Dias Vazios
Capítulo 15
Quando o jogo de futebol exibido na televisão terminou, Nilo roncava no sofá o que, apesar dos riscos, deu à Luciana oportunidade de telefonar para Fernanda. A amiga ainda estava na praia com Lionel.
— Ah! Apareceu a margarida... - Fernanda atendeu a ligação, sinalizando para Lionel que era Luciana do outro lado.
O coração do rapaz deu um pulinho. Fazia anos que ele não falava com a amiga. Lionel estava em início de carreira quando Luciana se casou e suas atividades eram intensas, mas, mesmo que vida estivesse estacionada no mais completo marasmo, ele não compareceria à cerimônia. Recusava-se a assistir com os próprios olhos a perda daquela a quem ainda amava.
— Sim, liguei - Fernanda prosseguiu e Lionel manteve-se atento. — Mas após minha ligação, já surgiu outra novidade. Rebeca está pensando em reunir todos nós na casa de Dan em Petrópolis, na semana após o Natal. Vamos reviver o passado que ela esqueceu... É um jeito que ela encontrou de tentar lembrar-se do acontecido e eu sinceramente, apesar de achar tudo isso muito esquisito, também acho que todos devemos ir. Fazer o quê, não é? É aquela velha história, Luciana: quem não deve, não teme.
Foi uma ameaça.
A frase de Fernanda foi uma ameaça, Luciana percebeu. E se havia intenção de identificar possíveis culpados somente em decorrência do fato de estarem presentes na tal viagem, ela sentiu-se condenada. Era certo que não teria autorização de Nilo para viajar. Levar o marido estava fora de cogitação e ele também não aceitaria. Não ir poderia soar como a confissão de um crime pelo qual ela não queria pagar. Os amigos jamais entenderiam sua ausência.
A vida nem sempre era justa, nem sempre seguia as tramas idealizadas. Luciana idealizou uma vida perfeita e amargava o inverso sem que ninguém soubesse. Os problemas eram seus, ela tinha absoluta convicção, mas se houvesse coragem, se ela pudesse expô-los... Se pelo menos houvesse a quem procurar ou com quem conversar... Não havia; não mais. Durante os primeiros anos alimentou esperanças de mudança, mas descobriu que a esperança era como um vaga-lume, que acendia-se para logo em seguida apagar-se e sumir na escuridão. Foi assim durante todo aquele tempo.
Luciana ficou nervosa e seu nervosismo não passou despercebido para Fernanda, que do outro lado da linha fazia caras e bocas para Lionel. Este, por sua vez, não entendia nada. Somente o que queria era tomar o aparelho das mãos de Fernanda e ouvir a voz de Luciana. Conteve-se e aguardou o desfecho da conversa.
— Ainda não há nada definido, mas assim que a data for marcada, eu te ligo e aviso. Você vai, não é?
— Talvez... - era somente o que Luciana podia dizer. Um "não" naquele momento geraria desconfiança.
Despediram-se e antes de Fernanda encerrar a ligação, Luciana pôde ouvir que, do outro lado, uma voz de homem mandava-lhe um beijo. Era Lionel, ela teve certeza.
A letra de Dias Vazios, entoada pela voz melodiosa do amigo, ecoou dentro de Luciana.
É nos momentos em que os amigos imploram
A presença, um abraço, um por que
Que você se mantém mais ausente
Sem que algo se possa fazer
O peso dos anos passados instalou-se em seu coração. Luciana sentiu falta dos amigos. Sentiu saudades de Rebeca, apesar do desentendimento que tiveram na tarde do acidente.
— Só eu que acho errado que seja o Dan a escolher toda a programação que vamos seguir nestes dias? - Rebeca perguntava à Luciana.
— Mas é ele quem conhece a cidade...
Luciana sempre acatava o que as outras pessoas diziam, dificilmente contestava algo, mas contestou. Não havia razão para que Rebeca reagisse daquela forma.
— Pois eu já estou de saco cheio. Me sinto presa! E vocês parecem um bando de idiotas aceitando tudo o que ele sugere!
A reação de Rebeca machucou Luciana. Ela jamais esperaria que a amiga a tratasse assim. E se Rebeca não lhe contava o que estava acontecendo, era porque provavelmente já não confiava mais nela. Aquela constatação foi dolorosa.
Tantos anos depois vem a oportunidade de voltar a casa e talvez, desfazer o mal entendido daquela noite de Dezembro. Ela sabia que eles nunca entenderiam sua ausência.
