Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 5 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 4

 

Assim como Ana Paula, Lionel também recebera uma mensagem de Fernanda e, apesar de seu hábito de varar noites compondo, a mensagem o acordara. A noite anterior não havia sido fácil, fizera três shows em lugares distintos e estava exausto. A vida na estrada esgotava suas forças e os rendimentos nem sempre compensavam tamanho esforço, aliás, quase nunca compensavam. Enganavam-se aqueles que o julgavam rico; ele era famoso, tinha sua vida financeira estabilizada, desfrutava de algumas comodidades e só. Movido por tamanha exaustão, o que Lionel mais queria era dormir de forma ilimitada naquela tarde.

Fernanda o impedira.

Ooooooi! Falei com o Dan. A Rebeca despertou, acredita nisso? Não é maravilhoso? Quando você vem?

O texto na tela do celular dizia muito e havia surpreendido Lionel. Por uma fração de segundos, diversas lembranças lhe voltaram à mente. Infância e adolescência reuniam recordações felizes para Lionel e os amigos, agora distantes, faziam parte destas épocas. Ele gostaria de estar perto, de rever Rebeca e os demais após tantos anos, porém, havia um contrato que não deveria ser quebrado. Seriam mais quatro noites de shows e somente após estes dias, durante o intervalo de folgas para o final de ano considerado como férias, ele poderia visitá-los. Apesar de não estar em seus planos deixar Curitiba, cidade onde residia à época, a situação, de certa forma, exigia sua presença; e Rebeca, cuja condição clínica foi parte de sua inspiração para Dias Vazios, seu primeiro e maior sucesso, merecia seu apreço.

Enquanto atravessava o curto espaço entre o quarto e a cozinha, para servir-se de uma xícara de café, Lionel imaginou a confusão que Fernanda teria causado naquele dia. Ela sempre fora agitada e não se continha frente a uma novidade. Teve pena dos outros amigos que a aturavam mais de perto. Por sorte, sua convivência era restrita, limitava-se a um aparelho de telefone, que poderia ser desligado em qualquer momento caso ele sentisse necessidade.

Eu não sei, Fernanda. Tenho uma agenda a cumprir antes de poder viajar. Talvez eu possa ir dentro de alguns dias, mas ainda não é nada certo. Preciso organizar uma série de coisas antes de pensar em me ausentar.

Era melhor responder. Fernanda não tinha papas na língua e, caso sua resposta demorasse a chegar, a perturbação seria ainda maior. Contudo, Lionel sabia que ela não sossegaria com a resposta que ele enviara, não se daria por satisfeita, mas, era melhor do que nada.

Tão logo foi enviada, sua mensagem foi visualizada e respondida.

Absurdo! Nossa amiga passa anos em coma e você não sabe quando poderá vir para vê-la? Parece que o sucesso subiu à sua cabeça mesmo, Lionel. Essa atitude me deixa muito chateada, é pouco caso!Eu não esperava isso de você!

Enquanto lia, Lionel percebeu que Fernanda, incansável, já digitava uma nova mensagem. Para evitar maiores aborrecimentos, desligou o telefone celular. A fuga, em algumas ocasiões, era excelente estratégia. Mais tarde leria o novo desaforo; agora, precisava de um banho quente e demorado. Sair do coma trazia Rebeca de volta, mas ele sabia que não seria só isso. Havia mais coisas e não era o momento de sentir-se angustiado com as possibilidades ou permitir que Fernanda o deixasse tenso.

Luciana ainda não havia terminado de lavar as roupas, não havia varrido a sala e nem começara a preparar a janta, portanto, o telefonema de Fernanda significava atraso ainda maior nas tarefas de casa.

— Fernanda, eu não tenho tempo, realmente. Fico muito feliz em saber que Rebeca acordou, mas agora não posso conversar. Daqui a pouco o Nilo vai chegar e eu preciso estar com tudo arrumado e a janta pronta.

