Dias Vazios
Capítulo 24
Às sete da noite Nilo descia de um ônibus na rodoviária de Petrópolis. Reinaldo o aguardava e de lá foram direto para o apartamento do policial, onde a conversa correu solta, regada à cerveja de baixa qualidade.
—Vou até lá amanhã de manhã, vou pegar Luciana de surpresa e ela não vai ter pra onde correr...
— Você precisa ter cuidado, Nilo. Aplicar corretivos dentro da sua casa é uma coisa, mas lá... São muitas pessoas... Sua mulher não está sozinha e há um médico e um advogado naquele grupo e esse tipo de gente tem mais facilidade para identificar algumas... situações, se é que você me entende. Se você der bobeira, eles podem perceber e denunciá-lo, o que não pega bem para um policial.
Reinaldo não tinha preocupação alguma com Nilo, mas deixar de adverti-lo seria descabido e, como amigo das antigas, ele precisava manter as aparências. Após a morte da esposa, ninguém mais além do dinheiro merecia sua real intenção e compactuar com Nilo àquela altura dos acontecimentos, não lhe renderia nada. Aceitar aproximar-se envolvia apenas a garantia de acompanhar o desenrolar da história para não ter problemas maiores.
— E pensa que eu não sei? Você acha que a mantive afastada dessa gente esses anos todos por quê? Se tem coisa que eu não sou, é burro...
— E desde quando eu o chamei de burro? Só acho que você não pode esquecer...
— Eu não esqueci, Reinaldo - Nilo o interrompeu.
— E tem mais! Se der alguma merda, a delegada não vai ajudar, não, pode ter certeza. Depois que o capitão se aposentou, aquela delegacia foi se perdendo cada vez mais. Só apareceu delegado certinho, que reza na cartilha da corporação. Os caras dizem que até dinheiro de blitz custa pra entrar por lá... E com essa mulher no poder, homem errado não tem vez. Quando ela desconfia de injustiça ou de qualquer outra merda, fuça tudo até achar e não vai ser difícil pra ela descobrir o que você faz... Ou fez.
— Vai pro inferno, Reinaldo - foi a resposta que o velho obteve, antes de Nilo entornar goela abaixo e em uma talagada só, mais de meia lata de cerveja.
Enquanto lavava a louça na casa de Amélia, Hilda pensava a respeito do telefonema que atendera pela manhã... Aquele tom de voz tão peculiar lhe era conhecido e ela, movida por tudo o que já havia experimentado, temeu pela moça que o homem procurava. O desassossego vivido tão logo o irmão viu-se homem voltou a incomodá-la. Hilda sabia o que era conviver com um homem violento; nem mesmo a diferença de muitos anos entre eles a afastara desta possibilidade e o fato de ser mais jovem não fazia com que ele a respeitasse. Foi aos dezessete que ele lhe levantou a mão pela primeira vez... À época, ela estava prestes a completar trinta. As ameaças continuaram e Hilda viu-se obrigada a deixar a casa que herdara do pai e nunca mais procurou pelo meio-irmão ou pela madrasta.
Imaginou que a tal Luciana talvez passasse por situação semelhante nas mãos do marido. Se aquele homem fora capaz de mandar para o inferno uma desconhecida que atendera ao telefone, o que não fazia com a esposa? Teve pena da moça. Uma pessoa tão jovem não merecia passar pelo que ela havia passado; não era qualquer pessoa que conseguia lidar com violência doméstica, que conseguia desvencilhar-se do fardo. Luciana não comparecera ao encontro marcado quando Rebeca teve alta; foi a única do grupo que não apareceu e o fato, agora relembrado, reforçou as suspeitas de Hilda. Possivelmente o marido a tolhia de vida social... O irmão quis fazer isto com ela em determinada situação.
— Vai aonde? - Ele perguntou naquele sábado, quando viu que Hilda, arrumada, havia chamado um táxi.
— Festa de final de ano do pessoal do hospital...
— E precisa se vestir como uma puta?
— Ei! Olha como fala, não estou vestida desta forma...
— Ah! Precisa de um espelho, então - saiu e voltou com um espelho de parede, que ficava no quarto da madrasta, nas mãos: — Veja aqui se não está como uma puta!
Ele aproximou o espelho do rosto de Hilda e ela pôde ver que lágrimas desciam de seus olhos, carregando consigo o pouco rímel que usara na maquiagem.
