supostas verdades, não queria entendê-las de forma alguma. Para as pessoas, poderia até parecer um curto intervalo, mas doze anos jamais seriam doze dias e para assimilar tudo aquilo, ela precisaria de tempo.
Os perfis mantidos pelos amigos já não faziam muita conexão com o que ela guardava de lembranças. No perfil de Ana Paula, logo à frente, via-se a fotografia da amiga grudada em Afonso, o marido. Ambos estavam bonitos, o tempo os havia favorecido, mas a posse que Ana Paula tentava exercer sobre Afonso estava evidente naquela imagem e era algo descomunal. Vasculhando demais fotos, Rebeca percebeu que em todas, sem exceção, Ana Paula mostrava-se ao lado de Afonso; ora segurando o marido pelo braço, ora agarrada em seu cangote, ou até mesmo colocando-se á frente dele, como se sua real intenção, ao menos ali, fosse estabelecer uma barreira entre ele e o mundo. As diferenças e a suposta necessidade de mostrar posse de Ana Paula sobre o marido ficavam evidentes no perfil de Afonso, onde a fotografia de destaque o mostrava sozinho e sorridente, apesar de a palavra "casado" constar em sua descrição pessoal. Ela gritava seus casamento e mostrava o marido para quem o quisesse ver; ele era mais discreto, apesar de não omiti-la.
Já Jamile estava realmente muito bonita, sem qualquer resquício da menina gorda e desajeitada que no passado fora sua amiga mais próxima. As fotografias de passarela eram de cair o queixo, principalmente o queixo daqueles que um dia viram como Jamile fora. Ela estava deslumbrante e não havia termo que a descrevesse melhor! Além de magra, sua musculatura estava bem definida e sem exageros, seus cabelos estavam longos e bem cuidados e a pele do rosto, sem quaisquer traços das antigas espinhas, estava mais lisa que bundinha de neném. A amiga, que diminuía-se quando adolescente em decorrência de seu peso e aparência, merecia todos os louros por sua superação e pelo empenho em ser melhor do que sempre julgara ser capaz.
No perfil de Fernanda, era uma selfie sorridente quem dava as boas vindas aos visitantes e diversas outras selfies poderiam ser encontradas no decorrer do feed. Uma selfie tirada na varanda de casa, onde via-se ao fundo a praia de Copacabana, com a legenda "home swett home"; uma selfie de quatro anos antes, com as Pirâmides do Egito logo atrás dela; outra em Machu Pichu, uma na Disney e mais uma em frente à Torre Eifel. Fernanda sempre sonhou em conhecer aqueles lugares, o que na perspectiva de Jamile, em breves comentários à época, em nada referia-se à cultura local. Para Jamile, Fernanda queria apenas passear pelo mundo, por lugares que destacavam-se e tinham pompa. Pelo que Rebeca percebia, a vida de Fernanda estava muito diferente e o fato de Osvaldo ter ganhado na loteria, fizera bem aos planos da amiga. Havia fotos de Fernanda com o pai também e...
— Caramba! Como se veste mal... - ela falou consigo, pensando em voz alta. — Nem sempre o dinheiro faz bem às pessoas; ao menos, não a algumas pessoas. Seu Osvaldo não tem noção alguma de moda, coitado. Essas estampas são terríveis. Virou um sujeito brega e deslumbrado...
Deixando de lado o perfil de Fernanda, seguiu para Lionel. A fotografia de perfil trazia o amigo usando uma jaqueta de couro e tocando guitarra. Ou seria contrabaixo? Os cabelos, desalinhados ao extremo e precisando com urgência de um bom corte, compunham a moldura do rosto do roqueiro. Alguns vídeos destacavam-se nas publicações, cenas de shows e clipes oficiais. Lionel era um músico de sucesso. Ao menos, parecia ser.
O perfil de Mundo não mostrava muita coisa, era atualizado "vez na vida, vez na morte" como dizia-se no modo popular. Sua última atualização datava de Outubro, festa da Penha, e mostrava a escadaria da igreja toda decorada com fitinhas coloridas. Ao canto, uma carrocinha de pipocas.
Luciana parecia não manter um perfil na rede social; ou talvez o mantivesse com nome de casada, que era desconhecido de Rebeca e impedia sua procura. E Dan? Dan também não tinha um perfil no Facebook. Era de se estranhar, pois ela se lembrava que o amigo nunca fora avesso à socialização, mas, certamente ele teria seus motivos e, lá no fundo, Rebeca imaginava tratar-se de alguma questão - impedimento? - profissional.
Não foi somente os perfis dos melhores amigos que chamaram a atenção de Rebeca. Havia mais coisas que sobressaíam-se nas publicações das poucas pessoas que ela mantinha em sua rede de amigos. Patrícia, a filha da vizinha, que antes de Rebeca entrar em coma apenas compartilhava fotografias de desenhos animados e bichinhos fofos, trazia conteúdos completamente diferentes e quase vergonhosos. Quase vergonhosos, não; Rebeca estava abusando da generosidade ao pensar daquela forma. As merdas publicadas por aquela garota eram vergonhosas e com v maiúsculo, coisas que enrubesceriam até o próprio diabo. A irmã dela, Vitória, dois anos mais nova, seguia a mesma linha e tinha como intenção estabelecer disputa para ver quem publicava mais bobagens ou quem publicava bobagem maior, enquanto a mãe de ambas parecia não ver nada daquilo ou, se via, era conivente ou devia achar bonitinha exposição tão grotesca e desnecessária.