—Ah! Coisa mais chata essa sua vida de casada... - Fernanda conseguia ser egoísta quando lhe interessava e não percebia que as pessoas tinham seus afazeres. — Será que não há um dia em que nós possamos conversar durante alguns minutos, sem que você se queixe de algo que precisa fazer?

Não, não há. Luciana respondeu em pensamento. Um alerta ecoava dentro dela. Fazia três anos desde a última vez em que atrasou a janta por causa de um telefonema de Fernanda e aquilo lhe rendera um olho roxo e duas costelas quebradas. Ninguém viu, ninguém soube. Nilo não perdoava suas falhas e muito menos, abonava seus atrasos.

— Tenho minhas responsabilidades, Fernanda. Você precisa entender isso - Luciana tentava em vão justificar-se.

E tenho um marido que exige a mesa posta pontualmente, caso contrário, só Deus sabe o que pode me acontecer; mas você não entende isso, você não percebe, não vê nada. Sua vida a faz cega para tudo aquilo que não envolva somente você e suas necessidades bobas. Os pensamentos de Luciana se fizeram presentes mais uma vez, apesar de ela não os ter verbalizado.

Luciana já colecionava oito anos de casada e as surras começaram ainda na primeira semana. Foi em uma noite de sábado, quando Nilo sugeriu que ambos fossem até a barraca de cachorro quente da praça, para lanchar. Apesar de Luciana não ter notado, um homem olhou para ela. Foi Nilo quem percebeu e ao voltarem, ele decidiu ensiná-la a não despertar olhares enquanto estivesse na rua. Desfigurou-lhe o rosto, pois mulher feia não chamava atenção. E ela ficou em casa por exatas três semanas, sem sair e sem nem mesmo aparecer na janela, até que sua face readquirisse a aparência normal. A dor não passou, ficou registrada em seu interior, em um recanto qualquer. Apesar do acontecido ficar guardado e em segredo, a vergonha também não a abandonou. As marcas ficariam para sempre impressas, fosse no corpo ou na alma. Lembranças também doíam.

— Eu pensei em irmos todos até o hospital. O que me diz? - Fernanda insistia. — Espero que você não faça como os outros que nem mesmo respostas decentes me deram.

— Não posso - aquela era a resposta mais decente e sincera que Luciana podia dar à Fernanda no momento.

E ela de fato não podia.

Eram raras as ocasiões em que Luciana saía e Nilo sempre fazia questão de acompanhá-la. O policial não permitia que sua esposa deixasse a casa sem sua companhia. Além disso, se houvesse convite para festas ou qualquer outro tipo de evento onde a presença de Luciana fosse requisitada, mesmo que envolvesse apenas sua família, se não pudesse ir por causa do trabalho ou se não quisesse ir, ele sempre criava uma desculpa para que a esposa não fosse. E ela repetia esta desculpa como se fosse sua, abrindo mão do convício social em prol de um matrimônio fracassado e excessivamente violento. Era isso ou uma boa surra... O que mais Luciana poderia fazer?

Em se tratando de sair sem autorização, Luciana arriscou-se somente uma vez e foi para nunca mais. Era aniversário de sua mãe, cinquenta e dois anos, e o irmão fizera uma festa. Como Nilo estaria de plantão na ronda noturna, ela acreditou que poderia sair sem que ele percebesse. Mas ele estendeu a ronda até em casa e não encontrou a esposa. Sentou-se na poltrona até que ela chegasse. Ao entrar, cedo ainda, pouco antes das dez da noite, Luciana foi recepcionada com um soco na cara e diversos pontapés que exterminaram a vida que brotava em seu útero. O marido não sabia da gravidez que estava ainda no começo. O desgosto fez com que ela, sem que ele tomasse conhecimento, evitasse filhos após este acontecimento, o que deu a Nilo a falsa impressão de que a mulher era infértil, além de outro motivo para mais surras. Nestes momentos era muito bom ter um amigo médico e Dan fazia valer a ética imposta por sua profissão. Nilo nunca soube que a esposa prevenia-se. E sobre não ter filhos, Luciana não se importava, nada mais importava e seria um grande erro colocar uma criança no mundo para passar por tudo o que ela passava.