Naquela noite, o que mais Luciana queria era a confiança de Rebeca de volta. Elas haviam discutido, não houve desentendimentos graves, mas Luciana sentiu-se ofendida. A amiga lhe escondia alguma coisa e isso vinha acontecendo desde a tal festa no clube. Luciana sabia que Fernanda percebera a mesma coisa e mencionara o fato com Rebeca, o que gerou discussão entre as duas. Não era sua intenção discutir com ninguém. E, se fosse parar pra pensar, Rebeca tinha direito de guardar seus segredos, por mais que lhe doesse admitir isso.
Quando os amigos decidiram por uma noite independente, apesar de não ter mencionado nada, ela optou por ficar na casa e foi para o quarto. Viu o violão de Lionel em um canto, mas não se ateve àquele fato. Dormir seria seu refúgio. A noite fria parecia acolhedora, assim como o quarto bem decorado que lhe fora destinado. Luciana pegou no sono rapidamente, mas em determinado momento acordou.
Levantou-se, deixou o quarto e desceu com intenção de ir até a cozinha, mas não sem antes passear pela sala de jogos e pela sala de jantar da casa, apreciando cada detalhe, ciente de que aquela realidade não lhe pertencia. Durante esta incursão, teve a impressão de ver um vulto através da janela que dava para o jardim, mas não deu importância ao fato.
Quando entrou na cozinha viu que Jamile estava lá, próxima à geladeira e pareceu espantar-se com sua chegada. A amiga parecia tensa. E, além disso, Luciana jurava que Jamile fora a primeira a deixar a casa, dizendo que iria até uma loja de conveniência comprar balas dietéticas.
— O que foi? - Jamile disse áspera, coisa que não era de seu costume.
Luciana ficou sem jeito. Apenas sorriu e deixou o cômodo, com intuito de seguir para a biblioteca, pois havia perdido o sono, e decidida a levar sua sede consigo. No meio da escadaria ouviu vozes e parou para tentar entender o que era dito. Não conseguiu. Voltou ao seu quarto e passados alguns minutos, veio o grito. Ela apressou-se de volta ao corredor e chegou rapidamente à porta da biblioteca. Lionel estava ali e parecia... confuso? Nervoso? Não havia como determinar. Ele estaria deixando a biblioteca ou buscava refúgio no local?
— O que foi? - ela perguntou e sentiu que sua voz não estava inteira.
— Um grito. Veio lá de fora.
Entreolharam-se, como se um buscasse respostas no olhar do outro. E então, ele a puxou pela mão e a levou para o andar de baixo. Conforme cortavam o ar denso que se instalara na casa, ela pôde sentir cheiro de álcool. Lionel havia bebido. Quando chegaram à sala principal, saíram para o jardim. Depois circundaram a casa até encontrarem Rebeca desacordada em meio a um dos bem cuidados canteiros da mãe de Daniel. Ela estava rodeada por fragmentos do violão de Lionel que ela vira pouco antes de voltar ao seu quarto.
Luciana não gostava de lembrar-se daquela noite, nunca gostou. As sensações não eram das melhores e ela temia por Lionel. Temia tanto que optou por afastar-se do grupo com medo de falar em excesso e comprometer o amigo. O violão estava ao lado do corpo e ele mostrou-se nervoso no corredor. Ela sentiu o cheiro de álcool... Era certo que ele tinha algum envolvimento naquele acidente, mas ela, mesmo sendo muito amiga de Rebeca, encobriu a possibilidade; não disse nada em momento algum. Apenas se afastou. E foi exatamente este afastamento que propiciou sua aproximação de Nilo e a levou ao casamento. Se arrependimento matasse...
Envolta em seus pensamentos, não percebeu que o marido havia acordado, se aproximado e tocava sua nuca.
— Pensando em mim?
O bafo de cerveja era quase insuportável. O toque não era delicado, era grosseiro, sem jeito, oscilava entre brutalidade e ignorância, por mais que Nilo, futuramente e se preciso fosse, negasse tal fato.
— Claro... - ela respondeu com a voz trêmula e virando-se para encará-lo.
Ele continuou com uma das mãos em sua nuca, mas passou a exercer mais pressão. Seus olhos estavam tomados por algo indecifrável, injustificável, mas que Luciana conhecia bem.
— Porra nenhuma! - Nilo trouxe a outra mão para o pescoço da esposa e apertou ainda mais. — Pensa que eu não te conheço? - Ele ria insanamente. — Sei que não está pensando em mim, sei que você é uma mentirosa e que vive pelos cantos pensando em outros homens, pensando na vida mundana que levaria se eu lhe desse oportunidade. Uma vaca mentirosa e feia que ninguém quis, é isso que você é, Luciana. Ninguém quis, só eu...
