Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 32 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 31

 

 

28 de Dezembro de 2006, às 10h30min

— Não custa nada, Reinaldo. Você conhece meu sonho, sabe que quero ser policial.

— Sei, mas querer ser policial é uma coisa e ser policial é outra, Nilo.

— Pois é! E esse bico de segurança no baile do clube é uma oportunidade boa pra mim. Tenho porte, sei me impor. Vou prestar concurso para a polícia em breve e serei admitido, tenho certeza. Trabalhar como segurança vai me ajudar, vai me dar alguma experiência. E, seja sincero, não custa nada ajudar o amigo aqui.

— Ter porte e saber se impor não garante muita coisa... Você é meio maluco, Nilo. E não pode ver um rabo de saia... Perde a calma por coisas pequenas, é destemperado e todo nervosinho, não tem preparo psicológico pra este tipo de situação. E você não quer ser policial para favorecer a lei ou a sociedade. Sua intenção é mostrar força e se dar bem.

—Reinaldo, é só por uma noite, cara... E quem não quer se dar bem?

Reinaldo realmente precisava de gente para o baile agendado para aquela noite. Dois dos homens contratados para ajudar na segurança tinham desistido e não seria fácil encontrar substitutos tão de repente. Nilo, não se enquadrava no perfil, mas, conforme ele havia dito, seria apenas uma noite, algumas horas mais especificamente. E Reinaldo estaria de olho nele.

28 de Dezembro de 2006, às 14h30min

— Você vai ficar responsável pelo salão, Nilo. E vocês quatro também -Reinaldo apontou para os outros que estavam com ele no clube. — O espaço é grande e eu preciso ter homens transitando aqui o tempo todo. Na portaria, ficarão somente policiais. Haverá mais policiais aqui dentro, porém destacados. Caso vocês percebam alguma movimentação estranha, chamem um policial pelo rádio, entendido? Vocês não são efetivos, não são da polícia, portanto não podem tomar qualquer atitude concreta. A função de vocês é observar, apenas observar, e informar aos policias caso percebam algo que foge à normalidade. Eu não quero ninguém metendo os pés pelas mãos. Ficou claro, Nilo?

Reinaldo conhecia Nilo e apesar do temperamento explosivo do rapaz, gostava dele. Tiveram seu primeiro contato em uma briga de bar. Reinaldo foi chamado para atender a ocorrência. Nilo havia batido em três homens que olharam para a garota que estava com ele e, na sequência, dera uns sopapos na jovem também. O cara era violento, mas batia bem pra cacete, o que podia ter utilidade dependendo da situação. O caso não deu em nada, pois Reinaldo sugeriu que seria perda de tempo fazer boletim de ocorrência e os envolvidos acataram. O mundo às vezes precisava de pessoas de pulso firme e Nilo era assim. Talvez, se ele chegasse a ser policial, fosse de grande ajuda em pequenos desvios ou pequenas ações escusas.

28 de Dezembro de 2006, às 17h

Já arrumado, Nilo encarava o espelho. Estava bonito, cheio de pinta; a imagem impunha respeito e não haveria um naquele baile que se achasse capaz de desafiá-lo. Pra completar, se tivesse sorte, talvez ainda arranjasse algumas garotas. "Sempre têm garotas disponíveis, dando mole neste tipo de evento." -, pensava enquanto dava os últimos retoques na barba.

28 de Dezembro de 2006, às 18h

Nilo aguardava às portas do clube. Chegou cedo. Reinaldo havia marcado com os seguranças para que chegassem às 20h, considerando que teriam ainda uma hora até o início da comemoração. Nilo achou melhor antecipar-se. Aliás, foi sua ansiedade que decidiu por ele. Era preciso impressionar e chegar antes do previsto mostrava seu compromisso.

28 de Dezembro de 2006, às 21h30minh

O baile havia começado e muitas pessoas chegavam ao clube. Nilo, conforme Reinaldo o instruíra, mantinha-se pelo salão, circulando, observando as pessoas e cuidando para que tudo corresse bem.