Quando percebeu que ela estava fragilizada, o irmão simplesmente lhe atirou o espelho na face, cortando-lhe a bochecha esquerda.
Hilda levou a mão ensaboada à cicatriz que tristemente ilustrava seu rosto e a lembrava todo santo dia daquele acontecimento infeliz. Certamente, em diversos lugares não distantes dali, outras pessoas passavam por situação semelhante. Luciana talvez o passasse e os amigos que estavam com ela naquele momento, pois o doutor Daniel confirmara em ligação que ela estava em Petrópolis, desconheciam o fato. A vergonha impedia de contar, Hilda sabia. Ela também não contara a ninguém... O corte em seu rosto fora resultado de descuido, de um tombo no chuveiro que quebrara a porta do boxe, só isso. Era melhor assim.
Naquela noite, em Petrópolis, Daniel dispensou Genoveva e encomendou pizza. A mulher já havia passado poucas e boas em um interrogatório desnecessário e era injusto exigir-lhe mais.
Jamile, que mantinha o jejum, voltava da cozinha com um copo de mate sem açúcar em tempo de ouvir o parecer de Afonso:
— Não houve prescrição do crime, se é que houve crime...
— Houve! Ninguém aparece espancado em um jardim, sem que outra pessoa tenha lhe batido. E muito! Espancamento é crime - Mundo o interrompeu.
Não havia nada que Mundo precisasse omitir, não havia motivo para deixar de mencionar o que pensava. Se as pessoas quisessem desconfiar dele o fariam, permanecendo ele calado ou não. Foi exatamente isso que fizeram nos últimos doze anos. E, além do mais, aparentemente já não havia como ocultar informações e esperar que as lembranças eclodissem automaticamente para Rebeca; não havia tempo para esperar. A presença ofensiva daquele policial era prova real disto.
— Vou até a delegacia amanhã. Como advogado, posso tentar esmiuçar a questão e entender o aparecimento deste policial sem que tenha sido chamado e de certa forma, sem motivo algum.
— E não seria pior? Isso não soaria como se nós estivéssemos com medo?
A pergunta inesperada de Jamile fez com que todos se entreolhassem, como se um buscasse o medo no olhar do outro ou como se buscassem alguma confirmação através da identificação do medo.
Ela se explicou:
— Pensem... Nenhum de nós em momento algum requisitou qualquer ajuda policial, no entanto recebemos a visita de um sujeito que diz ter sido enviado pela delegacia para entender o que estamos fazendo aqui. Ele mostrou que conhece o caso e considerando sua idade, é provável que tenha inclusive trabalhado nele. Se este homem chegou até aqui, certamente nossa presença atiçou a curiosidade das autoridades locais então, cobrar satisfações diretamente na delegacia não poderia nos trazer problemas?
— Para eles, somos todos suspeitos... - Fernanda, do seu jeito, concordou com Jamile.
— Não somente para eles. Somos todos suspeitos até mesmo para nós, correto? Todo mundo aqui se isenta de culpa, mas não perde tempo na hora de apontar o dedo para o outro. É como se cada um soubesse que não fez nada, mas não acreditasse que os outros também podem não ter feito... -Lionel pontuou e depois complementou: — A amizade que tínhamos ruiu naquela noite, naquele jardim. Deixamos que ela se dissolvesse para ceder lugar a algo grave: a desconfiança. Nunca mais nos encaramos da mesma forma, nunca mais fomos além de palavras triviais ou gentilezas vazias ou brincadeiras bobas. Cada um tomou seu rumo e não há laços reais, nada do que nos envolve hoje é concreto como foi no passado. Como falamos outro dia, o que cada um sabe sobre os demais é pouco, é pequeno, é o básico, só isso. Antes não era assim...
— Ora, Lionel, antes não era assim porque não havia nada de grave que nos envolvesse. Éramos amigos, um bando de adolescentes querendo apenas curtir a vida, até que Rebeca apareceu espancada e quase morta no fundo do jardim dessa casa. Você acha que dá pra seguir naturalmente depois disso? - Ana Paula levantou a voz, visivelmente irritada.
Lionel a respondeu:
— Não penso que seria seguir a vida naturalmente, mas quando foi que paramos para conversar sem acusações? Quando cada um aqui ouviu a versão do outro sem permitir que suas próprias impressões ou seus preconceitos prevalecessem?