— E eu te amo por isso, Nilo.
Em algumas ocasiões ele era tão violento e ela tinha tanto medo, que acabava por acatar a todas as bobagens que Nilo dizia. Concordava com o marido por não ter alternativas. Ali, naquele momento, ela seria a vaca mentirosa que ele afirmava e torceria para que isso fosse suficiente para não apanhar mais uma vez.
Não foi.
A proximidade das mãos de Nilo em seu pescoço fez com que uma delas segurasse os cabelos de Luciana. Ele os puxou e quase suspendeu a esposa do chão.
— Se tem coisa que eu detesto, é mentira. Você não tem noção de como os bandidos de merda que eu prendo, mentem para livrar o próprio couro.
As lágrimas desciam pela face de Luciana. Nilo prosseguiu:
—E sabe o que fazem depois? Choram. Depois, eles choram, exatamente como você está fazendo agora. Será que você também é uma bandida de merda, Luciana? Ou é só uma puta sonsa buscando chance para agir como tal?
A dor no couro cabeludo não era maior que a dor que Luciana sentia por dentro, na alma. E se negasse, se ela não concordasse com o que Nilo dizia, os resultados seriam piores.
— Sou... Sou, sim. Eu não valho o arroz com feijão que você coloca na mesa desta casa.
— E somente agora você descobriu isso? - Ele ria ainda mais, uma risada doentia. — Eu sempre a vi desse jeito... Uma vaca mentirosa, uma porca desgraçada que não vale o preço de um ovo frito. E é por isso que você precisa apanhar, é pra aprender a ser gente, a respeitar seu marido.
Deu-lhe um tapa no rosto e Luciana teve uma única certeza: não poderia mais ficar ali.
Não importava o que acontecesse depois, Jamile estava certa de que ela iria à Petrópolis. Por mais que sua vida tivesse mudado e que a viagem proporcionasse uma volta ao passado, negar ajuda ou parecer displicente não fazia parte de seus planos.
As palavras de sua analista, ressuscitadas de consultas antigas, ecoaram no quarto naquele meio de noite. O passado ficou pra trás e você não pode negá-lo. Faz parte de sua história, faz parte de você. Se hoje você é uma pessoa diferente, mais forte até, isso se dá porque um dia foi preciso mudar. E você mudou, Jamile.
Ela sabia que havia mudado, o espelho lhe dissera e reafirmava aquilo todos os dias.Contudo, por mais que o presente se resumisse em ostentar menos da metade do peso que tinha antes e o passado fosse passado realmente, ele ainda doía; os xingamentos estavam na memória: Gorda! Rolha de poço! Elefante! Baiacu!-, e eram estas as vozes que tinham maior peso. A rolha de poço, o elefante e o baiacu, ainda moravam dentro dela e vez ou outra despertavam para comer uma barra de chocolate ou um pote de sorvete.
Foda-se! -, pensou consigo. Ela não era mais a gorda esquisita, ao menos não por fora. Por fora Jamile era capa de revista, requisitada nos desfiles das melhores marcas e era isso que seus amigos viam. Exceto Lionel, que insistia nas piadas babacas, mas ela se quisesse ou precisasse, poderia colocá-lo em seu devido lugar. Foi o violão dele que estava todo quebrado no jardim, ao lado de Rebeca, não foi? Todos conheciam este fato, todos viram os frangalhos do instrumento. Se fosse necessário, não seria ela, Jamile, a prejudicada. E além do mais, não havia nada que ela não pudesse fazer. Seu passado era prova e o fato de reviver algumas situações não traria as antigas de volta. Não mesmo. E se trouxesse, seria somente aquelas que ela permitisse. Era preciso ser forte.
Já no quarto de hotel, Lionel sentia sua ansiedade crescer. Aquela seria sua oportunidade de estar com Luciana novamente e ele não via a hora disso acontecer. Eram cúmplices de algo que o passado havia abafado e que ele sequer conhecia. Ele vira Luciana na porta da biblioteca na noite em que Rebeca caiu; ela parecia ter acabado de chagar àquele andar da casa e estava tensa. Depois, o sumiço. Luciana passou a evitar o grupo e todo aquele afastamento fazia sentido para Lionel. Mas ele estava decidido a protegê-la. Se até então os dias foram vazios, talvez chegasse à hora de preenchê-los.