Além disto, havia discussões entre pessoas que apresentavam visões políticas diferentes, cada qual defendendo a ferro e fogo seus pareceres e partidos; um sem fim de solicitações para jogos; inúmeros resultados de testes propostos por sites duvidosos também se destacavam: "quem você foi na vida passada?", "com quem você vai se casar?", "quando você vai ficar rico?; "qual celebridade mais se parece com você?".
Em meio a tudo aquilo, um detalhe saltou aos olhos de Rebeca: algumas pessoas imploravam por atenção, quase rastejavam por ela e faziam o possível, o absurdo, para consegui-la, enquanto outras tentavam tirar vantagem do conteúdo alheio, como se quisessem tomar para si conquistas que não eram suas.
Eram os conteúdos mais vazios que caíam em evidência. Ela viu a campanha que uma senhora fazia em prol de um hospital que tratava crianças com câncer não ser alvo de receptividade alguma, enquanto uma fotografia de uma das vizinhas usando biquíni colecionava mais de duzentas curtidas; viu a divulgação do trabalho de crochê feito com perfeição por uma conhecida de sua mãe passar despercebido, enquanto a fotografia do filho desta senhora, bêbado e rodeado de garrafas de cerveja, era enaltecida; viu mãe bajular os filhos que só bajulavam estranhos; viu as mensagens mais esquisitas de aniversário; viu gente rasgando seda para aqueles de quem antes falavam mal - ela se lembrava perfeitamente! -; viu pessoas debochando umas das outras sem que os alvos percebessem se tratar de deboche - o importante era conquistar alguma reação! -; viu parentes serem renegados para que recém conhecidos tivessem prioridades; viu de tudo e não gostou. Evidentemente, havia os que divulgavam conteúdo sério, divulgavam até mesmo trabalhos alheios, mas esta divulgação, quase que sem exceção, estava atrelada a algum ganho; quem o fazia não fazia de graça, não fazia por benevolência. No seu tempo, o mundo era outro e as mentes não eram tão fúteis, tão vazias.
Rebeca estava acostumada com pessoas que faziam pelas outras pessoas, com a união e a interação sadia e ali ela deparava-se apenas com a vulgaridade e banalização, fosse do todo ou do eu. Pensou em publicar uma atualização:
O que aconteceu enquanto eu vagava desacordada pela vida? Onde foi que vocês se perderam, se é que em algum momento souberam onde estavam ou o que eram ou o que queriam? Cadê o bom senso? Porque a fotografia de um bêbado é mais interessante que um trabalho caprichado e feito à mão? Porque os parentes, que são conhecidos de uma vida inteira, bem como os feitos destes, valem menos que uma piada infame ou uma pessoa que se encontrou ontem em uma festinha qualquer? Porque uma bunda merece mais respaldo que crianças doentes e que precisam de ajuda? Porque antigos alvos de críticas ferrenhas hoje são bajulados e considerados melhores amigos?
Perdida mais uma vez, ela não sabia o que havia mudado ou o motivo daquilo. Na realidade, ela nem sabia se houvera realmente alguma mudança ou se tudo sempre fora exatamente daquele jeito banal e somente ela, que tanto considerava e esperava pelo melhor das pessoas ao seu redor, é que não havia percebido.
Se o mundo pudesse ser comparado a um céu estrelado, Rebeca seria aquela estrela que ainda pode ser vista, apesar de ter morrido há milhões de anos; a estrela cuja existência já findada parece se perpetuar para nada. Ela ainda estava ali, porém talvez já não estivesse mais.
O empresário que se fodesse, que desse seu jeito, pois Lionel não estaria ausente em momento tão significativo. Estar no Rio de Janeiro era preciso, ele sabia. O atestado médico ficara sobre a escrivaninha e no laudo, o diagnóstico de estafa, que lhe dava direito ao descanso. Não importava o que a mídia pensaria ou diria... Seriam apenas quatro shows agendados para os próximos dias que teriam que ser cancelados, pois suas férias para as comemorações de final de ano vinham logo na sequência, o que lhe daria tempo de sobra para acompanhar de perto o que quer que os amigos fizessem.
Os tempos em que foi preciso cantar em bares para garantir o sustento e aos quais ele era grato, já estavam para trás. Lionel não era rico, mas era bom no que fazia, muito bom, e já tinha seu público. Ele tinha consigo as lembranças do que era e a certeza de no que havia se transformado; sabia que não precisava provar nada a ninguém e de que seus fãs, além de terem os valores gastos com ingressos ressarcidos, entenderiam sua ausência.
Antes das nove ele já estava no aeroporto, mochila nas costas e uma pequena mala nas mãos, fone nos ouvidos e óculos escuros na face, para disfarçar e afastar possíveis aproximações de fãs. O violão, um eletroacústico Giannini preto, vinha envolto na capa de couro e pendurado no ombro. Naquela manhã, o roqueiro sempre tão solícito, não tinha intenção alguma de dar autógrafos e tirar fotografias. Em breve estaria próximo de um passado que mesmo distante, não fora esquecido, o que fazia do confronto algo inevitável, bem como interferia diretamente em seu raciocínio. E havia Luciana, por quem ainda nutria sentimento especial e a quem deveria proteger.