— A verdade é que depois de casada, você ficou muito chata, Luciana, está muito mudada. Você era divertida, sempre acompanhava o grupo, mas se isolou quando casou.

A verdade é que vida ficou muito chata depois de casada... Era nos pensamentos que Luciana melhor se expressava. Ninguém ouvia e ela não apanhava por causa deles. Mas havia a esperança de que um dia as coisas melhorassem, pois o pouco de força que ela mantinha represada ainda lhe permitia acreditar.

— Me desculpe, Fernanda, mas preciso desligar. Depois a gente se fala.

E desligou, sem esperar por resposta.

O relógio já marcava a hora em que Nilo habitualmente chegava e naquela noite Luciana não tinha intenção alguma de sofrer agressões. Não por causa de Fernanda ou de Rebeca. O passado havia ficado para trás, o presente era uma merda e ela, de algum jeito, precisava impedir que tudo se repetisse em seu futuro próximo, que para ela eram os momentos seguintes, quando o marido chegaria em casa.

 

O que Fernanda parecia não se lembrar quando procurava pelos amigos era a existência de Raimundo ou Mundo, como todos o chamavam, mas, após o acontecido, este já não tinha contato com os demais. Transformara-se apenas em um alguém esquecido em algum lugar antigo.

Mundo já não era especificamente um "membro do grupo". Talvez nunca o tenha sido. Apesar de ter crescido e convivido com os outros, de ter jogado com eles todos os jogos de tabuleiro possíveis e imagináveis nas tardes que dividiam na Penha, ora na casa de um, ora na casa de outro, e de ser sempre ele quem pulava para pegar a bola encardida caída no quintal de Dona Celina, tomando corridas homéricas de seus três cachorros raquíticos, era posto de lado em alguns momentos e em outros, por sentir-se em condição inferior, era o próprio Mundo quem saía pela tangente. A vida dele nunca foi fácil! Não se sabe se por pena ou por afinidade, Dan sempre o levava consigo quando saía com os amigos, o que fez com que Mundo frequentasse os mesmos lugares e se mantivesse junto deles, apesar de nem sempre ser visto como igual pelos demais. Com o passar dos anos, com o avançar das idades e com as mudanças de bairro, o afastamento foi algo inevitável e eles não tinham notícias sobre o paradeiro do rapaz. Até tinham... Todos sabiam que Mundo morava ainda no mesmo bairro, na mesma casa, mas não o procuravam. Exceto Dan que, apesar de tudo, ainda o considerava como um irmão.

Mundo ainda pisava o mesmo chão todo santo dia, com chuva ou com sol, fosse para sair de casa logo cedo ou chegar até ela tarde da noite. Ele ocupava com sua mãe, Dolores, a casinha muito simples em uma rua comum e cujo asfalto, havia pouco tempo, tinha coberto os paralelepípedos. Ainda morava na Penha, no mesmo local em que nasceu, na mesma rua em que Rebeca também morava. Não estudou muito, mesmo sendo bastante inteligente; as contas acumuladas e a necessidade de alimento o convocaram para o trabalho antes de concluir o ensino médio. Profissionalmente, já fora de tudo: empacotador de supermercado, vendedor de picolé, ajudante de sapateiro, pintor de paredes, pizzaiolo e entregador de farmácia. Em nenhuma destas funções teve reconhecimento ou direitos ou um registro na carteira de trabalho. Mundo viveu de bicos a vida inteira e foram estes tantos bicos que tiraram ele e sua mãe da miséria que amargaram por anos. Hoje, com uma carrocinha de segunda mão e um jaleco de tergal, o rapaz vende pipocas aos pés da escadaria da Igreja da Penha, onde roga à santa proteção e coragem para os dias mais difíceis.