28 de Dezembro de 2006, às 23h30minh

A música alta irritava Nilo, mas o baile corria solto e sem nenhum problema. Exceto pela gorda que não deixava o balcão do bar e que, se bobeassem, comeria tudo que havia pela frente, ele percebera. Porém, a situação não podia ser considerada como um problema e a comida servida àquela monstrona não era de responsabilidade dele; sua função era inspecionar o salão.

Havia também um casal... A moça insistia em uma aproximação, enquanto o sujeito que parecia um débil mental, evitava-a o tempo todo. Aquilo também não era responsabilidade dele... Nilo não estava ali pra ensinar a um garoto bobão como se pegava mulher e somente interferiria se houvesse algum desentendimento entre eles.

No geral, tudo estava calmo e Nilo mantinha-se atento. Tão atento que mesmo à meia luz, viu uma jovem bonita e tímida, esquecida em um canto do salão.

— Oi - ele se aproximou cheio de galanteios, forçando sorriso sedutor e esquecendo-se completamente de sua função. — Posso saber seu nome?

— Rebeca - ela disse, disfarçando a euforia.

— Oi, Rebeca.

— E o seu nome, qual é?

— Ah!... Isto você vai ter que descobrir e se acertar, ganha um doce.

Ela sorriu tímida frente á possibilidade.

Nilo puxou assunto. Falou sobre o baile, sobre o clube, sobre as músicas que tocavam. Em determinado momento já dançava com a moça. Por fim, esqueceu-se completamente de que estava ali a trabalho e, passadas algumas danças, a convidou para conversar do lado de fora, perto da piscina. Ela foi.

29 de Dezembro de 2006, às 02h30minh

Nilo, àquelas horas, já não respondia por si. Havia bebido, não dispensava nada que os garçons ofereciam na área da piscina e comportava-se não como um segurança, mas como um convidado ilustre.

— E depois que o baile acabar, como eu faço para ver você novamente, gracinha?

— Ah... Bem eu não sou daqui, estou na cidade com alguns amigos e ficarei por mais alguns dias. Podemos combinar alguma coisa...

— Huuummm... Podemos mesmo? Só nós dois? - Nilo exagerava no tom, pois era preciso fisgar a garota.

Ela era bem mais jovem, menor de idade até, mas quem se importava? Era bonita, boba e estava caidinha por ele. A vantagem era que as mais novas sempre caíam mais facilmente em sua lábia. Não que mulheres com mais idade não caíssem, algumas, as que em sua perspectiva estavam a perigo, caíam em qualquer conversa, mas as de novinhas eram mais inocentes.

A moça riu baixinho frente à insinuação e ele prosseguiu:

— Eu não quero dividir você com seus amigos. Se vamos nos encontrar, espero que estejamos apenas nós dois... Só nós dois. Onde você está hospedada?

— Na casa do Doutor Luis Assis, sou amiga do filho dele - ela respondeu sem qualquer noção do que acabara de fazer.

— Amiga do filho dele? Então você tem amigos homens... Assim eu fico com ciúmes, hein?

Mais uma vez Rebeca riu e Nilo percebeu que sua falta de experiência fazia com que ela realmente acreditasse em sua conversa fiada. Estava no papo!

—Eu sei onde fica a casa. O doutor é conhecido na cidade. Vou te deixar com meu endereço - ele sacou um bloquinho do bolso e anotou o endereço de sua casa. — Estarei em casa amanhã o dia todo e vou esperar por você. Só por você... Apareça.

— Não sei se eu devo.

— Deve, deve sim - ele aproximou seu rosto do pescoço de Rebeca. — Podemos conversar, ouvir boa música, comer alguma coisa... Te prometo momentos maravilhosos.

 

29 de Dezembro de 2006, às 04h30minh

— Porra, Nilo! Você abandonou o posto! Eu confiei em você e você me deixou na mão.