Após o expediente, Mundo seguiu com Rebeca até em casa e Amélia, que os viu da varanda, não gostou nem um pouco. Se fosse preciso dizer para a filha afastar-se, pois aquele era o principal suspeito do que lhe havia acontecido, ela o faria. Não havia mais condições de manter a situação em segredo sem arriscar a vida de Rebeca. Se antes aquele garoto havia feito mal à sua filha, agora com a moça desperta e com grandes chances de ter sua participação na ação descoberta, ele tornava-se ainda mais perigoso. E Amélia não economizou palavras quando a filha entrou.
— Eu já disse que você deve evitar esse rapaz, Rebeca.
Rebeca não sabia o que havia acontecido, mas sabia que todos culpavam Mundo. Eles nem mesmo disfarçavam.
— Eu percebi. Percebi que todos o evitam, percebi que ele sequer foi mencionado em ocasião de nosso reencontro ontem, ninguém o convidou, não foi? Na perspectiva de vocês a culpa pelo que me aconteceu, é dele. Foi Mundo o responsável por eu ter passado todos esses anos em coma, é o que vocês acham... E vou ser sincera, mãe: eu não teria toda essa certeza.
Foi a gota d'água.
Rebeca não era mais uma adolescente e Amélia percebeu que precisaria lidar com o fato. Em outros tempos a filha jamais a desafiaria.
— Pois vou lhe dar uma notícia... - a jovem mantinha-se firme. — Nós iremos à Petrópolis após o Natal e eu vou me lembrar do que aconteceu, custe o que custar.
— Mesmo que o preço a pagar seja a sua amizade com este delinquente?
— Mesmo que o preço seja a minha vida.
Amélia não esperava por resposta tão seca, tão direta. Ela acreditava que dramatizar faria com que a filha desistisse, mas recebeu drama ainda maior como resposta. Ao que tudo indicava, Rebeca não tinha medo do passado e nem do futuro. A menina de dezesseis anos virara uma mulher de vinte e oito, mas sua coragem era a mesma. Nada impediria Rebeca de ir atrás de seu passado e ela, Amélia, não sabia se sentia medo das possibilidades ou orgulho da filha.
Sentado no sofá de casa e remexendo as fotos que tirara no pedalinho doze anos antes, Daniel estava seguro de que tinha tomado a decisão acertada. Ele não era dono do mundo, não era dono do futuro de Rebeca e, de certa forma, se a amiga buscava maneira de entender o acontecido, não havia nada que o impedisse de ajudar. Ele não diria nada, mas jamais seria contra o reencontro do grupo na casa de seus pais, mesmo sabendo que ao recuperar suas lembranças Rebeca poderia voltar-se contra ele novamente.
— Só eu que acho errado que seja o Dan a escolher toda a programação que vamos seguir nestes dias?
Daniel, do corredor, ouvia a conversa entre Rebeca e Luciana.
— Mas é ele quem conhece a cidade...
— Pois eu já estou de saco cheio. Me sinto presa! E vocês parecem um bando de idiotas aceitando tudo o que ele sugere!
A reação de Rebeca o incomodou muito; não esperava aquilo dela, não dela. Falar mal dele pelas costas?
A discussão, que ele não provocou, veio naquela mesma noite.
—Não acho que só por ser o dono da casa você deva tomar todas as decisões sozinho...
Ele sabia que Rebeca estava certa. Estavam na casa havia quatro dias.
Visitaram o Parque Cremerie[8]logo no primeiro dia e, apesar dele ter escolhido o lugar para declarar-se à Rebeca, faltou-lhe coragem. Na
manhã seguinte foram ao Museu Imperial[9]e a Casa de Santos
Doumont[10]. À noite, foram ao baile de final de ano no clube em que seus pais eram sócios. Rebeca curiosamente desaparecera durante todo o
evento. Na manhã seguinte foram ao Quitandinha[11] e depois desfrutaram de um café colonial em uma confeitaria temática. Naquela manhã haviam conhecido o centro comercial... Todos os passeios foram escolhidos por Daniel, mas caramba... era ele quem conhecia o local!
— É até justo que você tenha escolhido os locais de passeio, já que você conhece a cidade, e a festa no clube foi maravilhosa, mas fazer questão de escolher o filme, Dan? Isso é bobagem.
Rebeca estava diferente e se coubesse a Dan explicar a mudança ele a caracterizaria como falta de interesse. A amiga parecia ter descoberto algo que a desviava do grupo; era como se ela estivesse com eles sem querer estar. E as discussões, todas elas, eram bobas, infantis. Em momento algum ele fizera questão de escolher o filme... Havia levado alguns DVDs sim, mas se o grupo preferisse, poderiam optar por algo que Afonso levara, não fazia diferença.