Certamente, Fernanda não se lembraria de contar a Mundo sobre o despertar de Rebeca. Aquela parte do passado havia ficado para trás, não? E, se porventura cogitasse a possibilidade de procurar pelo rapaz, não se daria ao trabalho. Não ela. Se havia alguém de quem a moça buscava distância, este alguém era ele que, em sua concepção, sabia muito mais do que falara naquela ocasião. Os doze anos passados não haviam amenizado as impressões da moça sobre ele.

Rebeca nunca teve qualquer objeção em relação à Mundo. Eram até bem próximos e, apesar de não poder fazer o que Dan sempre fizera, visto que as condições em que vivia não eram das mais confortáveis, ela ficava contente quando o amigo proporcionava a possibilidade de Mundo os acompanhar em suas idas ao cinema ou às lanchonetes e shoppings. Para ela, ele era um amigo como os outros e as dificuldades financeiras enfrentadas pelo jovem não eram agravantes para o entrosamento dele com o grupo, assim como não eram motivos para considerá-lo de maneira diferente. Ela também tinha seus dias ruins e, em muitas ocasiões, enfrentara dificuldades com sua mãe.

A vida financeira da família de Rebeca também não era das melhores, eles admitiam, mas este era um caso à parte, pois a jovem, apesar de ser suburbana também, não nascera na pobreza como Mundo. Todos entendiam que havia a justificativa da estagnação proporcionada pela internação da moça e pelos gastos com doze anos de hospital. Por mais que Amélia recebesse ajuda da família de Dan, uma das mais ricas da cidade, havia a tristeza, que impedia certos avanços. Desta forma, o bairro e a casa ocupados por sua família também eram os mesmos, apesar de sua mãe passar a maior parte de seu tempo nos corredores hospitalares.

Em seu consultório, no andar sobre a ala onde Rebeca era mantida em repouso, enquanto observava a noite pela janela, Dan refletia sobre a enxurrada de acontecimentos das últimas horas. Era esperado que, mesmo inconformada, Rebeca já estivesse dormindo. Os medicamentos favoreceriam o sono. Durante todos aqueles anos, mesmo quando acompanhava a internação da amiga ainda nos tempos em que era um estagiário, ele acreditou e esperou por seu despertar. Agora, quando o momento enfim havia chegado, Dan precisava encarar as dúvidas daquela realidade. Quem era o verdadeiro culpado?

Rebeca havia despertado, porém, com a mentalidade de uma menina de dezesseis anos. Para ela, o tempo era ainda 2006 e eles estavam às vésperas de viajar para a serra. Ela não se lembrava da viagem. Desconhecia os rumos tomados pelas vidas dos amigos. Não se lembrava de nada do que havia acontecido. Não tinha qualquer noção do motivo de sua internação.

Por anos, em seus pensamentos mais íntimos e enquanto as demais pessoas pareciam buscar apenas o retorno de Rebeca à vida ativa, ele a quis de volta também para entender o que havia acontecido. Do trabalho para casa e de casa para o trabalho, empenhou-se sempre em busca de respostas, de entendimento. Apesar das reações da amiga serem desconhecidas, Dan acreditou durante todo aquele tempo que ao acordar ela esclareceria os fatos, acreditou que ela fosse contar tudo o que tivesse para contar. Ele estava errado, esteve errado por doze longos anos. Rebeca não sabia de nada; os amigos, também não, juraram isso por anos a fio. O que poderia ter sido resposta, tornou-se pergunta ainda mais relevante. Para piorar a situação, a cada meia hora Fernanda telefonava, insistindo em uma visita para o dia seguinte. Algumas coisas não mudavam nunca; algumas pessoas, também não.