— Nunca - Luciana respondeu. — Não houve sequer um momento em que tenhamos nos preocupado única e exclusivamente com o outro. Cada um sempre se preocupou apenas consigo.
Ela falava com conhecimento de causa. Nenhum de seus amigos desconfiou de suas ausências, de seu afastamento. Para eles, Luciana era uma pessoa egoísta que abandonara o grupo após o casamento, como se não precisasse mais deles e provavelmente por ter encontrado realidade melhor em seu relacionamento. Nenhuma outra hipótese foi aventada, ninguém imaginou que se tratasse de situação completamente adversa. Era mais fácil acreditar na inocência daquela justificativa frouxa, do que ter o trabalho de ler nas entrelinhas.
— Talvez eu deva ir com você, Afonso - Rebeca ofereceu-se, certa de que como principal interessada, sua presença na delegacia causaria melhor impressão. —Se a intenção da polícia é descobrir o que aconteceu comigo, o fato de eu estar lá pode ser um atenuante para todos vocês. Inclusive, posso afirmar que a ideia de virmos para cá foi minha, o que realmente foi.
— Desnecessário... - Ana Paula, movida pelo ciúme, deixou escapar seu pensamento.
— Chega, Ana Paula! - O marido a repreendeu. — Ou estamos todos aqui por um objetivo comum, ou voltamos para nossas casas como se nada tivesse acontecido e não falamos mais neste assunto.
Ele estava certo.
Aquele era o momento em que uma decisão deveria ser tomada, não havia mais como adiá-la. Ou juntavam-se de uma vez por todas e entregavam-se seriamente ao caso, ou o abandonavam definitivamente, seguindo cada um para o seu lado.
Mundo foi o primeiro a falar:
— Eu concordo com o Afonso. Quem não deve, não teme, não é o que dizem por aí? Se a polícia tem interesse no caso, porque não demonstrar a ela que nós também temos? Porque nos mantermos reclusos aqui sem contar com qualquer ajuda, como se somente nós pudéssemos encontrar a verdade?
— Não sei se há interesse por parte da polícia, Mundo. Minha intenção é justamente entender a visita desse policial, pois na minha concepção, tudo pareceu muito esquisito. Ele não tinha um mandato, como Ana Paula citou mais cedo e eu não me dei conta disso...
— Ficou nervoso para perceber, Afonso? - Fernanda não perdeu a oportunidade de cutucar o advogado.
Frente à observação de Afonso, Luciana, que não deu ouvidos à provocação de Fernanda, pronunciou-se:
— Não, não tinha, Afonso, e se ele não tinha um mandato, porque você permitiu que nos submetêssemos ao interrogatório?
Seu casamento com Nilo lhe dera experiência suficiente para reconhecer que a polícia ou alguns de seus membros, nem sempre estavam do lado correto da história. Deixar-se corromper por vantagens, fosse por insatisfação com o sistema ou por falta de caráter, infelizmente era comum naquele meio. Não se tratava de fato generalizado, mas acontecia, Luciana via e não podia negar.
Ainda incomodado com sua falha, Afonso respondeu:
— Não sei... Foi tudo tão inesperado... Acho que a necessidade de atender àquele homem para que não tivéssemos problemas, prevaleceu. Não me dei conta de que ele não apresentou um encaminhamento oficial até Ana Paula comentar o fato - seu nervosismo era real, estava aparente, assim como sua culpa por ter falhado.
— Advogado de merda! - Fernanda, sempre direta, partiu para ofensas.
Antes que Afonso pudesse responder, Daniel que até então observava a conversa, decidiu que era momento de intervir:
— Faremos o seguinte: amanhã cedo o Afonso vai até a delegacia com a Rebeca e eu vou voltar ao clube, vou tentar encontrar mais alguma informação sobre o tal baile de final de ano. Se alguém quiser me acompanhar, agradeço; duas ou mais cabeças pensam melhor do que uma. Àqueles que ficarem na casa, sugiro que façam uma busca minuciosa dos fatos, que tentem ligá-los de alguma forma com conversas honestas.
E mais uma vez, assim como acontecera anos antes, foi Daniel quem decidira o destino do grupo. Ninguém percebeu, todos acataram.