Mas Daniel não teve tempo para explicar-se.
—Acho melhor cada um escolher o que quer fazer, cada um tomar seu próprio rumo hoje. Eu vou sair e sozinha.
Rebeca disse e deu-lhe as costas; saiu por uma das portas de acesso aos jardins da casa.
O restante do grupo, como se concordasse com Rebeca, optou por passeios independentes.
Daniel seguiu Rebeca até o jardim.
— Você está enganada. Eu não tenho nenhuma intenção de controlar a vida de vocês enquanto estão aqui ou de decidir por vocês - interceptou-a ainda do lado de fora da casa, antes que ela deixasse a propriedade.
Ele precisava desfazer o mal entendido, não queria causar má impressão.
— Mas é o que você faz desde que chegamos! Você decide aonde vamos, o que faremos... Isso é chato, Dan! Nenhum de nós é criança.
Talvez ela estivesse certa, mas não houve intenção de desagradar aos amigos. Ele só queria ser cordial e, como bom anfitrião e conhecedor da região, sugerira passeios que até então foram aceitos por todos.
À chuva fina e fria, juntou-se uma brisa leve. Ele aproximou-se, estendeu um dos braços e tocou o rosto de Rebeca. Como queria que ela soubesse tudo que ele sentia... Deslizou as costas de sua mão levemente pela bochecha da amiga, que baixou os olhos, encarando o chão.
Após alguns minutos em silêncio que poderia ser considerado romântico se observado à distância e com o toque dele ainda presente na face dela, despediram-se:
— Certo, esquece isso. Hoje cada um vai para o seu lado e amanhã juntamos o grupo para falar sobre isso - ela sugeriu e ele acatou.
Depois, Rebeca seguiu pelo extenso jardim em direção ao portão, enquanto Daniel tomou o rumo dos fundos da casa.
O estudante preferiu dormir tamanha sua chateação em decorrência da discussão. Ele nunca soubera aonde os outros foram. Ele lembrava-se de ter acordado para ir ao banheiro e de lá foi à pequena cozinha do andar de cima, para beber água. Havia deixado a porta de seu quarto aberta. Durante seu percurso, teve impressão de ver alguém no corredor. Parecia ser Fernanda, mas caso ele parasse para confirmar, acabaria se mijando ali mesmo.
Daniel não esperava pelo que estava por vir...
Depois foi confirmado que todos estavam na casa quando Rebeca foi encontrada desacordada no jardim.
— Eu não sabia que após essa discussão, levaria doze anos pra ouvir a voz dela novamente. E como senti raiva de Rebeca naquele dia... - pensou alto.
De alguma forma e apesar de muitas coisas terem mudado, Daniel ainda nutria por Rebeca os mesmos sentimentos. Agora, com o despertar da amiga, as sensações que o tomavam eram ocas. Se o trabalho sempre o preenchera e Rebeca era parte relevante deste trabalho, como seria a vida dali por diante?
Em casa, enquanto Ana Paula arrumava os presentes que havia
comprado, Afonso lembrava-se do que acontecera doze anos antes.
Da varanda, pronto para sair após a decisão de que cada um faria o que quisesse, Afonso, ao deparar-se com aquela cena foi tomado por sensação desconhecida até então. Vazio. Medo. Frustração. Tristeza. Perda. Ele acreditava amar Rebeca e ali, naquele momento, parecia que era Daniel quem levava a melhor.
Rebeca e Daniel, que não perceberam que Afonso os observava. Ele havia levado a mão à bochecha dela.
Eles desculpavam-se, reaproximavam-se. Talvez Daniel estivesse forçando a situação...
— Certo, esquece isso... - Afonso pôde ouvir parte do que ela dizia e imaginou que se tratasse de medo em relação ao que o amigo poderia fazer.
Daniel pareceu bem alterado na perspectiva de Afonso.
Depois eles separaram-se.
Revoltado, Afonso voltou para dentro da casa. Não sairia mais, não havia ânimo. Era melhor procurar algum filme na televisão e contar com a sorte deste filme ajudá-lo a digerir as sensações oriundas do que acabara de ver.
Naquela mesma noite Rebeca foi encontrada desacordada e ele, somente ele, sabia de seu encontro com Daniel no jardim, apesar de não ter mencionado nada na ocasião. Não assumiu seu fracasso. Apenas carregou consigo uma angústia camuflada de qualquer coisa inominável e que o passar do tempo apenas disfarçou, sem permitir que ele se esquecesse.