— Que nada, Reinaldo. Não saí do clube, só não fiquei o tempo todo no salão.

— Não ficou o tempo todo? Mas era exatamente isso que você deveria ter feito: ficar na porra do salão, vigiar o baile. Você deve estar brincando com a minha cara - Reinaldo estava irritado.

— E não aconteceu nada que exigisse a minha presença lá. Tudo correu às mil maravilhas. E além do mais...

— Além do mais o quê, filho da puta? Eu te paguei pra trabalhar e você não fez o combinado!

— Ah... Além do mais eu achei uma franguinha aqui que ficou caidinha por mim. Vai me encontrar amanhã, lá em casa.

— Pegando mulher, Nilo? Porra! Eu te contrato pra trabalhar na segurança e você abandona o posto pra pegar mulher, seu merda?

—Se eu fosse um merda, não teria pegado a gata com tanta facilidade. Vai dizer que se achasse uma gostosinha dando mole em um baile, você não ia chegar junto, Reinaldo?

— Em horário de trabalho, Nilo? Claro que não! Pelo menos não da forma como você fez! Você podia apenas ter trocado telefones e continuado seu trabalho, deixando a conversa com a piranha pra depois?

— E desde quando eu sou homem de telefone ou de depois? Gosto do cara a cara, de mão na mão ou em alguma outra parte do corpo - e Nilo ria, cagando para o que Reinaldo ainda teria a dizer.

29 de Dezembro de 2006, às 14h20min

Nilo acordou, tomou um banho, comeu um ovo mexido e ficou esperando pela garota. Nenhum horário fora determinado, mas ele viria, ele tinha certeza. Ninguém resistia aos seus encantos e com aquela bobinha não seria diferente.

29 de Dezembro de 2006, às 17h10min

Nada ainda. A menina não havia aparecido. Talvez tivesse dormido até tarde, talvez viesse só à noite. Era até melhor que viesse à noite...

29 de Dezembro de 2006, às 21h30min

— Cadê essa puta? - Nilo se perguntava enquanto abria a quinta lata de cerveja.

30 de Dezembro de 2006, às 03h25min

— Ela disse que está na casa do médico. Vou dar uma chegada lá amanhã e ver se consigo falar com ela. Ninguém me passa pra trás desse jeito, ninguém me faz de bobo e fica por isso mesmo - ele pensava completamente embriagado, enquanto preparava-se para dormir.

30 de Dezembro de 2006, às 13h50min

— Eu não devia te pagar nem um tostão, Nilo. Você não cumpriu o prometido, mas como sou sujeito homem, está aqui a parte que lhe cabe - e Reinaldo, que encontrava-se com Nilo em uma boteco, lhe deu o envelope com seu pagamento. — E a tal garota, como ficou a situação?

— Não apareceu. Esperei o dia todo e ela não foi.

Reinaldo riu, equilibrando o toco de cigarro no canto da boca.

Ninguém ria de Nilo.

Aquela risada foi o estopim que aumentou a raiva que ele sentia.

— Pode parar! Não vai ficar rindo da minha cara - Nilo queixou-se. — Vou dar uma passada lá, Reinaldo. Vou até a casa pra ver se vejo a franguinha.

— Só tome cuidado. Se é amiga do filho do doutor, é jovem e talvez seja menor de idade ainda. E a família é influente. Não vai fazer nenhuma merda...

— Não vou, não. Vou só dar uns apertões nela, sentir aquelas carnes gostosas. Mas antes, vou tomar mais umas cervejas por aqui mesmo pra esquentar. Vou esperar mais um pouco... De repente, eu espero escurecer.

E Nilo ficou no bar.

Bebeu todo o dinheiro que havia recebido e seguiu para a casa do pai de Daniel quando já passava das nove da noite. Uma vez lá, abrigou-se perto ao muro, aguardando oportunidade de falar com a garota.